INTRODUÇÃO 

 

A osteoartrite (OA) de joelhos é um pesado fardo para a sociedade, tanto do ponto de vista da saúde quanto do ponto de vista econômico, já que traz grande perda de função e de qualidade de vida aos indivíduos acometidos, gerando enormes custos.1 O custo atribuído à osteoartrite e a outras doenças reumáticas em 2003, apenas nos Estados Unidos, foi de 321,8 bilhões de dólares.2 A mais recente atualização do Global Burden of Disease estima que cerca de 242 milhões de pessoas no mundo todo vivem com sintomas e limitações devido à osteoartrite de joelhos ou quadris.3 No Brasil, estima-se prevalência de aproximadamente 39 milhões de indivíduos com osteoartrite.4 

 

Apesar do enorme número de pesquisas, não há ainda tratamento eficaz da osteoartrite.4 Existem atualmente várias diretrizes com recomendações sobre as diversas modalidades de tratamento da osteoartrite baseadas na literatura médica.5-7 Estamos longe, no entanto, de um consenso sobre a melhor forma de terapia, assim como de uma recomendação de tratamento ideal e realmente efetivo na cura do problema.8 Existem motivos para o atual cenário de impotência diante desse gravíssimo problema de saúde.8 O maior deles, sem dúvida, é a grande complexidade dos fatores envolvidos no desenvolvimento e na progressão dessa doença, cuja fisiopatologia decorre de alterações mecânicas, inflamatórias, metabólicas, pós-traumáticas, moleculares, genéticas e psicológicas, entre outras.9 Existe, de forma semelhante, grande variação entre os indivíduos em relação à trajetória da doença, uma vez que alguns evoluem rapidamente, enquanto outros permanecem estáveis.9

 

Em vez de tratar a osteoartrite como doença única, focando os tratamentos disponíveis, consideramos um olhar específico para cada um dos mais diversos fatores envolvidos na gênese e na evolução do problema, aos quais damos o nome de “alvos”.9 Assim sendo, propomos não o tratamento da doença osteoartrite, e sim o manejo de cada um dos fatores-alvo por meio de um tratamento baseado em alvos.9 Nesse contexto, um alvo fundamental para a saúde articular, que certamente apresenta alterações na vigência da osteoartrite, é a cartilagem articular.8

 

FISIOPATOLOGIA DA DEGENERAÇÃO DA CARTILAGEM 

 

A estrutura da cartilagem articular 

 

A cartilagem articular é a cartilagem hialina, tecido extremamente especializado, composto de condrócitos (cerca de 2% a 10% da cartilagem) e de matriz extracelular, mantida pelos condrócitos.8 A matriz cartilaginosa, por sua vez, é composta de tecido fluido (de 60% a 80% da matriz é formada de água) e de uma rede estrutural constituída de macromoléculas que dão forma e estabilidade ao tecido. Essa rede macromolecular da cartilagem articular consiste de colágeno (predominantemente do tipo II), de proteoglicanas e de outras proteínas não colágenas.8 Essas macromoléculas contribuem com cerca de 20% a 40% do peso seco da cartilagem.8 O colágeno contribui com cerca de 60% desse montante, enquanto as proteoglicanas cooperam com cerca de 25% a 35%, e as proteínas não colágenas e as glicoproteínas, com os 15% a 20% restantes.8,9 

 

O papel dos condrócitos 

 

Os condrócitos apresentam turnover celular lento, porém contínuo, e sintetizam o colágeno e as proteoglicanas da matriz, além de enzimas que ajudam a quebrar e a eliminar porções mais antigas e degeneradas da matriz.8 Essas células respondem a alterações de pressão ou a danos da cartilagem, alterando-a ou reparando-a.8 O condrócito, portanto, tem papel central na homeostase da cartilagem.8,9 

 

Metabolismo da cartilagem 

 

Diversos fatores alteram o turnover da cartilagem, inclusive numerosos reguladores bioquímicos, estresse articular, distribuição de forças e adequada provisão de moléculas necessárias à produção de componentes da cartilagem.8 Os mecanismos regulatórios são complexos e ainda não foram totalmente esclarecidos.8 Diversas substâncias estão envolvidas na regulação do metabolismo da cartilagem, como citocinas, fatores de crescimento, colágeno, vitaminas e minerais.8,9

 

Deterioração da cartilagem 

 

A destruição e a eventual perda da cartilagem resultam do desbalanço entre a atividade anabólica e a catabólica.8 As origens mais comuns desse desbalanço são a senescência e as condições fisiopatológicas relacionadas à osteoartrite, que cursam com o desbalanço entre degradação e reparação, a perda de colágeno do tipo II e, finalmente, o dano da cartilagem.8,9

 

Osteoartrite: implicações na cartilagem e no manejo 

 

Os eventos-chave que ocorrem na cartilagem incluem o desbalanço metabólico, o surgimento de sinalizadores de degradação, estimulados por cascatas de citocinas, e a produção de mediadores inflamatórios.1 Nos pacientes com osteoartrite, os condrócitos, assim como as células sinoviais, produzem o aumento dos níveis de citocinas inflamatórias, como a interleucina 1 (IL-1) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-), que, por sua vez, diminuem a síntese de colágeno e aumentam os mediadores catabólicos, como as metaloproteinases (MMPs) e outros mediadores inflamatórios, como interleucina 8 (IL-8), interleucina 6 (IL-6), prostaglandina E2 (PGE2) e óxido nítrico (NO).1,10

 

“Nos pacientes com osteoartrite, os condrócitos, assim como as células sinoviais, produzem o aumento dos níveis de citocinas inflamatórias, (...) que, por sua vez, diminuem a síntese de colágeno e aumentam os mediadores catabólicos, como as metaloproteinases (MMPs) e outros mediadores  inflamatórios (...).1,10“ 

 

O USO DE COLÁGENO HIDROLISADO FORTIGEL® NA SAÚDE ARTICULAR 

 

O uso de colágeno no tratamento da osteoartrite não é novidade.8 Por se tratar de molécula muito grande e estável, em sua forma natural não é absorvido pelo intestino. O colágeno hidrolisado Fortigel®, como o próprio nome sugere, passa por um processo enzimático de quebra (hidrólise), o que resulta em aminoácidos livres e em pequenos conjuntos de aminoácidos denominados de peptídeos de colágeno.8 

 

Em 2012, foi lançado em nosso meio o colágeno hidrolisado feito de peptídeos bioativos (Fortigel®),11,12 e seu uso tem conquistado cada vez mais força devido à eficácia e ao excelente perfil de segurança. Estudos realizados especificamente com o colágeno hidrolisado que contém peptídeos bioativos (Fortigel®) demonstraram sua absorção e biodisponibilidade, sua capacidade de aumentar a biossíntese de colágeno do tipo II por condrócitos e sua eficácia clínica.8,13

 

A osteoartrite é um problema grave, de grande prevalência na população mundial.2 O número de casos da doença só tende a aumentar devido ao envelhecimento da população, especialmente no Brasil.1

Estudos pré-clínicos 

 

Estudos experimentais demonstraram que o colágeno hidrolisado Fortigel® administrado por via oral é totalmente absorvido no intestino e atinge a circulação sanguínea com a concentração plasmática máxima em torno de 6 horas, momento em que menos de 10% do colágeno ainda está no trato gastrointestinal.8 Demonstrou-se também que o colágeno não é totalmente quebrado no sistema digestivo, havendo apenas a absorção dos peptídeos maiores, de peso molecular entre 1 kD e 10 kD.8,14 Isso é importantíssimo, visto que são justamente esses peptídeos bioativos, compostos predominantemente de lisina, prolina e hidroxiprolina, os responsáveis pela ação estimuladora dos condrócitos observada apenas no colágeno hidrolisado Fortigel® com essas características.8,13 

 

Verificou-se ainda, por meio de aminoácidos marcados radioativamente, que uma quantidade significativa de peptídeos derivados do colágeno hidrolisado Fortigel® atinge a cartilagem articular em menos de 12 horas.8,14

 

Experimentos de cultura celular também mostraram que os condrócitos tratados em cultura com peptídeos de colágeno por 11 dias apresentaram aumento da síntese de colágeno do tipo II em comparação aos condrócitos não tratados (p<0,01).8 

 

Em contraste, o colágeno nativo e o colágeno sem peptídeos bioativos não tiveram capacidade de estimular os condrócitos. Isso mostra que, além de ser considerado uma droga sintomática de ação lenta (SYSADOA, na sigla em inglês), o colágeno hidrolisado Fortigel® pode ser considerado uma verdadeira droga modificadora da doença osteoartrite (DMDOA) devido à capacidade de estimular o condrócito.8

 

“Experimentos de cultura celular também mostraram que os condrócitos tratados em cultura com peptídeos de colágeno por 11 dias apresentaram aumento da síntese de colágeno do tipo II em comparação aos condrócitos não tratados (p<0,01).8

 

Estudos clínicos 

 

Os benefícios clínicos do colágeno hidrolisado Fortigel® foram investigados em quatro estudos abertos e em três estudos duplos-cegos.8 Entre os estudos abertos, destaca-se o realizado por Oberschelp et al. (1985), que analisaram a evolução da dor associada à osteoartrite em 154 pacientes com osteoartrite de joelhos, quadris e coluna lombar divididos em três grupos de tratamento: 1) exercícios terapêuticos apenas; 2) exercícios mais peptídeos de colágeno associados a vitamina A e L-cisteína; e 3) apenas peptídeos de colágeno associados a vitamina A e L-cisteína, sem exercícios.8 Após três meses, apenas 20% dos participantes do grupo 1 relataram resposta boa ou muito boa à dor versus 56% e 69% de bons e ótimos resultados nos grupos 2 e 3, respectivamente.8 

 

Dentre os ensaios duplos-cegos, vale ressaltar um estudo clínico prospectivo e randomizado realizado por Zuckley et al. (2004) com 250 indivíduos adultos com diagnóstico de artrose leve baseado nos critérios do Colégio Americano de Reumatologia (ACR, na sigla em inglês).8 Os pacientes foram divididos para receber colágeno hidrolisado Fortigel® (10 g/dia) ou placebo pelo período de 14 semanas.8 No total, 190 participantes completaram o ensaio.8 Os desfechos avaliados foram força muscular (mediante avaliação isocinética), teste de caminhada de 6 minutos, dor, rigidez e função (por meio do questionário de WOMAC), utilizando-se ainda o questionário de Lequesne e a Escala Visual Analógica de dor.8 Após as 14 semanas, o grupo que recebeu colágeno apresentou melhora da força muscular em três das seis medidas isocinéticas (p<0,05).8 

 

Uso em outras populações (sem artrose) 

 

Flechsenhar et al. (2005)15 avaliaram atletas sem diagnóstico de osteoartrite que apresentavam dor articular (de joelhos, quadris ou ombros) relacionada à prática esportiva.8,15 Nesse estudo observacional, 100 participantes com artralgia causada por atividade física intensa receberam 10 g de colágeno hidrolisado Fortigel® diariamente durante 12 semanas.8,15 Dos 86 pacientes reavaliados, 79% mostraram redução da dor após o uso de colágeno hidrolisado Fortigel®,15 o que evidencia o efeito analgésico desse nutracêutico, além do potencial de proteção das microlesões articulares causadas pela atividade física intensa.

 

Além dos trabalhos revisados no artigo, vale a pena citar outro mais recente, desenvolvido por McAlindon et al. (2011).16 Os autores avaliaram 29 pacientes divididos para receber 10 g de colágeno hidrolisado Fortigel® ou placebo. A avaliação foi feita por meio de ressonância magnética com contraste de gadolínio.16 Essa sequência de exames, denominada de dGEMRIC, explora a tendência do agente de contraste baseado em gadolínio negativamente carregado de acumular-se na cartilagem hialina de acordo com a concentração de proteoglicanas na matriz cartilaginosa, criando-se um índice visual que reflete a quantidade de proteoglicanas presentes na matriz.16 Esse estudo evidenciou muito claramente o aumento de proteoglicanas na cartilagem hialina com 24 semanas de uso de colágeno hidrolisado.16 (Figura 1)

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CONCLUSÃO

 

A osteoartrite é um problema grave, de grande prevalência na população mundial.2 O número de casos da doença só tende a aumentar devido ao envelhecimento da população, especialmente no Brasil.1 

 

O manejo da osteoartrite deve ser individualizado por meio de um tratamento baseado em alvos, e os pilares desse tratamento são: educação do paciente, atividade física e perda de peso.7,8 

 

Podemos e devemos sempre associar os nutracêuticos a outras modalidades terapêuticas.9 

 

O uso de peptídeos de colágeno é eficaz no tratamento da dor articular causada tanto pela artrose quanto por outros motivos, como atividade física intensa.8

 

Os peptídeos de colágeno são uma modalidade terapêutica segura quanto a eventos observados com outras drogas, como os gastrointestinais, os renais e os cardiovasculares. O colágeno hidrolisado Fortigel® composto de peptídeos bioativos de colágeno é o que tem melhor evidência científica em relação a absorção, ação no órgão-alvo, estimulação do condrócito e eficácia clínica. No entanto, os resultados desses estudos não podem ser extrapolados para outros tipos de colágeno.8

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