O cetoprofeno é um dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) mais antigos e estudados do mercado.1

Os quatro sinais clássicos da inflamação (dor, calor, rubor e tumor) foram descritos no século 1 por Celsus, um enciclopedista Romano,2 mas apenas em 1971 a cascata do ácido araquidônico e o mecanismo de ação das drogas anti-inflamatórias por meio do bloqueio da síntese de prostaglandinas foram elucidados por John Vane.3

Sabe-se que o uso de substâncias para o tratamento da inflamação é tão antigo quanto a descrição desse importante processo patológico. O salgueiro (Salix spp.), conhecido no Brasil como “chorão”, foi muito utilizado para esse fim por conter salicilato de metila com propriedades anti-inflamatórias, princípio ativo que acabou dando origem à primeira droga sintética da história da medicina no final do século 19, o ácido acetilsalicílico.3,4

No decorrer do século 20, surgiram outros fármacos com ação anti-inflamatória, como o cetoprofeno, substância criada em 1967 por químicos da Rhône-Poulenc e que até hoje representa um dos principais AINEs disponíveis para o uso na medicina.1

Por ter sido desenvolvido antes da descoberta das isoenzimas cicloxigenases 1 e 2 (COX-1 e COX-2), trata-se de um AINE não seletivo.1,3 A descoberta da enzima cicloxigenase e suas isoenzimas ocorreu somente na década de 1990. Estava finalmente explicado o motivo dos efeitos adversos gastrointestinais, pois a principal enzima bloqueada pelos AINEs, a COX-1, está presente naturalmente em diversos tecidos, como a mucosa gastrointestinal.3,5

Segurança cardiovascular

A COX-2 não apresenta funções permanentes nos tecidos como a COX-1, mas é induzida na presença de inflamação. Seu bloqueio seletivo seria a resposta aos eventos adversos dos AINEs e a solução para a segurança no seu uso.3 No entanto, diversos estudos associaram o uso de coxibes ao aumento de sérios eventos cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial e acidente vascular cerebral, além de maior risco de eventos tromboembólicos, principalmente em razão do desequilíbrio causado pela inibição da produção de prostaciclina mediada pela COX-2 sem a inibição do tromboxano mediado pela COX-1, fazendo com que diversos coxibes fossem retirados do mercado.6-9  O cetoprofeno não é apenas um AINE não seletivo, é também um dos AINEs que apresentam a maior proporção entre seletividade para COX-1 em relação à seletividade para COX-2, característica que é extremamente favorável quando considerada a segurança cardiovascular.6,10 

Uso em populações especiais

O cetoprofeno é um dos únicos AINEs do mercado brasileiro cujo uso é permitido em crianças a partir dos 6 meses de idade.11 Um estudo clínico prospectivo, randomizado e duplo-cego mostrou que o uso de cetoprofeno em crianças entre 6 meses e 6 anos de idade não aumentou o risco de efeitos adversos em comparação com o uso de paracetamol ou de ibuprofeno.12 Em outra avaliação de mais de 100 crianças que passaram por cirurgia de amigdalectomia, os investigadores sugerem que o cetoprofeno combinado com paracetamol/codeína pode ser uma boa alternativa em situações extremamente dolorosas, como no pós-operatório imediato de amigdalectomia.13

Em uma avaliação de uma grande população de quase 20 mil pacientes com mais de 60 anos de idade, a tolerabilidade do cetoprofeno (200 mg uma vez ao dia) foi considerada excelente em 60% dos casos e boa em 24%.

Também há uma preocupação com relação ao tratamento de pacientes idosos. Em uma avaliação de uma grande população de quase 20 mil pacientes com mais de 60 anos de idade, a tolerabilidade do cetoprofeno (200 mg uma vez ao dia) foi considerada excelente em 60% dos casos e boa em 24%. Ocorreram eventos adversos em 15% dos casos, principalmente gastrintestinais, e os autores concluíram que o uso de cetoprofeno apresenta boa relação risco-benefício.14

Controle da dor e redução do uso de opioides

A utilização de cetoprofeno para o controle da dor moderada a grave pós-intervenção cirúrgica por diversas causas foi comparada com a associação de paracetamol e codeína ou placebo em 161 pacientes, mostrando que a duração do efeito analgésico com o uso de cetoprofeno foi significativamente mais longa, não obstante o fato de a codeína ser medicação derivada de opioide.15 

Estudos em pacientes submetidos a cirurgia abdominal de grande porte demonstram que o uso de cetoprofeno em associação a opioides diminui a dor no pós-operatório imediato, assim como a necessidade de uso de opioides.16 

Seu uso na ortopedia, principalmente no período pós-operatório, promove excelente controle da dor e redução do uso de opioides. A capacidade de diminuir a necessidade do uso de opioides no pós-operatório imediato foi demonstrada em pacientes submetidos a cirurgia ortopédica de grande porte, como a artroplastia total do joelho.17,18

A prevenção de complicações gastrintestinais nos pacientes de risco, que precisam de terapia com anti-inflamatórios, é necessária e o uso dos inibidores da bomba de prótons (IBPs), como o omeprazol, é uma boa escolha por serem os gastroprotetores mais efetivos.19

A associação cetoprofeno/omeprazol em dose fixa garante o efeito gastroprotetor, uma vez que a cada dose do anti-inflamatório a administração conjunta do gastroprotetor está garantida.19 
Sua administração em uma única dose diária auxilia na aderência ao tratamento.19

REFERÊNCIAS

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