A esclerose múltipla (EM) geralmente acomete adultos jovens, e causa uma inflamação da substância branca e cinzenta do sistema nervoso central (SNC), através de reações autoimunes desencadeadas pela interação de fatores genéticos e ambientais. Os fatores ambientais mais frequentemente identificados como gatilhos para a EM são tabagismo, estresse, condições higiênicas, imunizações e infecções virais.

A prevalência de EM é maior entre os caucasianos, em países ocidentais do hemisfério norte, e não é frequente no Brasil, devido a uma população racialmente mista e ao clima tropical.

Os primeiros dados sobre EM no Brasil foram relatados em 1939, com a descrição de 22 casos. O primeiro estudo brasileiro foi realizado com dados de 1995 a 1998, incluindo 22 centros de referência de todas as regiões, somando um total de 602 pacientes. Os resultados mostraram que 30% dos pacientes tinham ascendência africana e um perfil corresponde ao “tipo Western MS ".

Para ampliar as informações sobre a EM no Brasil, pesquisadores realizaram uma revisão sistemática de estudos epidemiológicos de diferentes regiões do Brasil, para observar os diferentes aspectos daqueles obtidos por estudos individuais que analisaram um número menor de pacientes.

Para a revisão, que foi publicada no periódico científico Clinical Neurology and Neurosurgery, os investigadores realizaram uma busca sistemática em bases de dados de literatura médica, para identificar estudos brasileiros publicados no período de 1990 a 2012. As pesquisas foram realizadas nas bases de dados PubMed, SciELO e Lilacs.

A busca resultou em estudos que analisaram um total de 45 pacientes pediátricos e 1.922 adultos. Os resultados mostraram que a média de idade de início da EM foi de 10 anos para os pacientes pediátricos e 32 anos para os adultos. As mulheres foram mais afetadas, sendo que a proporção, em relação aos homens, foi de 1,6:1 nos pacientes pediátricos e 3:1 nos adultos. As principais queixas estiveram relacionadas com sintomas motores, tanto nas crianças (47%) quanto nos adultos (36%). Em relação aos padrões clínicos, a esclerose múltipla surto-remissão (EMSR) foi mais comum, correspondendo a 87% dos casos pediátricos e 81% dos casos em adultos. Os principais preditores de incapacidade e de progressão da EM foram o número de recaídas durante o primeiro ano da doença, início da doença em idade avançada (≥30 anos), ser do sexo masculino e ter ascendência africana.
Os autores da revisão sistemática concluíram que, o perfil demográfico e clínico da EM no Brasil parece corresponder ao perfil encontrado nas áreas com alta prevalência da doença. Os preditores de incapacidade a longo prazo encontrados em populações caucasianas também foram identificados na população brasileira. A ascendência africana é um fator de risco para o início mais precoce da incapacidade e da progressão da doença e deve ser levada em consideração nas tomadas de decisões terapêuticas, particularmente nas áreas com maior número de afrodescendentes.

Acesso em 15 ago 2019
. Disponível em: https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0303-8467(16)30250-5

O perfil demográfico e clínico da EM no Brasil parece corresponder ao perfil encontrado nas áreas com alta prevalência da doença.

REFERÊNCIAS

  1. Vasconcelos CC, Thuler LC, Rodrigues BC, Calmon AB, Alvarenga RM.

    Multiple sclerosis in Brazil: A systematic review.

    Clin Neurol Neurosurg. 2016 Dec;151:24-30.