A epilepsia em atividade afeta cerca de 6,4/1.000 indivíduos, sendo que 50% das mulheres com epilepsia estão em idade reprodutiva. Neste comentário de artigo será abordada a orientação a essas mulheres com relação aos potenciais efeitos teratogênicos dos fármacos antiepiléticos.

Epilepsia em atividade afeta cerca de 6,4/1.000 indivíduos, incluindo aproximadamente 50% das mulheres em idade reprodutiva. Na avaliação dessas mulheres, deve-se aconselhá-las a respeito dos potenciais efeitos teratogênicos dos fármacos antiepiléticos e fornecer informação sobre opções contraceptivas para evitar uma gestação não planejada. Para tal, deve-se considerar interações entre os anticonvulsivantes e anticoncepcionais hormonais, pois o uso conjunto pode reduzir a eficácia contraceptiva ou controlar convulsões.


A anamnese deve abranger tópicos específicos, como o estado atual da epilepsia, planos de gestação e doenças associadas. A história da epilepsia deve ser esmiuçada quanto à idade de início das convulsões, se estão controladas, quais medicamentos estão sendo utilizados e à presença de efeitos colaterais. Antecedentes ginecológicos e obstétricos devem incluir contraceptivos usados no passado, método de preferência, intenção de gravidez e gestações anteriores, história menstrual e de infecções sexualmente transmissíveis. Finalmente, devem ser levantadas comorbidades que podem influenciar a escolha de anticoncepcionais, como hipertensão arterial, doença cardíaca isquêmica, enxaqueca, acidente vascular cerebral, tromboembolismo, doença renal ou hepática.

Se a paciente não deseja engravidar, devem ser oferecidos métodos contraceptivos de longa duração; métodos de barreira usados isoladamente têm alta taxa de falha, portanto não são recomendados. Deve-se considerar a preferência da paciente, a eficácia do método e a interação com os fármacos antiepiléticos utilizados: alguns são indutores enzimáticos do citocromo P450 e aumentam o metabolismo dos estrogênios e progestagênios, reduzindo seu nível sérico (Quadro 1).



Pacientes em uso de indutores enzimáticos apresentam mais chance de falha contraceptiva com pílulas anticoncepcionais combinadas ou somente de progestagênios e implantes de progestagênios, devendo ser orientadas a associar um método de barreira, como preservativos ou diafragma. Outras pacientes que necessitam de proteção adicional são as usuárias de anéis e adesivos contraceptivos. Porém, há alternativas que não apresentam eficácia diminuída: dispositivos intrauterinos (incluindo liberadores de levonorgestrel) e acetato de medroxiprogesterona de depósito (injetável trimestral).


Medicações antiepilépticas não indutoras enzimáticas não interferem na eficácia dos métodos contraceptivos hormonais, porém os contraceptivos hormonais orais  combinados reduzem o nível sérico de lamotrigina em 40% a 60%, podendo resultar em piora no controle das convulsões e requerer ajuste da dose do antiepiléptico. Se a mulher planeja engravidar, deve ser orientada quanto aos riscos teratogênicos associados ao uso de determinados antiepilépticos (o maior é com valproato de sódio, com até 10%) e, caso seja necessário, encaminhada ao neurologista para substituir o fármaco em uso por outra opção mais segura.

Medicações antiepilépticas não indutoras enzimáticas não interferem na eficácia dos métodos contraceptivos hormonais, porém os contraceptivos hormonais orais combinados reduzem o nível sérico de lamotrigina em 40% a 60%, podendo resultar em piora no controle das convulsões e requerer ajuste da dose do antiepiléptico

Dra. Patrícia de Rossi - CRM/SP 79066

Acesso em 09 Set 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28495788

REFERÊNCIAS

  1. Gooneratne IK, Wimalaratna M, Ranaweera AKP, Wimalaratna S.

    Contraception advice for women with epilepsy.

    BMJ. 2017;357:j2010. doi: 10.1136/bmj.j2010.