Introdução 

 

O cálcio é um dos minerais da natureza de extrema importância para o ser humano, não só pela função que desempenha, como também por estar em maior abundância dentro do corpo. Cerca de 1,0% a 2,0% do peso corporal total corresponde a esse mineral, e 99% do cálcio do organismo é encontrado nos ossos e nos dentes.1,2 

 

As fontes alimentares de cálcio de maior biodisponibilidade são os produtos lácteos e seus derivados, como iogurtes e queijos, mas o cálcio é também encontrado em outros alimentos vegetais, representados pelas folhas verdes (agrião, couve, espinafre, alface, salsa), além de salsão, cebola, brócolis, beterraba, laranja, milho, batata-doce e aveia.3 Mas a biodisponibilidade desse mineral nos alimentos vegetais nem sempre é alta, portanto a avaliação dos hábitos alimentares é fundamental para a adequação da ingestão desse nutriente tão essencial.3 

 

O cálcio é um elemento fundamental, e sua ingestão regular contribui efetivamente na mineralização óssea, desde a formação (crescimento ósseo de crianças e adolescentes), a manutenção e a rigidez do esqueleto até a renovação dos tecidos esqueléticos, tornando-se essencial em uma sociedade em que os indivíduos apresentam maior expectativa de vida.1,4,5 Além de sua atividade nos tecidos, sua ação está envolvida no processo de mitose e de coagulação do sangue, atuando em conjunto com a vitamina K, e também no envio e no recebimento de sinais nervosos ou sinápticos, coordenando também as ações da bomba de sódio e de potássio, responsável pela contração e recuperação muscular, e pela liberação de hormônios e de outros produtos químicos.1,6 Sua ausência dentro do organismo abre um precedente para a osteoporose, condição na qual os ossos se tornam frágeis e quebradiços. Esta, por sua vez, pode causar fraturas (especialmente nos ossos do quadril).4,6 

 

Diversos autores já apontam uma relação real da baixa ingestão de cálcio com o surgimento de doenças crônicas (hipertensão, diabetes,  obesidade e alguns tipos de câncer),1,4 e elevam os riscos de fraturas e de limitação da mobilidade, prejudicando os índices de qualidade de vida.4,6 

 

Há estudos científicos que defendem a teoria de que o aumento da ingestão de cálcio pode atenuar a sensibilidade ao sal e reduzir a pressão sanguínea, principalmente em indivíduos hipertensos, trazendo, assim, benefícios cardiovasculares.7 

O cálcio é um dos minerais da natureza de extrema importância para o ser humano, não só pela função que desempenha, como também por estar em maior abundância dentro do corpo. Cerca de 1,0% a 2,0% do peso corporal total corresponde a esse mineral, e 99% do cálcio do organismo é encontrado nos ossos e nos dentes.1,2 

 

A relação do cálcio versus obesidade versus emagrecimento é explicada pela presença desse mineral dentro do adipócito, o que resulta no aumento da lipogênese e na inibição da lipólise.7,8 O aumento da ingestão de cálcio levaria, portanto, à redução da massa de gordura corporal.7,8 

 

Quanto à prevenção do câncer de cólon, o mais relacionado ao consumo de cálcio, as evidências indicam que a bile e os ácidos graxos não absorvidos irritam a mucosa intestinal, propiciando a proliferação de células cancerígenas. Nesse contexto, o cálcio pode formar complexos tanto com a bile quanto com os ácidos graxos, tornando-os inofensivos ao organismo.9 

 

Na tabela 1 estão as recomendações nutricionais de ingestão de cálcio, que varia durante a vida conforme a faixa etária, devendo ser maior em períodos de rápido crescimento, como a infância e a adolescência, e também no envelhecimento, em razão do reparo e da manutenção celular.2,5,6 

 
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O Standing Committee on the Scientific Evaluation of Dietary Reference Intakes, o Food and Nutrition Board e o Institute of Medicine (National Academy of Science) estabeleceram recomendações dietéticas baseadas em três indicadores: risco de fratura, medidores de massa muscular e retenção máxima de cálcio.2,5 

 

Todas as tabelas mundiais atuais que estabelecem valores de recomendação de cálcio baseiam-se em dados sobre a população branca de países desenvolvidos, desconsiderando as diversas etnias, bem como os hábitos alimentares, os fatores culturais e os geográficos.5 Por isso, é importante que haja uma avaliação criteriosa da ingestão (quantidades e tipos de alimentos-fonte) de cálcio com base no relato sobre a alimentação (por recordatório de 24 horas ou por diário alimentar).5 

 

Entretanto, ainda que o indivíduo atinja a recomendação de ingestão por dia proposta para sua idade, não necessariamente esses mesmos valores ficarão disponíveis para uso em seu organismo, já que a biodisponibilidade do cálcio oferecido pela dieta depende de outros fatores internos (eventos metabólicos; digestibilidade, solubilização, absorção, retenção e utilização pelo organismo; transformação enzimática; secreção e excreção), da interação com outras vitaminas e minerais (como a vitamina D) e de fatores externos.5 Além dos fatores endógenos (idade, condições fisiológicas e regulação hormonal), os fatores exógenos, como os citados na tabela 2, podem influenciar a absorção.5

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Mesmo que haja implicações na absorção, conforme o aumento da ingestão de cálcio (>500 mg/dia), ocorre também a melhora da eficiência da difusão passiva, que se torna o mecanismo predominante de absorção de grandes doses de cálcio, uma vez que o transporte ativo já está saturado.10 Fatores antinutricionais, como fosfatos, oxalatos e fitatos, tornam o cálcio insolúvel em pH neutro, dificultando a absorção passiva no íleo.10 

 

A absorção de cálcio no intestino se modifica de acordo com as condições fisiológicas dos indivíduos.11 Nos casos em que há necessidades maiores do mineral, a absorção intestinal se torna mais eficiente.11 Nas crianças e nos adolescentes em fase de crescimento, no período de gravidez ou de lactação e nos indivíduos que praticam atividades físicas de alta intensidade, há aumento das demandas de cálcio e, consequentemente, potencialização de seu processo absortivo.11 

 

Na gravidez, por exemplo, a absorção é maior do que no período anterior à concepção ou posterior ao parto, fator que ressalva a importância desse micronutriente na dieta das gestantes.11 

 

Mas a pesquisa da Fundação Internacional de Osteoporose (IOF, na sigla em inglês) chamada Mapa do Cálcio e mostrada na figura 1 compilou dados já conhecidos de 74 países para fazer uma análise mundial.12 Nesse ranking, o Brasil aparece na 47ª posição, com consumo inadequado e a média de 505 miligramas de cálcio por dia, quando o ideal são 1.000 miligramas.12 

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Hoje há uma “demonização” (não comprovada ainda pela comunidade científica) dos produtos lácteos, o que pode elucidar e justificar a posição do Brasil, acima citada, no consumo de cálcio. Outro ponto importante que vale considerar é o fato de que grande parte da população tem, como estrutura alimentar, somente três refeições por dia (café da manhã, almoço e jantar), e isso resultaria em menores oportunidades de aumentar o consumo de alimentos ricos em cálcio nos lanches intermediários. 

O consumo de cálcio pode ser otimizado de três maneiras: 

 

1.   Mudanças do comportamento alimentar, incluindo aumento do consumo de alimentos naturalmente ricos em cálcio.13
2.   Consumo de alimentos fortificados com cálcio.13
3.   Utilização de suplementos.13 

A alimentação deve ser priorizada para a adequação da ingestão de cálcio. Entretanto, é um desafio concretizar mudanças do comportamento alimentar em grandes populações.13 Algumas estratégias podem ser utilizadas, como melhorar a difusão de conhecimento sobre a importância do consumo de cálcio para a saúde, bem como sobre as principais fontes alimentares desse nutriente.13 (Tabela 3)

-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/05/como-avaliar-a-ingestao-de-calcio-nos-pacientes-uma-abordagem-pratica/11778_Tabela-3-01.ashx?w=1091&hash=AD65B0C776D73F7877D7FA84FA54A6AF
Para um melhor controle diário do cálcio adicional necessário à dieta, a National Osteoporosis Foundation disponibiliza uma tabela para auxiliar o cálculo de ingestão de cálcio obtido por meio dos alimentos.14 (Tabela 4)
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Como utilizar a tabela:14

 

•   Etapa 1: Calcule o número de porções para cada tipo de alimento. 
•   Etapa 2: Liste o número estimado de porções de cada alimento em “porções por dia”.
•   Etapa 3: Multiplique o número de “porções por dia” pelo número de miligramas (mg) em cálcio.
•   Etapa 4: Após calcular a quantidade total de cálcio para cada produto, adicione esses totais na coluna da direita para obter a “ingestão diária total de cálcio”.
•   Etapa 5: Subtraia o total diário de cálcio ingerido da quantidade recomendada de cálcio necessária por dia. Esse número é o cálcio adicional necessário para cada dia, que pode ser obtido adicionando alimentos ricos em cálcio à dieta e/ou utilizando um suplemento de cálcio.

 

Em atenção a alguns casos de ressalva em que a recomendação nutricional e terapêutica pode necessitar de exclusão parcial ou total de alguns alimentos-fonte, como nos casos de intolerância à lactose, alergia alimentar à proteína do leite ou veganismo, e em outras situações de baixo consumo de folhas, frutas e legumes, deve-se considerar a suplementação como alternativa válida de adequação da ingestão de cálcio.13 Vale lembrar que o maior fracionamento da dose do suplemento melhora a absorção de cálcio, por isso deve ser ingerido ao longo do dia em doses máximas de 500 mg cada uma e associado a refeições para otimizar a absorção, especialmente no caso do carbonato de cálcio.15 

 

Por fim, é preciso evidenciar que, para alcançar a eficácia da suplementação de cálcio e da adequação alimentar, é necessário modular o funcionamento absortivo e melhorar a qualidade da microbiota intestinal, considerando-se que distúrbios bacterianos como os encontrados na disbiose, condição cada vez mais frequente na população, prejudicam significativamente a absorção de cálcio e de outros minerais importantes.16 Assim, o planejamento não só da suplementação de cálcio, como também da oferta de estratégias para a melhora da simbiose intestinal (com prebióticos e probióticos), torna-se um manejo essencial na conduta clínica.16

-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/05/como-avaliar-a-ingestao-de-calcio-nos-pacientes-uma-abordagem-pratica/oscal---menor.ashx?w=243&hash=763CC20C2CFE2ACB55D829CA25354296
SABR.COSC.19.06.1182

REFERÊNCIAS

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  3. Miller GD, Jarvis JK, McBean.

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  6. World Health Organization; Food and Agriculture Organization of the United Nations.

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  8. Silva PMC, Cabral Junior CR, Vasconcelos SML.

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    In: Weaver CM, Heaney RP, eds. Calcium in human health.

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    Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/o-mapa-do-calcio/.

  13. Pereira GAP, GenaroI OS, Pinheiro MM, Szejnfeld VL, MartiniI LA.

    Cálcio dietético: estratégias para otimizar o consumo.

    Rev Bras Reumatol. 2009;49(2):164-80.

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    Steps to Estimate Your Calcium Intake.

    Disponível em: https://www.nof.org/patients/treatment/calciumvitamin-d/steps-to-estimate-your-calcium-intake/. Acesso em: 5 jun. 2019.

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    Osteoporosis Int. 1991;1(2):65-71.

  16. Szychlinska MA, Di Rosa M, Castorina A, Mobasheri A, Musumeci G.

    A correlation between intestinal microbiota dysbiosis and osteoarthritis.

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