Fala e pensamentos lentos, atenção reduzida e apatia podem ocorrer no hipotireoidismo manifesto, e o diagnóstico pode ser confundido com depressão¹. 

Alguns podem até apresentar sinais de psicose, podendo apresentar alucinações e ilusões2

Queixas neuropsiquiátricas são mais comuns quando os pacientes estão cientes de doença da tireoide, in- dependentemente de sua função tireoidiana no momento do exame¹. 

Pesquisas clínicas e estudos de imagem funcional confirmam que o hipotireoidismo está associado a decréscimos afetivos e cognitivos amplamente reversíveis com tratamento¹. 

Em contraste, o hipotireoidismo subclínico não está associado a grandes déficits neuropsiquiátricos, embora estudos que tenham utilizado medidas sensitivas mostrem pequenos déficits de memória e função executiva¹. 

Há associação de hipotireoidismo subclínico com transtornos psiquiátricos, além de mais frequência de sintomas de depressão e ansiedade subsindrômicos em relação ao grupo eutireoidiano. A prevalência de sintomas depressivos entre pacientes com hipotireoidismo subclínico apresenta-se cerca de 2,3 vezes maior do que entre os eutireoidianos3.

Em geral, a avaliação laboratorial em pacientes psiquiátricos é guiada pela História e pelo exame físico. No entanto, com a possibilidade de hipotireoidismo subclínico e a sutileza dos sintomas, a triagem de TSH deve ser considerada nessa população de pacientes2,4.

 

Hipotireoidismo na gestação 

Níveis normais do hormônio tireoidiano são essenciais para a migração neuronal, a mielinização e outras formações estruturais do cérebro fetal5

Como os hormônios tireoidianos são necessários durante toda a gravidez, a deficiência de iodo afeta tanto a produção materna quanto a fetal de hormônios tireoidianos, e a ingestão insuficiente de iodo pode levar a efeitos prejudiciais5

Todas as mulheres grávidas devem ingerir aproximadamente 250 μg de iodo por dia. Para atingir essa ingestão diária, as estratégias podem variar com base no país de origem5


Hipotireoidismo manifesto
O hipotireoidismo materno mostrou-se consistentemente associado a risco aumentado de complicações na gravidez, bem como a efeitos prejudiciais ao desenvolvimento neurocognitivo fetal5. Desfechos adversos associados especificamente a hipotireoidismo materno manifesto incluem5
• aumento do risco de parto prematuro
• baixo peso ao nascer
• perda de gestação
• menor QI da prole 

Hipertensão gestacional é mais frequente em mulheres grávidas que apresentam hipotireoidismo manifesto ou subclínico. O tratamento do hipotireoidismo, com normalização dos testes de função tireoidiana, diminui significativamente a incidência de hipertensão gestacional6.

 

Diagnóstico 
A avaliação precisa da função tireoidiana materna durante a gravidez permanece difícil e a interpretação dos testes laboratoriais difere da paciente não gestante. A gonadotrofina coriônica humana (hCG) placentária estimula a secreção do hormônio tireoidiano, frequentemente diminuindo as concentrações maternas de TSH, especialmente no início da gravidez, ou seja, as concentrações maternas de TSH podem estar temporariamente suprimidas, mas são consideradas seguras5

No entanto, como ocorre com mulheres não grávidas, a elevação dos níveis sanguíneos de TSH é o parâmetro para o diagnóstico de hipotireoidismo clínico nas mulheres grávidas, considerando os limites superiores para cada trimestre da gravidez7.

Quando a elevação do nível de TSH é confirmada, T4 livre deve ser medido a fim de classificar o hipotireoidismo como manifesto ou subclínico7

Tratamento6
Mulheres com diagnóstico estabelecido durante a gestação devem iniciar levotiroxina na dose de 150 μg/dia ou 2 μg/kg de peso atual/dia. As concentrações de TSH e T4 devem ser avaliadas após quatro semanas do início do tratamento. 

Os testes de função tireoidiana devem ser normalizados o mais rapidamente possível e a meta é manter as concentrações de TSH inferiores a 2,5 μUI/ml no primeiro trimestre de gestação ou 3 μUI/ml no segundo e no terceiro trimestre. 

Após as concentrações de TSH e T4 livre terem atingido a faixa de normalidade para a idade gestacional, avaliações quanto à função tireoidiana devem ocorrer a cada seis a oito semanas. Reajustes necessários são implementados com base nas concentrações de TSH6

Mulheres em idade reprodutiva em tratamento para hipotireoidismo devem ser aconselhadas quanto à probabilidade de aumento da demanda por levotiroxina durante a gravidez. Também devem ser aconselhadas a entrar em contato com seu médico imediatamente após a confirmação da gravidez. Nesse caso, a dose de levotiroxina deve ser imediatamente aumentada em 20% a 30%5.

Após o parto, a levotiroxina deve ser reduzida à dose pré- -concepção da paciente. Exames da função tireoidiana devem ser realizados em aproximadamente seis semanas após o parto5

O hipotireoidismo, tanto subclínico como manifesto, deve ser tratado em mulheres que amamentam em razão de seu impacto adverso na produção do leite5

Hipotireoidismo e fertilidade


O hipotireoidismo manifesto está comumente associado à disfunção ovulatória por inúmeras interações dos hormônios tireoidianos com o sistema reprodutivo feminino. Tanto a hiperprolactinemia, devido ao aumento da produção de TRH, quanto alterações na secreção pulsátil de hormônio liberador de gonadotrofina provocam atraso na resposta de hormônio luteinizante (LH) e corpo lúteo inadequado8.

 

O hipotireoidismo também pode afetar a fertilidade por alterar o metabolismo periférico do estrogênio e pela redução da produção de globulina ligadora de hormônios sexuais. Ambas as vias podem resultar em feedback anormal na hipófise8.

 

Independentemente das alterações hormonais, o hipotireoidismo também pode levar à menorragia por alteração da produção de fatores de coagulação (diminuição dos níveis dos fatores VII, VIII, IX e XI)8

 

Nos casos de hipotireoidismo, a levotiroxina deve ser administrada porque o eutireoidismo normaliza os níveis de prolactina e LH, reverte as anormalidades menstruais e aumenta a fertilidade espontânea8. Dadas as implicações potenciais do hipotireoidismo na função ovulatória, o rastreamento da insuficiência tireoidiana é certamente indicado a mulheres com disfunção ovulatória8

 

Doença autoimune da tireoide 
Em mulheres com infertilidade, a prevalência de doença autoimune da tireoide é significativamente maior em comparação com aquelas com a mesma idade e com a fertilidade normal8. Pacientes positivas para anticorpos tireoidianos (TPOAb, TgAb ou ambos) apresentam o dobro de risco de perda de gestação5. Deve-se realizar o rastreamento da função tireoidiana e da autoimunidade como parte da investigação em mulheres com infertilidade. Também se deve efetuá-lo após hiperestimulação ovariana e no início da gestação, quando a doença autoimune da tireoide for inicialmente detectada8

 

A função da tireoide deve ser avaliada em todos os casais que apresentem infertilidade ou distúrbios sexuais de etiologia pouco clara8

 

Tratamento 
O tratamento com levotiroxina deve ser administrado quando houver hipotireoidismo subclínico em mulheres com menstruações irregulares, reprodução assistida anterior e após hiperestimulação controlada de ovários8.

 

O tratamento com levotiroxina pode restruturar o ciclo menstrual e melhorar a fertilidade no hipotireoidismo. Além disso, pacientes com hipotireoidismo subclínico devem receber tratamento com levotiroxina para aumentar as taxas de gravidez e reduzir o aborto8

 

Tabela 1

Tratamento de hipotireoidismo na gestação

REFERÊNCIAS

  1. Samuels MH. Psychiatric and cognitive manifestations of hypothyroidism. Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes. 2014;21(5):377-83. 

  2. Dubbs SB, Spangler R. Hypothyroidism: causes, killers, and life-saving treatments. Emerg Med Clin North Am. 2014;32(2):303-17. 

  3. Almeida C, Brasil MA, Costa AJ, Reis FA, Reuters V, Teixeira P, et al. Subclinical hypothyroidism: psychiatric disorders and symptoms. Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(2):157-9.

  4. Hennessey JV, Jackson IM. The interface between thyroid hormones and psychiatry. Endocrinologist. 1996;6:214–23. 

  5. Alexander EK, Pearce EN, Brent GA, Brown RS, Chen H, Dosiou C, et al. 2017 Guidelines of the American Thyroid Association for the Diagnosis and Management of Thyroid Disease During Pregnancy and the Postpartum. Thyroid. 2017;27(3):315-389.

  6. Maciel LM, Magalhães PK. Thyroid and pregnancy. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2008;52(7):1084-95. 

  7. Sgarbi JA,Teixeira PS, Maciel LZ, Mazeto G, Vaisman M, Montenegro R, et al. Consenso brasileiro para a abordagem clínica e tratamento do hipotireoidismo subclínico em adultos: recomendações do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013 Apr;57(3).

  8. Poppe K, Velkeniers B, Glinoer D. et al. Thyroid disease and female reproduction. Clin Endocrinol (Oxf). 2007;66(3):309-21.