1) Dr., quais têm sido os principais desafios que, como médico, o senhor tem enfrentado nestes tempos da COVID-19?

Os desafios são muitos. O primeiro é escolher quais casos podem e quais casos não podem esperar para serem tratados. Os retornos de casos cirúrgicos também estão comprometidos, visto que alguns pacientes preferem permanecer em casa a passar no retorno, especialmente aqueles em grupo etário de risco, ou seja, acima de 60 anos. Isso atrapalha uma reabilitação adequada e atrasa o tratamento. Outra questão é lidar com a angústia e a necessidade de orientação séria para os pacientes com relação ao COVID-19. Mesmo não sendo pneumologista ou infectologista, os pacientes me perguntam vários aspectos da pandemia.

2) Dr., considerando sua atuação na oncologia ortopédica, quais têm sido suas ações para diagnóstico e a continuidade de tratamento, uma vez que esse perfil de paciente não pode aguardar até que as consequências trazidas pelo SARs-CoV-2 desapareçam?

Os casos novos estou atendendo ou de forma presencial ou por teleconsulta, dependendo da disponibilidade e necessidade do paciente. Na teleconsulta, perde-se o exame físico, tão importante na Oncologia ortopédica e na Medicina como um todo. Mas serve como um tipo de triagem, pois os pacientes podem mostrar exames de imagem que porventura tenham. E isso muitas vezes é suficiente para eu saber se o caso é grave e precisa de atenção imediata ou pode esperar. Nos casos de lesões malignas ou benignas agressivas, a minha conduta é marcar uma consulta presencial e iniciar os procedimentos diagnósticos e terapêuticos. O meu consultório está preparado para isolar esses pacientes e atendê-los com os cuidados preconizados de higiene e o uso de máscaras. Se a suspeita é de tumor maligno, marco a biópsia o mais breve possível, bem como a cirurgia, caso indicada. Os casos de fraturas patológicas ou ossos que estão para quebrar também devem ser tratados precocemente. Sempre discuto com o paciente sobre as opções de tratamento e o melhor momento de tratar levando em conta a pandemia.

3) Quais condutas/cuidados extras o Dr. recomenda nesses pacientes para evitar a infecção, uma vez que a taxa de fatalidade nos casos de câncer como comorbidade pode ser o dobro da população geral (de acordo com Report of the WHO-China Joint Mission on Coronavirus Disease)?

A infecção é um problema sério em Ortopedia, e mais sério ainda em Oncologia Ortopédica. A infecção pelo COVID-19 piora ainda mais esse quadro, tornando os pacientes oncológicos de risco, independente da idade. Dessa forma, reforço o isolamento social, inclusive evitando as visitas de familiares, quer seja no Hospital, quer seja em casa, e a utilização de máscara para sair de casa, o cuidado com a higiene, a utilização de lavagem das mãos, álcool gel, evitar levar a mão à boca, nariz e olhos. Nos casos pós-operatórios, cuidados redobrados com a ferida cirúrgica, pois uma infecção de sítio cirúrgico pode exigir internação, em um momento complicado devido ao COVID-19.

4) Nos casos em que a radiação é necessária, quais as recomendações (Pode ser interrompida se já iniciada? Deve ser adiada?)

No meu entendimento, a radioterapia para sarcomas de alto grau de malignidade deve ser mantida, já que a recidiva piora a taxa de sobrevida livre de doença e afeta o prognóstico. Os sarcomas de alto grau, se não tratados, têm uma chance de evolução para óbito maior que a do COVID-19. Para os sarcomas de baixo grau de malignidade com margens livres, mas não amplas, o tratamento radioterápico pede ser postergado. Já para os sarcomas de baixo grau com margens comprometidas, creio que o tratamento radioterápico não deve ser postergado. No caso da radioterapia em específico, tem-se preconizado menor fracionamento da dose, a fim de diminuir o número de vezes que o paciente sai de casa para fazer a sessão de radioterapia.

5) Como médico ortopedista especializado em quadros oncológicos, como o senhor enxerga o cenário pós-quarentena, devido ao COVID-19? Quais mudanças ou adaptações serão necessárias?

O cenário pós-quarentena será difícil, pois, mesmo após o fim do isolamento social, as pessoas ainda demorarão um pouco para voltar à ativa completamente. Poderemos ter novas quarentenas pontuais até que se obtenha uma vacina ou tratamento cientificamente comprovado e eficaz para o vírus. A questão econômica também é importante: as pessoas estão perdendo renda, o que trará dificuldades para o pagamento de planos de saúde, sobrecarregando ainda mais o SUS. Os pacientes que tiveram suas cirurgias postergadas vão querer operar o mais breve possível passada a pandemia. Dessa forma, teremos um aumento das cirurgias ditas eletivas. A telemedicina terá um enfoque novo e talvez seja regularizada definitivamente. A população estará mais atenta a sua saúde e aos cuidados com a higiene. E espero que os governantes enxerguem a Saúde como algo que merece respeito e mais investimentos.

SABR.GKETZ.20.04.0443