Nos últimos anos houve um aumento alarmante na prevalência e incidência de obesidade, com aumentos mais rápidos nos níveis de adiposidade em crianças, adolescentes e adultos jovens. Esse fato representa uma ameaça crescente à saúde pública, já que a obesidade iniciada durante a infância, e mantida na idade adulta, está associada a um perfil cardiometabólico alterado e a uma progressão acelerada da doença aterosclerótica. A associação entre adiposidade e doença cardiovascular em adultos está bem descrita, no entanto esse vínculo em crianças e adolescentes permanece incerto.

 

Estudos anteriores mostraram que crianças com adiposidade apresentavam frequência cardíaca mais alta, maior hiperemia em repouso e reativa, e maior diâmetro arterial em comparação com crianças com peso normal. Também apresentaram maior função endotelial e menor elasticidade arterial do que as crianças com peso normal, sugerindo um estado hiperêmico adaptativo em resposta à adiposidade pré-puberal. No entanto, ainda não está claro se essas respostas adaptativas persistem na adolescência, levando em conta as rápidas mudanças na composição corporal desta fase.

 

Assim, pesquisadores realizaram um estudo para avaliar se níveis elevados de adiposidade persistentes estão associados ao aumento da rigidez arterial e a modificações de fatores de risco metabólicos durante a adolescência.

 

Para o estudo, que foi publicado no periódico científico The Lancet Child & Adolescent Health, os investigadores incluíram indivíduos com medidas detalhadas de adiposidade coletadas entre os 9 e 17 anos de idade e a rigidez arterial avaliada (velocidade de onda de pulso carótida-femoral [VOP]) aos 17 anos. Os pesquisadores também calcularam o índice de massa corporal (IMC) e a relação cintura/altura a partir de medidas de peso, altura e circunferência da cintura. A gordura corporal foi avaliada usando repetidas tomografias de absorciometria por raios-x de dupla energia (DEXA). Os participantes foram classificados pelos os índices de gordura corporal (IGC) total e do tronco como normais (<75º percentil) ou alto (> 75º percentil). Os participantes foram classificados com metabolismo alterado se tivessem três ou mais dos seguintes fatores de risco: pressão arterial sistólica, triglicerídeos ou glicemia (todos> percentil 75º) altas ou níveis de lipoproteína de alta densidade baixos (percentil 25º).

 

Os pesquisadores incluíram 3.423 participantes, sendo 1.866 (54,5%) do sexo feminino e 1.557 (45,5%) do sexo masculino. A gordura corporal total foi associada positivamente à VOP aos 17 anos (0,004 m/s por kg). O IGC total persistentemente alto e o IGC de tronco entre os 9 e 17 anos de idade foram relacionados a um maior VOP (0,15 m/s por kg/m2 para ambos) em comparação com os indivíduos com menor IGC. As alterações metabólicas amplificaram o efeito adverso do alto IGC total na rigidez arterial, apresentando um VOP de 6,0 m/s nos participantes metabolicamente saudáveis e 6,2 m/s nos participantes metabolicamente alterados. Os participantes que diminuíram sua gordura corporal, alcançando um IGC total normal na adolescência, tiveram um VOP de 5,8 m/s, para os que eram metabolicamente saudáveis e 5,9 m/s para os metabolicamente alterados. Estes resultados foram comparáveis ao VOP de indivíduos que mantiveram seu IGC normal durante todo o período, sendo de 5,7 m/s para os metabolicamente saudáveis e 5,9 m/s para os metabolicamente alterados.

 

Os autores do estudo concluíram que, a gordura corporal persistentemente alta desde a infância está associada a um efeito adverso na rigidez arterial aos 17 anos de idade, e esse efeito se manteve presente na presença ou não de alterações metabólicas. Também apontaram que os indivíduos que normalizaram sua gordura corporal durante a adolescência apresentaram um VOP comparável àqueles que tiveram gordura corporal normal durante todo o período. Segundo os autores, a adolescência é um período importante para as intervenções de combate a obesidade em jovens para maximizar a saúde vascular a longo prazo.

 

Acesso em 01 Nov 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6558973/pdf/main.pdf

A gordura corporal persistentemente alta desde a infância está associada a um efeito adverso na rigidez arterial aos 17 anos de idade, e esse efeito se manteve presente na presença ou não de alterações metabólicas.

REFERÊNCIAS

  1. Dangardt F, Charakida M, Georgiopoulos G, Chiesa ST, Rapala A, Wade KH, et al.

    Association between fat mass through adolescence and arterial stiffness: a population-based study from The Avon Longitudinal Study of Parents and Children.

    Lancet Child Adolesc Health. 2019 Jul;3(7):474-481.