Diretrizes clínicas da Rede Canadense de Tratamentos de Humor e Ansiedade (Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments – CANMAT) para manejo de adultos com transtorno depressivo maior: seção 6. Populações especiais: jovens, mulheres e idosos

A Rede Canadense de Tratamentos de Humor e Ansiedade (Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments [CANMAT]) é uma organização científica e educacional sem fins lucrativos que, em 2009, publicou uma revisão de diretrizes clínicas baseadas em evidências científicas para o tratamento dos transtornos depressivos. O presente artigo é parte da atualização de 2016 que aborda as recomendações voltadas a grupos com características específicas – jovens, mulheres e idosos – que têm particularidades, especialmente quanto ao tratamento.

 A revisão incluiu estudos relevantes publicados em inglês no período de janeiro de 2009 a dezembro de 2015, pesquisados nas bases de dados PubMed, PsychInfo, Cochrane Register of Clinical Trials, outras diretrizes clínicas e bibliografias adicionais. No texto, cada recomendação inclui o nível de evidência e, nos casos de tratamento, as opções de primeira, segunda e terceira linhas são baseadas tanto no nível de evidência quanto na relevância na prática clínica, segundo a opinião de especialistas dos comitês da CANMAT.

Na gravidez, a depressão não tratada está associada a muitos desfechos obstétricos adversos, incluindo recém-nascidos pequenos para a idade gestacional, internação em unidade de terapia intensiva neonatal, aumento de complicações neonatais, dificuldade na relação mãe-bebê, atrasos no desenvolvimento e problemas cognitivos, comportamentais e emocionais na criança. A primeira linha de tratamento é terapia cognitivo-comportamental (TCG) ou interpessoal, individual ou em grupo. Antidepressivos podem ser usados de forma isolada ou combinada à terapia. Entretanto, recomenda-se precaução com clomipramina (por suspeita de associação com risco aumentado de malformações cardiovasculares) e inibidores da monoaminoxidase (interação com alguns analgésicos e anestésicos).

O tratamento da depressão no período puerperal segue as mesmas linhas gerais, não havendo contraindicação do uso de antidepressivos a mulheres que estejam amamentando. A exposição ao fármaco pelo leite é cinco a dez vezes menor do que a intraútero e geralmente sem efeitos adversos significativos ao bebê. Entretanto, recém-nascidos prematuros e/ou com disfunção renal/hepática podem desenvolver níveis séricos maiores e devem ser avaliados pelo pediatra.

A perimenopausa é um período de risco aumentado de depressão – tanto para início como recorrência. Muitos sintomas típicos dessa fase (fogachos, distúrbios do sono, secura vaginal, redução da libido e alteração da memória) podem piorar o humor, sendo os dois primeiros, também, preditores independentes de depressão na perimenopausa.

A desvelafaxina foi a única medicação estudada através de ensaios randomizados placebo controlados para avaliar a eficácia e segurança desse antidepressivo para mulheres na perimenopausa. Estes estudos mostraram a sua eficácia em relação ao placebo, levando sua recomendação como fármaco de primeira linha no tratamento da depressão nessa fase (outra opção é a TCG). Outros antidepressivos podem ser usados, mas não há estudos comparativos – recomendando-se, portanto, que o tratamento não seja diferente do de adultos da população geral.

As Diretrizes enfatizam a importância do tratamento da depressão perinatal e na perimenopausa, destacando as particularidades de cada período e fornecendo recomendações com nível de evidência para aplicação na prática clínica.

Dra. Patrícia de Rossi
Mestre em Ginecologia e Obstetrícia pela Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (FMUSP) Preceptora da Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia no Conjunto Hospitalar do Mandaqui (São Paulo/SP) CRM/SP 79.066/SP | RQE 51.165


REFERÊNCIAS

  1. MacQueen GM, Frey BN, Ismail Z, Jaworska N, Steiner M, Lieshout RJ, et al.

    CANMAT Depression Work Group. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2016 clinical guidelines for the management of adults with major depressive disorder: section 6. Special populations: youth, women, and the elderly.

    Can J Psychiatry. 2016 Sep;61(9):588-603. doi: 10.1177/0706743716659276. Epub 2016 Aug 2. Review. Erratum in: Can J Psychiatry. 2017;62(5):356.