A gravidez representa um período de mudanças cruciais no organismo materno. Alterações metabólicas se põem em curso com o objetivo de garantir o crescimento e o desenvolvimento fetal adequado, bem como de preservar a saúde materna.1

 

O cálcio é um nutriente essencial para a mineralização óssea e componente intracelular básico na formação das membranas celulares.2 Está envolvido em vários processos biológicos, inclusive transdução de sinal, contração muscular, homeos-tase de enzimas e hormônios, bem como liberação de neurotransmissores e função das células nervosas.2

 

Fora do período gestacional, a homeos-tase do cálcio é mantida principalmente pela intricada relação entre o paratormônio (PTH) e a vitamina D.3 O PTH secretado pelas glândulas paratireoides em resposta a uma queda no nível sérico de cálcio medeia a reabsorção óssea do cálcio por meio de seu efeito nos osteoclastos.3 

 

Também aumenta a reabsorção tubular renal de cálcio estimulando a 1-alfa-hidroxilase nos rins, o que promove a conversão de 25 hidroxivitamina D em 1,25 di-hidroxivitamina D [1,25(OH)2D].3 Isso, por sua vez, ajuda na absorção intestinal de cálcio.3

 

Metabolismo do cálcio no ciclo gravídico puerperal

 

As alterações do metabolismo do cálcio e suas repercussões sobre o esqueleto materno têm sido motivo de atenção dos pesquisadores há muito tempo. Ainda que o nível total de cálcio diminua no transcurso gestacional devido à baixa albumina associada à hemodiluição, os valores de cálcio e de cálcio ionizado corrigidos por albumina permanecem normais durante toda a gravidez.3,4 Entretanto, nota-se que, ao nascimento, cerca de 30 g de cálcio estão presentes em recém-nascidos (RNs) a termo. 3,4 

 

Essa quantidade de cálcio é transferida ativamente através da placenta, e a maior parte ocorre durante o terceiro trimestre, quando a matriz de colágeno é rapidamente ossificada.3 Da mesma forma, há perda obrigatória de cálcio no leite materno durante a lactação.3 Compensatoriamente, a absorção de cálcio materno aumenta para atender a essa demanda, com os maiores aumentos relatados entre mulheres com baixo consumo.5-7

 
Em situações em que as necessidades de ingesta diária materna de cálcio não sejam atendidas, podem ser observadas consequências deletérias tanto para a mãe quanto para o feto, como osteopenia, tremor, parestesias, câimbras, crescimento fetal restrito, baixo peso ao nascer e mineralização fetal inadequada.2,8 Ademais, nessas circunstâncias, o risco de pré-eclâmpsia se mostra aumentado.9
 

A gravidez representa um período de mudanças cruciais no organismo materno. Alterações metabólicas se põem em curso com o objetivo de garantir o crescimento e o desenvolvimento fetal adequado, bem como de preservar a saúde materna.1

Recomendações da ingestão de cálcio no ciclo gravídico-puerperal

 

A dieta recomendada (RDA, do inglês recommended dietary allowance) para ingestão de cálcio elementar por mulheres grávidas e lactantes é de 1.000 mg/dia, praticamente a mesma em comparação à de mulheres que não estão em período gestacional.10 

 

Entretanto, a ingestão de cálcio entre gestantes geralmente não atende a essa recomendação, mesmo em países desenvolvidos, aqui incluídos os Estados Unidos.11 Ademais, nos casos de baixa ingestão dietética de cálcio, a suplementação é uma intervenção apropriada para a prevenção da pré-eclâmpsia e dos elevados riscos de distúrbios hipertensivos.9,12 

 

Essas constatações levaram à recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de suplementar com 1,5-2,0 g/dia de cálcio elementar as mulheres grávidas a partir de 20 semanas de gestação.12  Em uma revisão sistemática recente e metanálise com 28.000 mulheres, confirmou-se que o cálcio, a vitamina D e o cálcio associado à vitamina D diminuem o risco de pré-eclâmpsia em 46%, 53% e 50%, respectivamente.13

 

De outra parte, é importante que se considere o período de lactação que, não raro, passa ao largo de uma orientação clara e apropriada. Cumpre recordar que durante a lactação a taxa de transferência de cálcio materno para a glândula mamária para secreção de leite materno é de 200 a 300 mg/dia, fornecendo-se, dessa forma, um total de 35-50 g de cálcio para o lactente durante 6 meses de amamentação.14

 

Considerações finais

 

Cabe considerar que a suplementação de cálcio durante o ciclo gravídico-puerperal está associada a poucos efeitos colaterais, particularmente a obstipação intestinal, que, em geral, é de fácil manejo clínico.15  

 

Entretanto, quando comparados aos benefícios da suplementação de cálcio durante o ciclo gravídico-puerperal, os eventos adversos não costumam limitar seu uso.16 

 

Ademais, essa suplementação apresenta claros benefícios adicionais na prevenção da prematuridade ou do baixo peso ao nascer.2

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SABR.COSC.19.06.1162

REFERÊNCIAS

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