A endometriose é uma doença que pode ocasionar dor, infertilidade e redução da qualidade de vida, com interferência na vida diária e relacionamentos pessoais e profissionais. Além de levar a todas essas complicações, um dos problemas na sua abordagem é o longo tempo para diagnóstico da doença – 4 a 11 anos, segundo dados mais recentes.

A endometriose não tem achados nem marcadores biológicos patognomônicos e é definida por achados histológicos. Dependendo da localização e profundidade, pode se apresentar como peritoneal superficial, endometrioma ovariano ou endometriose profunda. Porém, nem sempre há correlação entre os sintomas e a extensão e a gravidade da doença, e a ausência de lesões evidentes não elimina a possibilidade de endometriose.

O padrão-ouro para diagnosticá-la é laparoscopia com ou sem comprovação histológica. Essa abordagem apresenta como desvantagens acessibilidade e custo e não consegue identificar todas as lesões (especialmente na endometriose profunda).

Ao considerar a endometriose uma doença crônica, cíclica (relacionada ao ciclo menstrual), inflamatória e sistêmica, os autores sugerem uma mudança no ponto de vista da abordagem diagnóstica, dando preferência a elementos clínicos. Essa nova visão teria potencial para diminuir o tempo para diagnóstico e ser mais inclusiva, mas depende de uma metodologia mais apurada para identificar os casos.

Foram revisados estudos que correlacionaram dados clínicos de anamnese (sintomas, características do ciclo menstrual), histórias pessoal e familiar e exame físico em pacientes com endometriose (diagnosticada por laparoscopia, histologia e/ou exame de imagem). Os resultados quanto ao valor preditivo dos sinais, sintomas e achados clínicos são apresentados na forma de tabela e, com base neles, os autores sugerem um algoritmo prático para diagnóstico clínico da endometriose em quatro partes: avalie a presença de sintomas; revise a história da paciente; realize exame físico; realize/solicite exames de imagem. Para cada etapa, os achados são separados em duas listas – consistentes (sugestivos) de endometriose e considerar outros diagnósticos além de endometriose (que podem coexistir com endometriose e não descartam a presença da doença). Em geral, a presença de dor pélvica cíclica, persistente com ou sem piora cíclica, particularmente na presença de outros sintomas, história e achados de exame físico associados à endometriose, aumenta sua probabilidade. Quando esses achados não estão bem definidos, complementação com ultrassom transvaginal é uma opção acessível e de baixo custo.

Destaca-se que a intenção do algoritmo é tornar o diagnóstico da endometriose mais acessível, diminuindo o impacto negativo da doença não diagnosticada e não tratada – aliviando a dor e evitando sua persistência, prevenindo a infertilidade e mudando a trajetória de vida das pacientes. Assim, os médicos podem se sentir mais encorajados a fazer um diagnóstico clínico precoce e sem procedimento invasivo.

Dra. Patrícia de Rossi

Mestre em Ginecologia e Obstetrícia pela Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (FMUSP) Preceptora da Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia no Conjunto. Hospitalar do Mandaqui (São Paulo/SP) CRM/SP 79.066/SP | RQE 51.165

Código Zinc: SABR.SA.19.08.1509c

REFERÊNCIAS

  1. Agarwal SK, Chapron C, Giudice LC, Laufer MR, Leyland N, Missmer SA, et al.

    Clinical diagnosis of endometriosis: a call to action.

    Am J Obstet Gynecol. 2019;220(4):354.e1-354.e12. doi: 10.1016/j.ajog.2018.12.039. Epub 2019 Jan 6.