Em 2015, um artigo publicado na revista PLOS One evidenciou fatores que alteram a sensibilidade à dor com o avançar da idade, como perda de nociceptores, diminuição do limiar de transmissão da dor, mudanças nas funções dos sistemas nervosos central e periférico, além de alterações na pele.

A dor cervical é um problema musculoesquelético comum nas populações mais idosas e foi escolhida como modelo clínico de dor crônica para o desenvolvimento desse estudo, cujo objetivo era avaliar a sensibilidade à dor por meio de testes sensoriais quantitativos limiares mecânicos e térmicos e testes supralimiares térmicos em mulheres idosas com dores cervicais comparadas ao grupo controle sem dor. Como fatores psicológicos são comumente associados a dores crônicas e sensibilidade álgica, avaliações de depressão e ansiedade foram incluídas no estudo.

Participaram da avaliação 60 mulheres (30 com dores cervicais e 30 no grupo controle), com idades entre 65 e 75 anos. O critério de inclusão era dor idiopática no pescoço por ao menos três meses, com escore NDI-TH (versão tailandesa do índice de deficiência do pescoço) maior que ou igual a 10 (entre 100 possíveis).

Na avaliação do limiar de dor à pressão, as mulheres com dor cervical tiveram um limiar significativamente menor sobre o pilar articular C5-C6 comparado ao grupo controle, fato não encontrado na avaliação da musculatura tibial anterior (sem diferença entre os grupos).

Na avaliação do limiar de dor à temperatura, redução significativa do limiar foi verificada nas mulheres idosas com dor cervical quando submetidas a temperaturas frias, tanto na região da coluna cervical quanto na musculatura tibial anterior. Com a avaliação do calor, não houve diferença significativa entre os grupos em nenhuma região testada, assim como na avaliação de supralimiares de calor.

A diminuição do limiar da dor à pressão e ao frio sobre a coluna cervical pode indicar sensibilização periférica aos nociceptores, como consequência da artropatia cervical nesse grupo, além de associar a artropatia a um aumento nas substâncias para dor (substância P, bradicinina, prostaglandinas) na modulação da inflamação periférica. A hipersensibilidade generalizada a estímulos frios pode sugerir a presença de sensibilização central, que pode relacionar-se com disfunções do sistema nervoso central, particularmente em sistemas inibitórios descendentes comprometidos.

As diferenças obtidas entre os estímulos frios e quentes podem refletir uma diferença no mecanismo de processamento do estímulo doloroso, assim como a ausência de diferença entre os estímulos de calor (limiar e supralimiar) sugere que a sensibilização central, provavelmente, não é uma característica da dor crônica cervical em idosos.

Há alterações relacionadas à idade nos sistemas nervosos periférico e central, incluindo redução no número e na densidade das fibras mielinizadas e não mielinizadas, córtex somatossensorial primário menor e sistema inibitório endógeno deficiente de dor. Vários estudos demonstraram aumento dos limiares de dor em pacientes idosos quando comparados a pessoas mais jovens.
Vale citar a dificuldade em recrutar pacientes para participarem do estudo com queixas de dor cervical crônica isolada. Ademais, a experiência de dor nos pacientes idosos pode influenciar o desfecho de expectativas e dor, assim como o uso crônico de opioides pode influenciar a sensibilidade dolorosa.



Dr. Guilherme Henrique Ricardo da Costa
Médico ortopedista membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT)
Fellow do Grupo de Coluna do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP)  CRM-SP 167.997

Dr. Allan Hiroshi de Araújo Ono

Médico ortopedista membro da SBOT e da Sociedade Brasileira de Coluna
Médico-assistente do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP  CRM-SP 135.509 | RQE 40.604 

Código Zinc:  SABR.SA.19.07.1337

REFERÊNCIAS

  1. Uthaikhup S, Prasert R, Paungmali A, Boontha K.

    Altered pain sensitivity in elderly women with chronic neck pain.

    PLOS ONE. 2015;10(6):e0128946.