A queixa de ardor ao urinar tem significado distinto em jovens e adultos. Nos homens, a causa mais frequente são uretrites por transmissão sexual e, nas mulheres, são uretrocistites na maioria das vezes por enteropatógenos. A frequência de sintomas, como disúria, urgência miccional e sensibilidade suprapúbica, é muito maior no sexo feminino do que no masculino. O presente artigo enfoca infecção urinária em mulheres jovens.

É importante diferenciar a infecção do trato urinário baixo, a uretrocistite, da infecção do trato urinário alto, a pielonefrite. A primeira é uma condição que traz muito desconforto, mas pouco risco sistêmico. A segunda pode ser assintomática, mas pode evoluir para quadros clínicos graves.

A avaliação de mulheres com queixa de infecção em trato urinário baixo implica questionar se a paciente está ou poderia estar grávida. Na possibilidade de gravidez, a abordagem será diferente do que será discutido a seguir relativo a este artigo científico. O segundo ponto importante na abordagem da disúria, quando referida com mais frequência ao final da micção, é questionar sobre a existência de infecção vulvovaginal, que seria a causa do sintoma e, consequentemente, o tratamento seria específico para a vaginite.

No entanto, a maioria dos casos de disúria ocorre em mulheres não grávidas nem com vulvovaginite e um dos desafios no tratamento das infecções agudas é o quanto será possível com uma dose única de antibiótico reduzir a infecção sem recorrência. Aliado à remissão dos sintomas, há sempre a imperiosidade em saber, seja em um hospital, seja em uma localidade, qual é o perfil de sensibilidade antibiótica das cepas bacterianas mais envolvidas nas infecções do trato urinário baixo.

Recentemente, o uso de nitrofurantoína e fosfomicina aumentou em todo o mundo, desde que várias diretrizes as recomendaram como terapia de primeira linha para infecção do trato urinário inferior. Ambos os medicamentos estão disponíveis para dispensação no Brasil.

O objetivo deste estudo foi comparar a eficácia clínica e microbiológica de nitrofurantoína e fosfomicina em mulheres não grávidas, sem corrimento vaginal e sem manifestações sistêmicas, como febre, calafrios ou dor lombar. A queixa principal foi disúria ou urgência miccional ou dor suprapúbica com leucócitos ao exame de urina. O ensaio clínico aleatorizou 513 mulheres em dois grupos pareados 1:1. Uma parte composta de 255 mulheres recebeu nitrofurantoína oral, 100 mg, três vezes ao dia, durante cinco dias. A outra parte com 258 mulheres recebeu uma dose única de 3 g de fosfomicina oral (n = 258). Todas retornaram em 14 e 28 dias após o término da terapia para avaliação clínica e nova coleta de urina.

Das 513 pacientes incluídas, 475 (93%) completaram o estudo e 377 (73%) tiveram resultado positivo confirmado na urocultura de base. A resolução clínica até o dia 28 foi alcançada em 171 de 244 pacientes (70%) que estavam recebendo nitrofurantoína versus 139 de 241 pacientes (58%) que estavam recebendo fosfomicina, ou seja, uma diferença de 12% a favor do uso da nitrofurantoína. A negativação da urocultura ocorreu em 74% daquelas que utilizaram nitrofurantoína comparadas a 63% de quem usou fosfomicina. Eventos adversos foram poucos, como náusea e diarreia, 3% no grupo nitrofurantoína e 1% no grupo fosfomicina.

O uso de nitrofurantoína por cinco dias resultou em melhora clínica e eliminação de patógenos mais eficaz do que a dose única de fosfomicina.
Dr. Paulo A. Lotufo
Professor titular da Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. CRM-SP 39.863.

Código Zinc: SABR.SA.19.07.1409b

REFERÊNCIAS

  1. Huttner A, Kowalczyk A, Turjeman A, Babich T, Brossier C, Eliakim-Raz N, et al.

    Effect of 5-day nitrofurantoin vs. single-dose fosfomycin on clinical resolution of uncomplicated lower urinary tract infection in women: a randomized clinical trial

    JAMA. 2018;319(17):1781-9.