O estresse psicológico excessivo ou prolongado pode comprometer vários sistemas fisiológicos e, consequentemente, tem potencial para aumentar a suscetibilidade a doenças. Existem fortes evidências, tanto de modelos animais como de estudos em humanos, que sugerem uma considerável modulação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal em resposta ao estresse com funções biológicas alteradas, como imunidade comprometida e aumento da reatividade inflamatória. Correspondentemente, foi relatado que pessoas expostas ao estresse psicológico têm um risco maior de infecções por vírus respiratórios, paralelamente a uma redução da resposta imune a várias vacinas antivirais e antibacterianas.

Os transtornos relacionados ao estresse, incluindo o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtorno do estresse agudo (TEA), transtorno de adaptação (TA) e outras reações ao estresse, se referem a um grupo de condições psiquiátricas precedidas e desencadeadas por um trauma identificável ou outros estressores da vida. As pessoas com esses distúrbios podem representar uma população com alterações fisiológicas mais sérias como resultado de estresse grave. De fato, foram relatados perfis imunológicos alterados em populações com TEPT e outros distúrbios relacionados ao estresse, além de um risco aumentado de várias doenças autoimunes. Dados recentes sugerem uma associação entre o TEPT e uma série de doenças infecciosas, embora ainda sejam escassos os dados sobre o papel dos distúrbios relacionados ao estresse nas principais infecções com risco de vida. 

Nesse sentido, pesquisadores realizaram um estudo de coorte controlado baseado na população para explorar a associação entre os distúrbios relacionados ao estresse e risco de infecções com risco de vida.

Para o estudo, que foi publicado no periódico científico BMJ, os investigadores analisaram 144.919 indivíduos com transtornos relacionados ao estresse (TEPT, TEA, TA e outras reações ao estresse) comparativamente com 184.612 irmãos completos de indivíduos com algum transtorno relacionado ao estresse diagnosticado, e 1.449.190 indivíduos pareados sem esse diagnóstico da população em geral. O desfecho principal incluiu uma primeira consulta hospitalar ou ambulatorial com diagnóstico primário de infecção grave com altas taxas de mortalidade (sepse, endocardite, meningite ou outras infecções do sistema nervoso central) e óbitos por essas infecções, ou infecções de qualquer origem que resultaram em óbito. 
 
Na população analisada, a média de idade do diagnóstico de um distúrbio relacionado ao estresse foi de 37 anos e 38,3% eram homens. Durante um acompanhamento médio de oito anos, a incidência de infecções fatais por mil pessoas/ano foi de 2,9 em indivíduos com transtornos relacionados ao estresse, 1,7 em irmãos sem esse diagnóstico e 1,3 em indivíduos sem esse diagnóstico. Em comparação com irmãos completos sem diagnóstico de distúrbios relacionados ao estresse, os indivíduos com esse diagnóstico apresentavam risco aumentado de infecções com risco de vida, sendo que a taxa de risco para qualquer distúrbio relacionado ao estresse foi de 1,47, e especificamente para o TEPT foi de 1,92. As estimativas correspondentes na análise populacional foram semelhantes (1,58) para qualquer transtorno relacionado ao estresse para a diferença entre irmãos e comparação populacional, e de 1,95 para o TEPT. Os distúrbios relacionados ao estresse foram associados a todas as infecções com risco de vida estudadas, com o maior risco relativo observado para meningite (1,63) e endocardite (1,57). O diagnóstico de um distúrbio relacionado ao estresse a uma idade menor e a presença de comorbidades psiquiátricas, especialmente transtornos por uso de substâncias, foram associadas a maiores índices de risco. Por outro lado, o uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina no primeiro ano após o diagnóstico de um distúrbio relacionado ao estresse foi associado a taxas de risco atenuadas.

Os distúrbios relacionados ao estresse diagnosticados clinicamente estão associados a um risco aumentado de infecções com risco de vida na população.

Os autores do estudo concluíram que, os distúrbios relacionados ao estresse diagnosticados clinicamente estão associados a um risco aumentado de infecções com risco de vida na população. Na opinião dos autores, apesar de um risco absoluto relativamente baixo, a alta mortalidade por infecções com risco de vida exige um aumento da conscientização clínica entre os profissionais de saúde que cuidam de pacientes com transtornos relacionados ao estresse, especialmente aqueles diagnosticados em idade mais jovem.

Acesso em 07 Fev 2020. Disponível em: https://www.bmj.com/content/bmj/367/bmj.l5784.full.pdf
 

SABR.SA.20.02.0196a

REFERÊNCIAS

  1. Song H, Fall K, Fang F, Erlendsdóttir H, Lu D, Mataix-Cols D, et al. 

    Stress related disorders and subsequent risk of life threatening infections: population based sibling controlled cohort study. 

    BMJ. 2019 Oct 23;367:l5784.