Somos colonizados por um número enorme de bactérias, fungos, vírus e arqueias. A formação de nossa microbiota tem início mesmo antes do nascimento, influenciada diretamente pela microbiota de nossa mãe. Os microrganismos são sabidamente importantes como moduladores de vários processos fisiológicos, incluindo adiposidade, metabolismo energético, pressão arterial, glicemia, cognição etc. Esse microbioma modula, portanto, vários aspectos de nosso fenótipo desde sempre em nosso processo evolutivo. Recentemente, várias mudanças têm acontecido rapidamente em nosso hábitat, dificultando uma adaptação adequada da microbiota.

Acredita-se que desde a fertilização é possível que o esperma já “carregue” alguns microrganismos para dentro do útero, inclusive para o óvulo e o desenvolvimento do embrião. O assunto é ainda controverso, já que embora se identifique DNA bacteriano no útero e na placenta, não necessariamente há correlação com a presença de bactérias vivas nesses locais.

A microbiota materna pode influenciar o feto indiretamente, via sistema imune e metabólitos microbianos que podem cruzar a placenta. É com o parto, contudo, que de fato nossa colonização se inicia. Os tipos de parto e aleitamento são essenciais para o desenvolvimento de uma microbiota saudável ou não. O leite materno contém substâncias essenciais para a formação de um microbioma saudável, especialmente os oligossacarídeos.

O acelerado processo de urbanização, o uso excessivo de antibióticos, mudanças na dieta, o incremento de cesarianas e a falta de aleitamento natural vêm provocando profundas modificações em nosso microbioma, o que pode explicar as recentes epidemias de doenças alérgicas, degenerativas a autoimunes.

Intervenções possíveis para tentar modificar de forma positiva essa microbiota alterada incluem o desenvolvimento de “leites maternos sintéticos”, a conservação de fezes saudáveis antes do uso de antibióticos e seu uso posterior para recuperar o microbioma e, naturalmente uso de probióticos.
Dr. Ricardo Correa Barbuti
Médico assistente dos Grupos de Estômago e Esôfago do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. CRM/SP 66.103

Código Zinc: SABR.BCL.19.07.1372

REFERÊNCIAS

  1. Dominguez-Bello MG, Godoy-Vitorino F, Knight R, Blaser MJ.

    Role of the microbiome in human development.

    Gut 2019;68:1108–1114.