Um fato muito descrito, mas pouco provado, é a incidência maior de suicídio entre médicos. Uma das razões é que a metodologia para investigar mortes por lesões autoinfligidas é dependente da notificação adequada nessas situações, o que raramente ocorre. No entanto, outro aspecto da saúde mental dos médicos tem se tornado notório: o binômio depressão-ansiedade, principalmente nos médicos recém-formados em programas de residência médica. 

Para investigar a existência ou não de prevalência elevada de depressão e ansiedade entre médicos residentes, entre setembro e novembro de 2017, os autores pesquisaram, entre residentes de um hospital, não somente depressão ou ansiedade, mas também aplicaram testes específicos e validados tanto para o diagnóstico psiquiátrico e a síndrome de burnout como para quantificar a qualidade de vida. 

Os residentes foram avaliados de acordo com a idade, o sexo, o lugar de graduação, a especialidade e o ano de treinamento. As especialidades médicas foram categorizadas como “clínicas” (clínica geral e subespecialidades, incluindo neurologia, dermatologia e psiquiatria), “cirúrgicas” (cirurgia geral e subespecialidades cirúrgicas, ortopedia, neurocirurgia, ginecologia, otorrinolaringologia e oftalmologia) e “não clínicas, não cirúrgicas (patologia, radiologia e anestesiologia). 
 
Somente um terço dos convidados respondeu de forma completa aos questionários. A idade média foi de 28 anos, dois terços eram da área clínica e 80% estavam no primeiro ano de residência. 

A presença de depressão foi identificada em 19% dos participantes, ansiedade, em 16% e sintomas de estresse, em 18%. A síndrome de burnout foi diagnosticada em dois terços dos residentes. Para a metade deles, a qualidade de vida poderia ser melhor do que a vivida no momento da pesquisa.

A síndrome de burnout se associou tanto à depressão como à ansiedade. Porém, não houve relação entre depressão e idade, estado marital, especialidade médica e local de graduação.
 

A síndrome de burnout se associou tanto à depressão como à ansiedade. Porém, não houve relação entre depressão e idade, estado marital, especialidade médica e local de graduação

Os números obtidos nesse estudo em São Paulo foram relativamente similares aos de vários outros realizados em outros países e em épocas diversas. A limitação do estudo é o número expressivo de não respondentes entre os residentes de segundo e terceiro anos de treinamento e a não realização de seguimento prolongado, a única forma para explicar se aqueles com depressão apresentam mais síndrome de burnout ou, o inverso, se tal síndrome propiciaria depressão.

No entanto, tais dados são expressivos, mostrando que os médicos residentes apresentam estado depressivo e síndrome de burnout em prevalência elevada e qualidade de vida insatisfatória. 

Acesso em 01 NOV 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31185960  
 

REFERÊNCIAS

  1. Pasqualucci PL, Damaso LLM, Danila AH, Fatori D, Lotufo Neto F, Koch VHK. 

    Prevalence and correlates of depression, anxiety, and stress in medical residents of a Brazilian academic health system.

    BMC Medical Education. 2019;19:193