A microbiota intestinal tem sido apontada como um ecossistema que desempenha um papel fundamental na fisiologia de seu hospedeiro. As alterações da composição dessa microbiota têm sido associadas a uma ampla variedade de condições, como obesidade, diabetes tipo 2, doença inflamatória intestinal, autismo e distúrbios comportamentais. Na dieta, alguns carboidratos não digeríveis, chamados prebióticos, são fermentados pela microbiota intestinal, conferindo assim benefícios potenciais à saúde. Os frutanos do tipo inulina (FTI) são encontrados principalmente nas raízes das plantas, como alcachofras-de-jerusalém, alho-poró ou cercefi. Estudos mostraram que a suplementação dietética com FTI purificados exerce efeitos positivos na saúde, como melhora da permeabilidade intestinal, diminuição da massa gorda e aumento da produção de peptídeos de incretina no intestino, atuando na saciedade e melhorando o controle do apetite. No entanto, pouco se sabe sobre os efeitos de FTI proveniente do consumo de vegetais, naturalmente ricos nesses carboidratos, no comportamento alimentar, apetite, composição e função da microbiota intestinal e tolerância gastrointestinal. Por outro lado, estudos recentes sugeriram que a fermentação de fibras alimentares pode levar ao desconforto intestinal, principalmente em pacientes com síndrome inflamatória intestinal. 
Desta forma, pesquisadores desenvolveram um protocolo para uma intervenção dietética diária de 2 semanas de duração com vegetais ricos em FTI, para atingir uma ingestão mínima de pelo menos 9g FTI por dia, em voluntários saudáveis. Com isso os investigadores puderam avaliar o efeito da intervenção na composição e atividade da microbiota intestinal, ingestão de nutrientes, comportamento relacionado a consumo de alimentos e sintomas gastrointestinais. Os pesquisadores também avaliaram a persistência dos efeitos da intervenção 3 semanas após sua conclusão.

Para o estudo, que foi publicado no periódico científico The American Journal of Clinical Nutrition, os investigadores recrutaram 26 indivíduos saudáveis que foram instruídos a aderir a uma dieta controlada baseada em vegetais ricos em FTI, fornecendo uma ingestão média de 15g de FTI por dia, durante duas semanas. Os participantes foram avaliados antes e após a intervenção nutricional e três semanas após o retorno à dieta habitual. Os pesquisadores avaliaram a ingestão de nutrientes, comportamento alimentar, composição da microbiota fecal, fermentação microbiana e sintomas gastrointestinais.
 

Através do aumento do consumo de vegetais selecionados, é possível aumentar a ingestão de frutanos e, desta forma, criar uma alteração na composição da microbiota intestinal.

As principais modificações microbianas encontradas durante a intervenção foram uma proporção aumentada do gênero Bifidobacterium, um nível reduzido de Clostridiales e uma tendência de diminuição de Oxalobacteraceae. Essas alterações foram revertidas três semanas após a intervenção. Os participantes apresentaram maior saciedade, desejo reduzido de comer alimentos doces, salgados e gordurosos e uma tendência de aumento do gosto por alguns vegetais ricos em inulina. Durante a intervenção foram relatados apenas episódios de flatulência, enquanto que o desconforto intestinal, inversamente associado ao Clostridium cluster IV e Ruminococcus callidus, melhorou ao final da intervenção.

Os autores do estudo concluíram que, através do aumento do consumo de vegetais selecionados, é possível aumentar a ingestão de frutanos e, desta forma, criar uma alteração na composição da microbiota intestinal. Segundo os autores, a alta ingestão de frutanos na dieta foi bem tolerada e contribuiu para a regulação do apetite e redução no desejo de comer alimentos não saudáveis. Essas mudanças na função da microbiota intestinal podem ocorrer sem um efeito significativo na produção de hidrogênio, um dos contribuintes para a disfunção gastrointestinal. Na opinião dos autores, os dados encontrados apoiam o estímulo ao consumo de vegetais ricos em fibras do tipo inulina como parte de uma dieta saudável, levando em consideração a importância do ecossistema microbiano intestinal para a manutenção da saúde.


Acesso em 01 Nov 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6537941/pdf/nqz001.pdf 
 

REFERÊNCIAS

  1. Hiel S, Bindels LB, Pachikian BD, Kalala G, Broers V, Zamariola G, et al. 

    Effects of a diet based on inulin-rich vegetables on gut health and nutritional behavior in healthy humans.

    Am J Clin Nutr. 2019 Jun 1;109(6):1683-1695.