Doença meningocócica: epidemiologia no Brasil

 

A doença meningocócica causada pela bactéria Neisseria meningitidis, é uma infecção importante que pode produzir alta letalidade. Dos 12 sorogrupos meningocócicos, seis (A, B, C, W, X e Y) são responsáveis por quase todas as doenças endêmicas e epidêmicas em todo o mundo.1 A vacina Menactra® protege contra quatro desses sorogrupos, (A, C, W e Y).2

 

A Neisseria meningitidis tornou-se a principal causa de meningite bacteriana em crianças nos EUA nas últimas décadas.3 Na América Latina, é também uma das principais causas de meningite em crianças e adultos jovens. Dos 12 sorogrupos conhecidos, 6 (A, B, C, W, X e Y) causam a maioria das doenças nos Estados Unidos, enquanto três (A, B e C) estão envolvidos na maioria dos casos em todo o mundo.4 Na América Latina, são 4 os sorogrupos responsáveis pela maioria das infecções meningocócicas (B, C, W e Y).2

 

No Brasil, durante o período de 2010 a 2018, foram confirmados 16.804 casos de doença meningocócica, destes 8.394 foram sorogrupados (50%). Dos sorogrupos identificados, o uso de uma vacina quadrivalente poderia evitar cerca de 80,6% dos casos. Neste mesmo período, foram confirmados 3.576 óbitos e uma letalidade chegando à 26% na faixa etária dos 10-19 anos de idade.5

 

No estado de Santa Catarina até a semana epidemiológica 35 de 2019, o comportamento da doença meningocócica permanece endêmico, com incidência de 0.45% por 100.000 mil/hab. Entre os casos confirmados em 2019, 18,8% são do sorogrupo B, sorogrupo C 31,3%, 2 casos do sorogrupo Y representando 6% das amostras; 28,1% foram identificadas como sorogrupo W com uma letalidade chegando a 42,9%.6

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O estado de portador 

 

Neisseria meningitidis é uma bactéria classificada como diplococo Gram negativo que coloniza a orofaringe humana, geralmente de forma assintomática e é transmitida de pessoa a pessoa através de gotículas de saliva por contato direto com pessoas doentes ou portadores assintomáticos.7-9

 

A prevalência do estado de portador é dependente da idade do indivíduo, sendo menor nos primeiros anos de vida, aumentando durante a adolescência, pico entre 11 aos 19 anos de idade.7-10

 

As vacinas conjugadas possuem, como características, a indução de memória imunológica, respostas aos reforços, redução dos portadores e a consequente imunidade comunitária, superando as limitações das primeiras vacinas polissacarídicas.1,11-13

 

A transmissão da doença pode ser interrompida quando uma grande proporção da população é imune. Este conceito é conhecido como imunidade de rebanho. A imunidade de rebanho é de grande importância em campanhas de vacinação, pois fornece proteção indireta, com reduções nas taxas de doença em indivíduos não imunizados. No entanto, a imunidade de rebanho só pode ocorrer se os programas de vacinação atingirem uma cobertura vacinal alta em uma população.14,15

 

A vacinação, a melhor forma de prevenir a meningite meningocócica

 

A vacinação de adolescentes é uma estratégia importante no controle da doença meningocócica visto que esta faixa etária tem um grande papel na transmissão da doença sendo a faixa com maior taxa de portabilidade da bactéria N. Meningitidis (até 20% dos adolescentes são portadores da bactéria).16 Obviamente para alcançar bons resultados em saúde pública é essencial a cobertura adequada dos grupos alvo, e vale reconhecer que a vacinação dos adolescentes se mostrou um grande desafio. Entre as populações prioritárias para a vacinação pelo PNI, este é o grupo que apresenta as menores taxas de coberturas.17,18,19

 

A cobertura alcançada em 2017, primeiro ano de implementação da vacina contra meningite C, foi inferior a 50% para as faixas etárias de 12 e 13 anos, e em 2018, segundo ano da campanha, girou em torno de 25% para os adolescentes de 11 e 12 anos (grupos etários incluídos ela primeira vez). 

 

É importante lembrar os adolescentes sobre a importância da vacinação contra a meningite meningocócica.

 

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece imunização primária contra o Meningococo C: duas doses, aos 3 e 5 meses de vida, e o reforço aos 12 meses.20

 

Entretanto a vacinação na primeira infância não garante proteção contra a doença pela vida toda, por isso pré-adolescente e adolescentes (entre 11 anos e 14 anos) também tem o direito a receber a vacina contra a meningite do tipo C de maneira gratuita no SUS.6

 

A vacina está disponível durante todo o ano em mais de 37 mil postos em todo o País.

 

Para 2020, o Ministério da Saúde disponibilizará uma vacina mais ampla, denominada quadrivalente ACWY que imuniza o indivíduo contra 4 sorogrupos da bactéria que causa a meningite meningocócica. Esta vacina antes era encontrada apenas em clínicas de vacinação particulares. A nova vacina estará disponível para a vacinação de pré-adolescentes e adolescentes de 11 a 12 anos.21

 

 

SPBR.MENAC.20.02.0030

REFERÊNCIAS

  1. Harisson LH, Granoff DM, Pollard AJ.

    Meningococcal vaccines.

    In Plotkin S, 7th ed. Vaccines. Philadelphia, PA: Elsevier Inc., 2018.

  2. Menactra: vacina meningocócica ACWY (conjugada) [Bula do produto].

    Suzano: Sanofi-Aventis Farmacêutica Ltda, 2017.

  3. Schuchat A, Robinson K,Wenger JD, et al.

    Bacterial meningitis in the United States in 1995.

    Active Surveillance Team. N Engl J Med. 1997;337(14): 970-976.

  4. Pichichero ME.

    Meningococcal conjugate vaccine in adolescents and children.

    Clin Pediatr. 2005;44: 479-489.

  5. Brasil. Ministério da Saúde. Portal da Saúde.

    Casos confirmados, óbitos, incidência (por 100.000 habitantes) e letalidade (%) por tipo de meningite.

    Brasil, 2010 a 2018 Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/abril/25/tabela-dados-2010-2018-site.pdf. Acessado em 06/10/19

  6. Governo de Santa Catarina. Diretoria de Vigilância Epidemiológica.

    Boletim Epidemiológico mensal 04/2018 (Atualizado em 29 de Agosto de 2019).

    Disponível em: http://www.dive.sc.gov.br/index.php/arquivo-noticias/938-boletim-epidemiologico-mensal-n-04-2018-vigilancia-da-doenca-meningococica-atualizado-em-29-de-agosto-de-2019. Acessado em 06/10/19

  7. Caugant, D. A.

    Population genetics and molecular epidemiology of Neisseria meningitidis.

    Apmis, v. 106, n. 5, p. 505-525, 1998.

  8. Caugant, D. A. et al.

    Asymptomatic carriage of Neisseria meningitidis in a randomly sampled population.

    J. Clin. Microbiol., v. 32, n. 2, p. 323-330, 1994.

  9. Stephens, D. S.

    Uncloaking the meningococcus: Dynamics of carriage and disease.

    The Lancet, v. 353, n. 9157, p. 941-942, 1999.

  10. Moraes et al.

    Ped Infect Dis J, 2015 Nov;34(11):1197-202.

    doi: 10.1097/INF.0000000000000853.

  11. Miller E, Salisbury D, Ramsay M.

    Planning, registration, and implementation of animmunization campaign against meningococcal serogroup C disease in the UK: a success story.

    Vaccine. 2002;20 Suppl 1:S58-67.

  12. Maiden MC, Stuart JM.

    Carriage of serogroup C meningococci 1 year after meningococcal C conjugate polysaccharide vaccination.

    Lancet. 2002;359: 1829-1831.

  13. Jodar L, Feavers IM, Salisbury D, Granoff DM.

    Development of vaccines against meningococcal disease.

    Lancet. 2002;359 1499-1508.

  14. Cohn, A. C. et al.

    Changes in neisseria meningitidis disease epidemiology in the United States, 1998-2007: Implications for prevention of meningococcal disease.

    Clin. Infect. Dis., v. 50, n. 2, p. 184-191, 2010.

  15. Safadi, M. A.; Berezin, E. N.; Oselka, G. W.

    A critical appraisal of the recommendations for the use of meningococcal conjugate vaccines.

    J. Pediatr. (Rio J.), v. 88, n. 3, p. 195-202, 2012.

  16. Christensen H, May M, Bowen L, Hickman M, Trotter CL.

    Meningococcal carriage by age: a systematic review and meta-analysis.

    Lancet Infect Dis. 2010 Dec;10(12):853-61. doi: 10.1016/S1473-3099(10)70251-6. Epub 2010 Nov 11.

  17. Araújo TME, Sá LC, Silva AAS, Costa JP.

    Cobertura vacinal e fatores relacionados à vacinação dos adolescentes residentes na área norte de Teresina/PI.

    Rev. Eletr. Enf. 2010;12(3):502-10. Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista/v12/n3/v12n3a13.htm.http://dx.doi.org/10.5216/ree.v12i3.6934.

  18. Carvalho AMC, Araujo TME.

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  19. Viegas SMF, Sampaio FC, Oliveira PP, Lanza FM, Oliveira VC, Santos WJ.

    A vacinação e o saber do adolescente: educação em saúde e ações para a imunoprevenção.

    Ciênc. saúde coletiva. 2019 Fev; 24( 2 ): 351-360. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232019000200351&lng=pt.

  20. Ministério da Saúde (MS).

    Calendário Nacional de Vacinação.

    [Internet]. Disponível em: http://www.saude.gov.br/saudede-a-z/vacinacao/calendario-vacinacao. Acesso em: 31/08/19.

  21. Ministério da Saúde (MS).

    Vacinação: quais são as vacinas, para que servem, por que vacinar, mitos.

    [Internet] Disponível em: https://saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao/. Acesso em: 06/04/2020.