Este estudo aborda a febre em crianças, uma das queixas mais frequentes entre todos os atendimentos pediátricos, tanto em consultas ambulatoriais como em atendimentos de emergência.

Apesar de ser considerada benigna e desejável para uma melhor resposta contra uma possível infecção, os pais ou responsáveis pelas crianças ainda a veem como uma doença em si e um risco para complicações maiores, como convulsões ou dano cerebral.

Nesse momento, o racional e o inconsciente se misturam, a ponto de se cunhar um termo específico para expressar essa forte sensação de ansiedade acompanhada de intensa insegurança: febrefobia ou fever phobia, termo criado e citado pela primeira vez por Schmitt em 1980.

Estudos com pais e cuidadores demonstraram que a principal medida adotada ante um episódio febril é a utilização de antipiréticos. Entretanto, grande parcela dos pais acaba intercalando antitérmicos para reduzir rapidamente a febre, esquema com escassas bases científicas e que agrega riscos de intoxicação e efeitos adversos.

Especialistas de vários países desaconselham essa prática, mas não há dados brasileiros a esse respeito. Este oportuno estudo visou descrever condutas terapêuticas e o uso alternado de antipiréticos dos pais brasileiros, diante da febre em crianças de zero a 6 anos, residentes no sul do Brasil. Foi um estudo transversal com 692 crianças de zero a 6 anos, tendo sido realizadas entrevistas domiciliares com os cuidadores utilizando um questionário validado.

Os resultados mostraram que cerca de 73% dos cuidadores no último episódio de febre da criança administraram antitérmico. A média de temperatura considerada febre foi de 37,4°C e a de febre alta, 38,7°C, valores bem abaixo dos mencionados na literatura.

A utilização de terapia alternada com antipiréticos foi relatada por 26,7% dos entrevistados, sendo justificada pela ausência de resposta à monoterapia e por indicação médica na maioria dos casos.

Os medicamentos mais utilizados foram dipirona e paracetamol (Tabela 1).

Tabela 1. Esquemas de antipiréticos utilizados na terapia alternada pelos cuidadores das crianças

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No estudo, os pesquisadores verificaram que dipirona foi o medicamento mais utilizado, possivelmente pelo menor custo em relação ao ibuprofeno e pela maior disponibilidade em nosso meio.

O estudo mostrou que cerca de 70% das doses utilizadas pelos cuidadores estavam abaixo da dose mínima recomendada para tratar febre. A administração de subdoses de antipiréticos e os valores de temperatura utilizados para o diagnóstico de febre abaixo dos valores preconizados e intercalados com antitérmicos sugerem falta de orientação dos cuidadores e “febrefobia”.

O estudo concluiu que medidas educativas, que esclareçam a população sobre o que é febre, quando e como a tratar, poderão auxiliar o uso correto dos medicamentos e evitarão a procura excessiva por consultas não programadas e atendimentos de emergência, além de reduzir riscos de sub ou superdosagem de medicamentos.
Dr. Tadeu Fernando Fernandes

Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria de São Paulo e pela Associação Médica Brasileira. Presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo – Regional Campinas e Presidente do Departamento de Cuidados Primários com a Criança da Sociedade de Pediatria de São Paulo,CRM/SP 46.876


Código Zinc:  SABR.SA.19.07.1402a

REFERÊNCIAS

  1. Pereira GL, Tavares NU, Mengue SS, Sal Pizzol TS.

    Therapeutic procedures and use of alternating antipyretic drugs for fever management in children

    J Pediatr (Rio J). 2013;89:25-32.