A doença de Pompe (DP), também conhecida como doença de armazenamento de glicogênio tipo II (GSDII) ou deficiência de maltase ácida, é rara, progressiva e, em sua forma inicial, geralmente fatal. A DP é herdada de maneira autossômica recessiva e é causada por uma deficiência da enzima alfa-glicosidase ácida (GAA), que possui ação intralisossomal e é responsável por liberar unidades de glicose do glicogênio. Na DP de início precoce (DPIP), ocorre um acúmulo de glicogênio nos lisossomos de vários tecidos, particularmente nas células musculares estriadas esqueléticas e cardíacas, destruindo as células e comprometendo a função das fibras musculares. A doença pode se apresentar no primeiro ano de vida e se caracteriza principalmente pela presença de cardiomiopatia hipertrófica e hipotonia muscular generalizada. Também pode ocorrer após o primeiro ano até a sexta década de vida, apresentando como principais sintomas fraqueza muscular proximal progressiva e problemas respiratórios.

As estimativas de incidência da DP são de 1/138.000 nascimentos para DPIP e 1/57.000 nascimentos para DP de início tardio (DPIT). A incidência global de DP no mundo é estimada em 1/40 000. Existe uma influência étnica significativa identificada, evidenciando uma maior incidência de DPIP em afro-americanos (1/14 000) e chineses (1/40 000 a 1/50 000).

O Consenso Brasileiro sobre o Manejo da Doença de Pompe (CBMDP), publicado no periódico científico The Journal of Pediatrics, foi estabelecido através da colaboração de médicos brasileiros que tratam pacientes com DP no Brasil. O CBMDP teve como principais objetivos a melhora da compreensão da heterogeneidade clínica, progressão e história natural da DP, fornecendo uma visão geral sobre a experiência terapêutica.

A suspeita de DP se inicia com a presença de hipotonia e cardiomegalia, em radiografias, ou de cardiomiopatia, em ecocardiograma, de lactentes. Na DPIP, o diagnóstico deve ser feito com base na medida da atividade enzimática do GAA em uma amostra de sangue. A confirmação subsequente deve ser feita através de ensaios de atividade enzimática em culturas de fibroblastos ou ensaios de linfócitos e/ou genotipagem através da análise de DNA. O aumento da excreção urinária de oligossacarídeos na cromatografia de urina também pode corroborar o diagnóstico. O teste GAA, menos invasivo, é mais conveniente e rápido para o diagnóstico de DP. Em pacientes com DPIT, a análise de manchas de sangue seco usando papel de filtro pode ser um teste de triagem confiável. Os resultados anormais ou suspeitos devem sempre ser confirmados pelos testes adicionais. Achados de biópsia muscular também podem sugerir a presença de DP.

Devido a sua característica multissistêmica, a DP é um distúrbio que pode ser melhor gerenciado por uma equipe multidisciplinar. De maneira ideal, a equipe deve incluir especialistas em doenças metabólicas, cardiologia, pneumologia, neurologia, ortopedia, fisioterapia, fonoaudiologia, geneticista e/ou nutricionista metabólico, entre outros.

Entre as abordagens disponíveis para o tratamento da DP, a terapia de reposição enzimática (TRE) é a principal opção para esses pacientes. Vários ensaios envolvendo pacientes com DPIP mostraram que a TRE prolonga significativamente a sobrevida, diminui a cardiomegalia e melhora a função dos músculos cardíacos e esqueléticos.

O CBMDP não reconheceu fatores prognósticos precisos em relação à resposta ao tratamento em pacientes com DP, seja na forma de DPIP ou DPIT.


Em suma, segundo o CBMDP, a DP, apesar dos avanços no tratamento, ainda é uma doença incapacitante e letal. Sua raridade dificulta a realização de estudos clínicos para o estabelecimento de cuidados clínicos padrão.


Acesso em 25 Nov 2019. Disponível em: https://www.jpeds.com/article/S0022-3476(09)00676-3/pdf

REFERÊNCIAS

  1. Llerena JC Jr, Horovitz DM, Marie SK, Porta G, Giugliani R, Rojas MV, et al.

    The Brazilian consensus on the management of Pompe disease. J Pediatr.

    2009 Oct;155(4 Suppl):S47-56.