A dispepsia é uma condição comum que pode envolver uma variedade de sintomas gastrointestinais superiores, principalmente dor ou desconforto abdominal superior. Um em cada cinco adultos relata ter dor epigástrica, saciedade precoce, sofrimento pós-prandial e outros sintomas gastrointestinais superiores associados, como azia, regurgitação ou náusea, ao menos uma vez na vida. Embora não esteja associada a um maior risco de mortalidade, a condição é crônica em muitos indivíduos e segue um curso flutuante. Seu impacto na qualidade de vida dos pacientes é substancial, e está associada ao afastamento e menor produtividade no trabalho e custos com medicamentos levando a implicações financeiras.

Cerca de 40% das pessoas com sintomas de dispepsia consultam um médico de cuidados primários, que precisa tomar decisões para escolher a melhor forma de gerenciar cada paciente. Os pacientes que apresentam dispepsia não investigada com características de gravidade, como disfagia, perda de peso ou anemia, e aqueles com mais idade, necessitam de endoscopia urgente. Na ausência de sinais de gravidade, o gerenciamento da dispepsia não investigada representa um problema clássico de tomada de decisão médica, devido às várias estratégias disponíveis. As estratégias incluem endoscopia, teste para Helicobacter pylori (H. pylori) e tratamento de erradicação, terapia empírica de supressão de ácido, ou um gerenciamento baseado em sintomas.

A eficácia dessas diferentes estratégias foi estudada em vários ensaios e meta-análises. No entanto, existe um equilíbrio entre as várias estratégias e uma incerteza quanto à melhor opção para usar na primeira linha de tratamento.

A meta-análise de rede é um método que permite comparações diretas e indiretas entre diferentes ensaios clínicos randomizados, aumentando o número de dados dos participantes disponíveis para análise e permitindo que seja desenvolvido um sistema de classificação confiável que mostre a eficácia de diferentes estratégias de gerenciamento. Assim, pesquisadores realizaram uma metanálise de rede de todos os ensaios clínicos randomizados disponíveis, que compararam cinco estratégias de manejo para dispepsia não investigada.

A dispepsia é uma condição altamente prevalente que pode influenciar profundamente a qualidade de vida e ser responsável por grandes gastos com a saúde

Para a meta-análise de rede, que foi publicada no periódico científico BMJ, os pesquisadores analisaram as bases de dados Medline, Embase, Embase Classic, Registro Central de Ensaios Controlados da Cochrane e Clinictrials.gov até setembro de 2019, sem restrições de idioma. Além disso também foram analisados os anais da conferência entre 2001 e 2019. Os ensaios clínicos incluídos foram randomizados e avaliaram a eficácia de estratégias de manejo para dispepsia não investigada em adultos. As estratégias de interesse foram endoscopia imediata, teste para H. pylori e endoscopia em participantes com teste positivo, teste para H. pylori e tratamento de erradicação em participantes com resultado positivo (“testar e tratar”), supressão de ácido empírica, ou gerenciamento baseado em sintomas. Os estudos encontrados relataram a avaliação dicotômica do status dos sintomas no acompanhamento final de 12 meses.
A revisão identificou 15 ensaios clínicos randomizados elegíveis que incluíram 6.162 participantes adultos. As estratégias foram classificadas de acordo com a pontuação P, que é a extensão média da certeza de que uma estratégia de gerenciamento é melhor que outra. A estratégia de "testar e tratar" ficou em primeiro lugar e a endoscopia imediata em segundo lugar, mas apresentaram desempenho semelhante. Nenhuma estratégia analisada foi significativamente menos eficaz do que "testar e tratar". Os participantes designados para "testar e tratar" tiveram uma probabilidade significativamente menor de necessitar de endoscopia do que todas as outras estratégias, exceto o gerenciamento baseado em sintomas. A insatisfação com o manejo foi significativamente menor com endoscopia imediata do que com "testar e tratar" e a supressão de ácido empírica. As taxas de câncer gastrointestinal superior foram baixas em todos os ensaios. Os resultados permaneceram estáveis nas análises de sensibilidade, com inconsistências mínimas entre resultados diretos e indiretos.

Os autores da meta-análise de rede concluíram que a dispepsia é uma condição altamente prevalente que pode influenciar profundamente a qualidade de vida e ser responsável por grandes gastos com a saúde. Segundo os autores, os resultados encontrados fornecem suporte à abordagem de "testar e tratar" para o gerenciamento da condição. Essa estratégia foi consistentemente associada a uma menor chance do paciente permanecer sintomático e a um menor uso de endoscopia. Os autores recomendam que o manejo de pacientes com dispepsia deve se basear nas melhores evidências, mas também deve levar em consideração as nuances de cada paciente dentro dos limites do ambiente de assistência médica.

Acesso em 21 Fev 2020. Disponível em: https://www.bmj.com/content/367/bmj.l6483

SABR.SA.20.02.0237

REFERÊNCIAS

  1. Eusebi LH, Black CJ, Howden CW, Ford AC.

    Effectiveness of management strategies for uninvestigated dyspepsia: systematic review and network meta-analysis.

    BMJ. 2019 Dec 11;367:l6483.