O reconhecimento de que disfunções e patologias de fibras finas estão presentes em pacientes com síndrome da fibromialgia (SFM) alterou profundamente a visão de médicos, cientistas e pacientes sobre essa condição de dor crônica. Diversos estudos confirmaram que o comprometimento de fibras finas está presente em 30 a 70% dos pacientes com SFM e pode contribuir para a dor.

 

As fibras nervosas mielinizadas e não mielinizadas finas (ou seja, fibras A‐delta e C) foram investigadas funcionalmente, eletrofisiológicamente e morfologicamente na pele e na córnea. As análises mostraram que padrões diferentes de comprometimento de fibras finas podem caracterizar subtipos distintos de SFM, levantando a hipótese de que pacientes com envolvimento mais extenso de fibras finas podem responder de maneira diferente ao tratamento. No entanto, como todos os estudos anteriores avaliaram um pequeno número de pacientes com SFM, a análise individual de subgrupos não foi possível. 

 

Assim, pesquisadores realizaram um estudo em uma grande coorte de mulheres com SFM para compreender melhor os patomecanismos subjacentes complexos dos danos às fibras finas e suas consequências. Os investigadores aplicaram um conjunto abrangente de 5 testes para caracterização multidimensional, morfométrica e microneurográfica das terminações das fibras nervosas periféricas e avaliação psicofísica e eletrofisiológica das fibras finas. 

 

Para o estudo, que foi publicado no periódico científico Annals of Neurology, os pesquisadores submeteram cento e dezessete mulheres com SFM a avaliações por questionário e neurofisiológicas, exames neurológicos e testes em fibras finas que incluíram biópsia cutânea, microscopia confocal de córnea, microneurografia, teste sensorial quantitativo e potencial evocado relacionados à dor. Os dados encontrados foram comparados aos de mulheres com transtorno depressivo maior e dor crônica generalizada e mulheres saudáveis.

 

A extensão da patologia das fibras finas está relacionada à gravidade dos sintomas na síndrome da fibromialgia.

Os resultados mostraram que a densidade das fibras nervosas intra-epidérmicas (DFNIE) esteve reduzida em diferentes locais de biópsias em 63% das pacientes com SFM. Os investigadores encontraram 4 padrões de DFNIE da pele nas pacientes com SFM: normal, DFNIE distalmente reduzida, DFNIE proximalmente reduzida e DFNIE distal e proximalmente reduzida. A microneurografia revelou uma aceleração inicial dependente da atividade da velocidade de condução em baixas frequências de estimulação nas fibras 1A, além de atividade espontânea das fibras 1B e sensibilização mecânica nas pacientes com SFM. Essas pacientes também apresentaram limiares de detecção de calor elevados, aferentes tátil C comprometidos e amplitudes reduzidas dos potenciais evocados relacionados à dor em comparação aos controles. Comparados às pacientes com SFM com inervação normal da pele, aquelas com redução generalizada de DFNIE apresentaram maiores intensidade de dor, comprometimento devido à dor, carga de doença, dor aguda, parestesias e ansiedade. As pacientes com SFM com redução generalizada de DFNIE também apresentaram uma menor densidade e comprimento de fibras nervosas da córnea.

 

Os autores do estudo concluíram que a extensão da patologia das fibras finas está relacionada à gravidade dos sintomas na SFM. Na opinião dos autores, este conhecimento pode ter implicações para a classificação diagnóstica e o tratamento de pacientes com SFM.

 

Acesso em 03 Dez 2019. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1002/ana.25565

 

SABR.SA.19.12.2154b

 

REFERÊNCIAS

  1. Evdokimov D, Frank J, Klitsch A, Unterecker S, Warrings B, Serra J, et al.

    Reduction of skin innervation is associated with a severe fibromyalgia phenotype.

    Ann Neurol. 2019 Oct;86(4):504-516.