A base do diagnóstico da esclerose múltipla (EM) se concentra na disseminação de lesões no sistema nervoso central ao longo do tempo. Entretanto, essas características clínicas não são condições exclusivas, e a eliminação de outras condições semelhantes é muito importante para o médico. Doenças infecciosas, degenerativas, metabólicas, nutricionais, autoimunes e neoplásicas podem mimetizar a EM e, como esta condição não possui um biomarcador, o clínico deve realizar o diagnóstico diferencial. Os sinais de alerta para diagnosticar a EM são geralmente os mesmos em todo o mundo e incluem os extremos de idade, apresentações atípicas e doenças sistêmicas concomitantes. Entretanto, alguns aspectos regionais devem ser considerados.

Nesse sentido, pesquisadores realizaram uma revisão para destacar as condições mais prevalentes na América Latina (AL) que devem ser levadas em consideração quando um paciente estiver com suspeita de EM.

Muitas doenças infecciosas que afetam o sistema nervoso central (SNC) podem mimetizar a EM.

A neurossífilis, decorrente da sífilis que é bastante prevalente na AL, pode mimetizar a EM e deve ser considerada para o diagnóstico diferencial. Além dos testes sanguíneos para a sífilis, a ressonância magnética (RM) pode auxiliar no diagnóstico diferencial.

O HIV também pode levar a manifestações neurológicas primárias, assim como facilitar a presença de outras infecções do SNC, facilitadas pela imunodeficiência. Os pacientes com sinais e sintomas relacionados ao SNC devem ser investigados para o HIV/AIDS, pelo menos com um exame de sangue.

A síndrome de Baggio-Yoshinari, transmitida por carrapatos, também pode mimetizando a EM. Os exames de sangue para essa condição não estão facilmente disponíveis e, geralmente, os clínicos devem recorrer a universidades ou instituições especializadas.

Algumas manifestações da neurotuberculose podem mimetizar a EM, pelo menos no início da infecção. As radiografias de tórax e os testes cutâneos de tuberculina são avaliações de rotina que podem auxiliar na identificação.

Embora a neurocisticercose esteja mais relacionada à epilepsia e/ou à hipertensão intracraniana, as características de remissão e exacerbação dos sintomas podem exigir diagnósticos diferenciais com a EM. As imagens de RM de pacientes com neurocisticercose também podem mimetizar lesões da EM. As imagens de lesões calcificadas podem auxiliar no diagnóstico diferencial.

A paraparesia espástica tropical, ou mielopatia associada ao Vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1 (HTLV1), é uma condição que pode simular a EM progressiva primária. Existe uma alta prevalência de HTLV1 na AL, que pode ser transmitida principalmente por contato sexual, sanguíneo e pela amamentação. O HTLV1 pode representar um problema para o diagnóstico equivocado de EM. Os pacientes devem ser investigados quanto à presença de anticorpos contra o HTLV1/2 no plasma e no líquido espinhal.

A dengue, chikungunya e o zika são doenças causadas por arbovírus que podem ter manifestações relacionadas ao SNC. Os exames de sangue são úteis na identificação dessas doenças.

A linfohistiocitose hemofagocítica (LHH) é uma doença metabólica que pode ser considerada para o diagnóstico diferencial na EM pediátrica. Especialmente junto com a dengue, a LHH pode evoluir com lesões desmielinizantes no SNC e mimetizar a EM.

A deficiência de alguns nutrientes, principalmente em áreas mais pobres, pode levar a doenças que afetam o SNC e mimetizam a EM.

Manifestações neurológicas da deficiência de vitamina B12 poderiam mimetizar a EM, particularmente no estágio primário progressivo. Portanto, a investigação dos níveis séricos de vitamina B12 se torna necessária.

A deficiência de cobre pode se manifestar como uma mielopatia crônica e progressiva, e pode ser confundida com formas progressivas primárias de EM. O consumo excessivo de zinco via frutos do mar pode induzir a deficiência de cobre. A deficiência de cobre está frequentemente associada à patologia hematológica (anemia, neutropenia e trombocitopenia) e pode auxiliar no seu diagnóstico.

Algumas situações específicas relacionadas à desnutrição também podem requerer diagnósticos diferenciais para doenças desmielinizantes.

O consumo de álcool e drogas ilícitas, frequentemente acompanham desnutrição e infecções (HIV, HTLV, sífilis e tuberculose), e têm sido discutidos como potenciais fatores de confusão nos diagnósticos de EM. O abuso do consumo dessas substâncias também pode levar a sinais e sintomas neurológicos.

Entre as doenças neoplásicas, os linfomas do SNC são condições importantes para diagnósticos diferenciais. As técnicas de RM e outros exames de imagens podem ajudar nos diagnósticos diferenciais.

As doenças autoimunes também devem ser levadas em consideração e deve ser realizar uma investigação diagnóstica para os pacientes com suspeita de EM.

A neuromielite óptica (NMO) é responsável por 18,3% de todas as síndromes desmielinizantes diagnosticadas na AL. São mais prevalentes entre os afrodescendentes, especialmente em cidades brasileiras. Devido a sua apresentação neurológica pode ser aconselhável testar biomarcadores para NMO.

Encefalomielite disseminada aguda (ADEM) é uma doença desmielinizante inflamatória imunomediada que afeta predominantemente crianças. A RM geralmente demonstra lesões características que a diferenciam da EM.
Na opinião dos autores esta revisão destaca os principais aspectos para o diagnóstico diferencial e a correta identificação da EM na AL.

Acesso em 15 Ago 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5617098/pdf/10.1177_2055217317714279.pdf

Na opinião dos autores esta revisão destaca os principais aspectos para o diagnóstico diferencial e a correta identificação da EM na AL.

REFERÊNCIAS

  1. Fragoso YD, Elso FG, Carrá A.

    Differential diagnosis of multiple sclerosis in Latin America. Mult Scler J Exp Transl Clin.

    2017 Sep 25;3(3):2055217317714279.