As infecções por Clostridioides difficile (ICD) são responsáveis por quase 29.000 mortes por ano nos Estados Unidos. Esse número de mortes pode ser explicado pelo aumento da incidência, gravidade, mortalidade e probabilidade de recorrência da infecção. Após um primeiro episódio de ICD, quase 20% dos pacientes tendem a ter uma infecção recorrente, e o risco de recorrência adicional pode ser ainda maior, aumentando o número de hospitalizações, morbidade e mortalidade.

Como a ICD recorrente (rICD) é frequentemente refratária ao tratamento com antibióticos, é mais provável que a infecção primária esteja associada a complicações com risco de vida, incluindo colite pseudomembranosa, megacólon tóxico, necessidade de colectomia, choque, perfuração, infecção na corrente sanguínea (ICS) e morte. Uma proporção substancial de pacientes com ICD provavelmente desenvolverá ICS, sendo que a maioria das ICSs é causada por micróbios intestinais e pode levar à morte mais de 50% dos pacientes. Algumas evidências sugerem que a terapia com antibióticos pode estar associada a essa complicação, favorecendo a colonização intestinal por patógenos resistentes e espécies de Candida. 

O transplante de microbiota fecal (TMF) visa recuperar a composição normal da microbiota intestinal, e se mostrou superior a certos antibióticos no tratamento da ICD, sendo recomendada para o manejo das recorrências. Em teoria, a restauração de microbiota saudável através do TMF também pode impedir as ICSs associadas a ICD por vários mecanismos, como curar a infecção, evitar a necessidade de antibióticos e diminuir a expressão de genes de resistência a antibióticos.

Nesse sentido, pesquisadores realizaram um estudo com o objetivo de avaliar a incidência de ICS primária em uma coorte de pacientes com rICD tratados com TMF ou antibióticos.

Para o estudo, que foi publicado no periódico científico Annals of Internal Medicine, os pesquisadores analisaram 290 pacientes internados com rICD em relação à ocorrência de ICS em 90 dias. Secundariamente, também foi avaliado o tempo de hospitalização e a sobrevida global (SG) em 90 dias.
 
Entre os 290 pacientes que participaram do estudo, 109 foram tratados com TMF e 181 receberam antibióticos. Cinco pacientes no grupo TMF e 40 no grupo antibiótico desenvolveram ICS. Os resultados mostraram que o risco de ICS foi 23% menor no grupo TMF. Este grupo também teve 14 dias a menos de hospitalização e um aumento de 32% na SG, em comparação com o grupo tratado com antibióticos.

Os pacientes com infecções por Clostridioides difficile (ICS) recorrentes, tratados com transplante de microbiota fecal apresentaram menor probabilidade de desenvolver ICS primária, tiveram menor duração de hospitalização e reduziram o risco de mortalidade geral em 90 dias em comparação com aqueles tratados com antibióticos.

Os autores do estudo concluíram que, na coorte analisada, os pacientes com rICD tratados com TMF apresentaram menor probabilidade de desenvolver ICS primária, tiveram menor duração de hospitalização e reduziram o risco de mortalidade geral em 90 dias em comparação com aqueles tratados com antibióticos. Na opinião dos autores, caso estes resultados sejam confirmados por estudos maiores e randomizados, o TMF pode ser considerado uma opção eficaz de tratamento para a rICD e prevenir algumas de suas complicações, incluindo a ICS.

Acesso em 24 Jan 2020. Disponível em: https://www.annals.org/aim/fullarticle/doi/10.7326/M18-3635
 

REFERÊNCIAS

  1. Referências: Ianiro G, Murri R, Sciumè GD, Impagnatiello M, Masucci L, Ford AC, et al. 

    Incidence of Bloodstream Infections, Length of Hospital Stay, and Survival in Patients With Recurrent Clostridioides difficile Infection Treated With Fecal Microbiota Transplantation or Antibiotics: A Prospective Cohort Study. 

    Ann Intern Med. 2019 Nov 5.