Diversos estudos sugerem que a dor interfere no sono, na qualidade de vida, nos sintomas de ansiedade ou depressão e nos cuidados com a saúde, o que demonstra possível associação com outras doenças e reflete a dificuldade de tratá-la.

Em 2018, um estudo publicado em The Lancet Neurology definiu dor neuropática como aquela associada a lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial, como ocorre no diabetes melito, infecção por herpes-zóster, acidentes vasculares, esclerose múltipla e lesões medulares. A frequência da dor neuropática é maior em pessoas com mais de 60 anos do que em pacientes mais jovens, mais comum em mulheres do que em homens e mais intensa do que a dor não neuropática. Diversos estudos sugerem que a dor interfere no sono, na qualidade de vida, nos sintomas de ansiedade ou depressão e nos cuidados com a saúde, o que demonstra possível associação com outras doenças e reflete a dificuldade de tratá-la.

Dois tipos principais de questionários são validados: os questionários de triagem (úteis na identificação do paciente, melhorando o diagnóstico, o tratamento e o manejo clínico) e os questionários de avaliação (utilizados para mensurar os sintomas, complementar ao questionário de triagem, assim como para monitorar a resposta ao tratamento e criar perfis fenotípicos no âmbito de pesquisas).

Nos estudos da validação original dos questionários de triagem, foram obtidas boa a excelente sensibilidade (67% a 85%) e especificidade (74% a 90%) na discriminação entre dor neuropática e não neuropática, sendo a avaliação blindada por especialistas o padrão-ouro. Os questionários são simples e de fácil utilização, podendo ser aplicados por especialistas e não especialistas, além de serem validados em mais de 90 línguas diferentes, incluindo países com economias menos desenvolvidas, o que demonstra a natureza universal da descrição de dor neuropática (exemplos: queimação, choque, formigamento, picadas, agulhadas, dormência, coceira ou dor provocada por escovação) e a habilidade de triagem em todo o mundo.

Os questionários de triagem podem predizer a cronificação da dor, inclusive no pós-cirúrgico, independentemente da dor aguda no pós-operatório ou da hiperalgesia. Ademais, podem ser empregados em estudos de condições médicas que apresentam componentes mistos de dores neuropática e nociceptiva, como nos casos de neoplasias, dor cervical ou lombar, e lesões crônicas por frio não congelante. Entretanto, os questionários de triagem têm limitações, não fornecendo informações sobre a história clínica da dor, e o exame da dor sensorial é sucinto ou ausente, sendo validado para utilização em pacientes com dor focal, e não dor difusa. Além disso, a falta de acurácia na utilização pode levar a sobrediagnóstico e subdiagnóstico em 10% a 20% das avaliações, particularmente em condições dolorosas mistas. Na presença de resultados sugestivos de dor neuropática, é necessário realizar consulta para efetuar exame neurológico, na tentativa de confirmar lesão ou doença do sistema nervoso. Os questionários de avaliação são baseados na descrição sensitiva (caracterização da
dor pelo paciente), que pode ser agrupada por dimensão ou combinação dos sintomas, porém não constam informações do exame clínico nem do sensitivo, ou ausência de sintomas, como perda sensorial. A caracterização da dor facilita monitorar o tratamento,além de identificar quais sintomas estão sendo aliviados. Entretanto, os questionários podem perder descritores potencialmente relevantes da dor neuropática, em razão da não inclusão de determinados sintomas nos itens de avaliação.

Estudos fisiopatológicos sugerem diferentes mecanismos de ação da dor puramente espontânea provocada por lesões periféricas ou centrais (pode refletir dano às vias nociceptivas) do que aquelas com dor evocada pela mesma causa (aferentes nociceptivos poupados ou sensibilizados). Além disso, diferentes condições neuropáticas compartilham sintomas ou combinações de sintomas comuns, ao passo que, para condições com a mesma causa específica, os pacientes podem reportar várias combinações de sintomas, sugerindo mecanismo distinto da origem da dor. Vários estudos sugerem que os analgésicos não atuam de forma uniforme no tratamento da intensidade da dor neuropática, atuando, preferencialmente, em sintomas específicos a causas dos sintomas. Tais achados sugerem classificar os pacientes em perfis fenotípicos para estudos clínicos randomizados, em vez da doença de base, visto
que o perfil fenotípico pode predizer o tratamento.

O estudo conclui que o desenvolvimento e o uso disseminado de questionários de dor neuropática evidenciam a subjetividade da dor, tornando seu uso essencial ao diagnóstico e à avaliação, apesar da disponibilidade de métodos cada vez mais sofisticados para investigar lesões neurológicas.

A frequência da dor neuropática é maior em pessoas com mais de 60 anos do que em pacientes mais jovens, mais comum em mulheres do que em homens e mais intensa do que a dor não neuropática. Diversos estudos sugerem que a dor interfere no sono, na qualidade de vida, nos sintomas de ansiedade ou depressão e nos cuidados com a saúde, o que demonstra possível associação com outras doenças e reflete a dificuldade de tratá-la.

Dr. Allan Hiroshi de Araújo Ono - CRM/SP 135.509

Dr. Guilherme Henrique Ricardo da Cost
a - CRM/SP: 167.997

Acesso em 20 set de 02019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29598922

REFERÊNCIAS

  1. Attal N, Bouhassira D, Baron R.

    Diagnosis and assessment of neuropathic pain through questionnaires.

    The Lancet Neurology. 2018;17(5):456-66.