1) Dr., quais têm sido os principais desafios que tem enfrentado como médico nestes tempos de COVID-19?

A pandemia do atual coronavírus se iniciou no final do ano passado na província de Wuhan, na China, mas somente em janeiro tomamos conhecimento de sua letalidade e grande capacidade de infecção e possibilidade de rápido alastramento global. Tudo tem ocorrido de forma rápida e estamos nos adaptando. Há vários desafios para os sistemas de saúde e consequentemente para nós, médicos, e, claro, nossos pacientes. Um dos principais desafios interpostos aos profissionais é a necessidade de manutenção de constante atualização científica relacionada à COVID-19. Em meio a tantas e crescentes informações, a filtragem daquelas mais relevantes e importantes para a nossa profissão e para nossos pacientes é crucial. Além disso, muitas medidas de prevenção têm sido tomadas por autoridades sanitárias, cada uma delas tem sua especificidade e sofre a influência de novos conhecimentos sobre características do vírus.

Outro grande desafio é como minimizar, no contexto de nossas profissões, o impacto econômico que a pandemia tem causado a diversos segmentos da economia, incluindo a saúde, com desdobramentos que podem levar a uma grave recessão em muitas áreas. Os profissionais passam por um processo dinâmico de reinvenção de sua atuação no mercado de trabalho. O distanciamento social tem levado entidades médicas, hospitais e clínicas a inovarem processos para sobrevivência e enfrentamento adequado dessa crise.

2) Considerando a cronicidade das doenças que trata, houve alguma alteração na rotina/frequência das consultas? O que tem feito para diminuir possíveis alterações nessa rotina (exemplo: adoção da telemedicina)?


Especialmente em nossa área, a reumatologia, na qual muitas vezes tratamos pacientes crônicos com drogas imunossupressoras, tem havido muitas alterações na rotina e frequência de consultas. Com o isolamento social, os pacientes são orientados pelas autoridades sanitárias a permanecer em casa e só buscar atendimento emergencial ou urgencial. Consultas de pacientes com sintomas gripais têm sido evitadas nos consultórios, e tais pacientes invariavelmente são orientados a buscar atendimento por meio da rotina estabelecida no sistema de saúde brasileiro com a especificidade estabelecida pelos gestores de saúde em cada uma das regiões. A teleconsulta foi recentemente regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina, acelerando um posicionamento que estava ainda em franca discussão pelas entidades médicas. Foi um avanço, e muitos profissionais têm realizado consultas a distância e utilizado diferentes ferramentas para isso. Em nosso caso, na clínica privada, temos usado o vídeo de WhatsApp, facilmente adotado por todos os pacientes. É importante que a consulta seja documentada em prontuário médico e que um termo de consentimento seja assinado por médico e paciente – ambos devem estar cientes das limitações tão características de uma consulta a distância. Entendo que obviamente há casos em que é difícil para o médico decidir sobre um diagnóstico mais preciso ou mesmo eventual mudança de uma estratégia terapêutica só com teleconsulta. Sob essas condições, como exceção, e não como rotina, acreditamos que a consulta presencial com exame físico completo é indispensável. Trata-se de uma decisão avaliada caso a caso e que deve ser compartilhada com o paciente.

3) Sabemos também que o reumatologista possui um perfil muitas vezes bem definido de paciente e que temos uma larga utilização de imunossupressores nessa especialidade. Como tem sido essa utilização? Ocorreram algumas mudanças de conduta?


Geralmente, pacientes em uso de imunossupressores têm maior risco de contrair infecções quando comparados com a população geral. Entretanto, os dados gerados até o momento não evidenciam que pacientes reumáticos com enfermidades autoimunes como artrite reumatoide, lúpus, espondilite anquilosante, entre outras, e em uso de medicações imunossupressoras estejam em maior risco de contrair COVID-19 e/ou maior risco de desenvolver formas graves da infecção que são potencialmente letais. Em publicação recente do Lancet, um dos mais prestigiados jornais médicos do mundo, os autores demonstraram que no Serviço do Weill Cornell Medical College, localizado na cidade de Nova Iorque, epicentro da pandemia nos Estados Unidos, até o dia da publicação do paper, nenhum paciente reumático havia sido admitido nas enfermarias que atendem pacientes graves com COVID-19. Isso é relevante e parece estar de acordo com a experiência global até o momento. Assim, nossos pacientes têm sido orientados a não mudar sua terapia e, sobretudo, a não suspender o tratamento neste período, pois o risco de exacerbação de suas enfermidades pode ser tão deletério quanto a infecção por COVID-19. Salientamos aos pacientes que qualquer decisão terapêutica deve ser respaldada pelo médico assistente, desestimulando a automedicação. Curiosamente, duas drogas comumente usadas na nossa área estão sendo ventiladas em publicações como sendo eficazes para o tratamento de COVID-19: cloroquina e sua variante hidroxicloroquina, antimaláricos mais frequentemente usados no tratamento de artrite reumatoide e lúpus, e otocilizumabe, um anticorpo monoclonal anti-IL 6 usado no tratamento de formas adultas e juvenis da artrite reumatoide e certas vasculites. Até o momento não há evidências robustas sobre a eficácia dessas drogas, porém há muitos relatos de séries de casos e muitos estudos estão em andamento. O cenário deve se modificar rapidamente para os esquemas terapêuticos das formas de COVID-19.

4) Com toda sua expertise em pesquisa clínica, os protocolos vigentes nos quais o senhor atua foram prejudicados? Quais medidas têm sido tomadas para diminuir o impacto nesses protocolos e não prejudicar o seguimento do paciente no tratamento?

A indústria farmacêutica de inovação, responsável por muitos ensaios clínicos que estão em andamento globalmente, tem sido muito proativa e tentado se adaptar neste período. Entretanto, percebemos que as orientações não têm sido uniformes entre os diversos patrocinadores de pesquisas clínicas. Percebemos que condutas e orientações em relação a coleta de exames, consultas e mesmo procedimentos específicos de cada estudo têm sido diferentes entre eles. Recebemos diariamente dezenas de mensagens de orientações dos patrocinadores. Por vezes, as condutas relacionadas a um estudo específico podem variar de uma semana para outra. Na verdade, o cenário é muito dinâmico! Nosso centro de investigações clínicas está tendo bastante trabalho no meio da crise, ao mesmo tempo em que diminuímos nossa atividade presencial e aumentamos nossas atividades em domicílio. Atualmente estamos abrindo dois dias por semana para atividades presenciais (exames físicos e coletas). No meio dessas dificuldades, procuramos manter uma rotina para pacientes que já estejam incluídos em estudos em andamento, embora as atividades de recrutamento de novos pacientes estejam prejudicadas.

5) Como médico reumatologista, como o senhor enxerga o cenário pós-quarentena devido à COVID-19? Quais mudanças ou adaptações serão necessárias?

Sou um otimista incorrigível, porém devo afirmar que as catástrofes e pandemias trazem avanços e incertezas. Uma recessão global devida à necessidade de isolamento social e à parada de certos serviços comunitários será provavelmente um desdobramento infeliz dessa crise e que deve perdurar. Entretanto, certamente o setor de saúde sairá mais fortalecido e os profissionais de saúde, mais valorizados, especialmente médicos e enfermeiros, pois são a linha de frente do atendimento nessa pandemia. Acredito que em tempo recorde teremos uma vacina disponível e medicamentos mais eficazes no combate à epidemia. A indústria de equipamentos médico-hospitalares e a indústria farmacêutica estão se envolvendo paulatinamente nessa colaboração por avanços no combate ao novo coronavírus.

Tal qual uma guerra, a pandemia do coronavírus deixa mortos e feridos e nós, profissionais da saúde, ainda estamos chorando pelos nossos colegas mortos e não temos tempo e nem escolha de parar atendimentos à população. Sou professor e voluntário no atendimento comunitário e a pacientes com ou sem COVID-19. Precisamos de mais profissionais envolvidos no atendimento e de mais consciência humanitária de todos os cidadãos. A crise deixou muito claro à sociedade que não estávamos preparados para ela: a maior parte dos líderes titubeou em tomar decisões rápidas como se requer numa pandemia e os serviços de saúde, mesmo em países desenvolvidos, demonstraram estar mal equipados e com evidente falta de EPIs para todos os profissionais. Felizmente, creio que uma melhor infraestrutura e uma experiência ímpar na condução de emergências públicas serão desdobramentos positivos para o setor de saúde. A saúde e seus profissionais têm aprendido três palavras importantes: dinamismo, criatividade e reinvenção. Seja como for, enfatizo que nunca mais seremos os mesmos.

SABR.GKETZ.20.04.0443