Pacientes com fraturas ou lesões graves, hospitalizados no departamento de trauma ortopédico, podem precisar de cirurgia de emergência. Além disso, a maioria dos pacientes com fratura de quadril são mais idosos, com piores condições físicas e doenças subjacentes, como hipertensão, diabetes ou doenças cardíacas. Tais pacientes geralmente são aconselhados a se submeter ao tratamento cirúrgico o mais rápido possível. Essa abordagem não apenas facilita a cicatrização das fraturas e a recuperação da mobilidade, mas também reduz várias complicações, como pneumonia e trombose venosa profunda.1

 

O estresse associado à fratura e ao tratamento cirúrgico pode desencadear uma série de respostas de estresse oxidativo e de inflamação excessiva. Essas reações regulam a expressão de diversos fatores inflamatórios e diminuem a imunidade dos pacientes, aumentando a probabilidade de pneumonia. As complicações pulmonares pós-operatórias ocorrem em 4,9% dos pacientes após o tratamento cirúrgico de fratura de quadril.1

 

Considerando a alta mortalidade de pacientes com COVID-19, o tratamento cirúrgico de pacientes com fratura e com COVID-19 deve ser cuidadosamente planejado com antecedência. Além disso, atenção especial deve ser dada a esses pacientes após o tratamento cirúrgico da fratura devido à possibilidade de rápida deterioração de sua condição.1

 

Ainda, infecções virais, especialmente a infecção pelo vírus influenza, podem levar à rabdomiólise. Já há, inclusive, casos de rabdomiólise relacionados à COVID-19. Dor e fadiga muscular geral são sintomas comuns da COVID-19, mas os médicos devem considerar o diagnóstico de rabdomiólise quando os pacientes apresentam dor e fadiga muscular focal. Os níveis de creatina quinase (CK) e mioglobina são índices importantes para rabdomiólise. No entanto, não são testados rotineiramente e, consequentemente, a rabdomiólise é facilmente não diagnosticada. A chave para evitar insuficiência renal aguda da rabdomiólise é a detecção precoce para o tratamento com hidratação agressiva.2

 

Outro ponto importante é que um grande número de pacientes com dor crônica usa anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) para o controle da dor.3 As evidências científicas indicam que o uso de AINEs não coloca em risco de doença mais grave os pacientes que, de outra forma, teriam infecção leve ou assintomática por SARS-CoV-2. Pessoas que usam AINEs por outros motivos não devem parar de fazê-lo por receio de aumento do risco de COVID-19.4

 

PUBLICAÇÕES RECENTES NA ÁREA

 

Características e prognóstico da COVID-19 em pacientes com fratura
Mi B, et al. J Bone Joint Surg Am. 2020 Apr 1.1

 

Contexto 
Estudos da nova doença induzida por coronavírus, COVID-19, em Wuhan, China, elucidaram as características epidemiológicas e clínicas dessa doença na população em geral. Por outro lado, está bem estabelecido que pacientes com fraturas são mais suscetíveis à infecção pulmonar, principalmente aqueles com fratura de membros inferiores e capacidade ambulatorial limitada. Além disso, as pessoas com COVID-19 estão em grupos de indivíduos que têm contato próximo em locais como supermercados, transportes públicos e hospitais.
Pacientes com fraturas graves geralmente requerem hospitalização e tratamento cirúrgico, tornando essa população suscetível à COVID-19. Assim, surge a questão sobre as melhores práticas para pacientes com fratura e COVID-19. 

 

Objetivo
Resumir as características clínicas e o prognóstico da COVID-19 em uma coorte de pacientes com fraturas.

 

Métodos
Dados de 10 pacientes com fratura e com COVID-19 foram coletados de 8 hospitais diferentes localizados na província de Hubei, China, de 1 de janeiro de 2020 a 27 de fevereiro de 2020. As análises e o prognóstico foram realizados com base em resultados clínicos e tendências dos resultados laboratoriais durante o tratamento.

 

Resultados
Todos os 10 pacientes apresentaram atividade limitada devido à fratura. Os sinais mais comuns foram febre, tosse e fadiga no início dos sintomas (7 pacientes cada). Outros sinais menos comuns incluíram dor de garganta (4 pacientes), dispneia (5 pacientes), dor no peito (1 paciente), congestão nasal (1 paciente), dor de cabeça (1 paciente), tontura (3 pacientes), dor abdominal (1 paciente) e vômitos (1 paciente). Linfopenia (<1,0 X 109 células/L) foi identificada em 6 de 10 pacientes. Nove pacientes também apresentaram nível sérico alto de dímero D e de proteína C reativa. Três pacientes foram submetidos à cirurgia, enquanto os outros foram tratados sem cirurgia devido ao comprometimento do estado geral. Três pacientes morreram no dia 8 e um faleceu no dia 14 após a hospitalização. 

 

Conclusões
As características clínicas e o prognóstico para a COVID-19 em pacientes com fratura tendem a ser piores do que os relatados para pacientes adultos com COVID-19 sem fratura. Esse achado pode estar relacionado ao período entre o desenvolvimento e a apresentação dos sintomas. O tratamento cirúrgico deve ser realizado com cautela ou mesmo substituído por procedimentos não cirúrgicos para pacientes com fratura, especialmente indivíduos mais velhos com fraturas intertrocantéricas, em regiões geográficas afetadas pela COVID-19.

 

Cuidando de pacientes com dor durante a pandemia de COVID-19

Shanthanna H, et al. Anaesthesia. 2020 Apr 7.3

 

Contexto
A dor crônica causa sofrimento significativo, limitação das atividades diárias e redução da qualidade de vida. O manejo adequado da dor crônica não é apenas um imperativo moral e ético, mas também atenua as complicações físicas e psicológicas subsequentes.
Consequências da pandemia para o paciente com dor crônica
A infecção pelo COVID-19 é responsável por uma pandemia contínua que causa síndrome respiratória aguda grave, levando a complicações sistêmicas e morte. Liderados pela Organização Mundial da Saúde, os sistemas de saúde em todo o mundo estão empenhados em limitar a propagação da infecção. Como resultado, todas as cirurgias eletivas, procedimentos e consultas médicas, incluindo serviços de tratamento da dor, foram adiados ou cancelados, o que impactou o atendimento aos pacientes com dor crônica. A maioria é de idosos com múltiplas comorbidades, o que os coloca em risco de infecção por COVID-19. 

 

Objetivo
Formular recomendações para orientar a prática clínica no atendimento aos pacientes com dor crônica.

 

Métodos
Como a situação do COVID-19 continua a evoluir rapidamente, reuniu-se um painel de especialistas em dor, psicólogos e pesquisadores da América do Norte e Europa. 

 

Recomendações
As considerações importantes para os profissionais de saúde que cuidam de pessoas com dor crônica são: garantir a continuidade dos cuidados e medicamentos para dor; considerar o uso da telemedicina; manter o manejo biopsicossocial; usar anti-inflamatórios e esteroides com análise sensata de risco/benefício; priorizar as consultas para procedimentos; conduzir os procedimentos urgentes e semi-urgentes de forma segura para evitar morbidade em pacientes com dor crônica; e modificar terapias em andamento para diminuir o risco de COVID-19.  
Essas recomendações foram desenvolvidas para ajudar os profissionais de saúde, mas não são diretrizes. Essas recomendações se baseiam nas melhores evidências disponíveis atualmente e na opinião de especialistas, portanto podem precisar de adaptações às políticas locais de trabalho, especialmente porque a situação da COVID-19 se altera rapidamente.

 

Apenas quarentena ou combinação com outras medidas de saúde pública para controlar o COVID-19
Nussbaumer-Streit B, et al. Cochrane Database Syst Rev. 2020 Apr 8;4:CD013574.5

 

Contexto
A doença de coronavírus 2019 (COVID-19), de rápido crescimento, foi classificada como pandêmica pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para apoiar a OMS com suas recomendações sobre quarentena, realizamos uma rápida revisão sobre a efetividade da quarentena durante surtos graves de coronavírus.

 

Objetivos 
Realizar uma rápida revisão para avaliar os efeitos da quarentena (isoladamente ou em combinação com outras medidas) de indivíduos que tiveram contato com casos confirmados de COVID-19, que viajaram de países com um surto declarado ou que vivem em regiões com alta transmissão da doença.

 

Métodos 
Foram incluídos 29 estudos: 10 estudos de modelagem em COVID-19, quatro estudos observacionais e 15 estudos de modelagem em SARS e MERS.

 

Resultados 
Os estudos de modelagem da COVID-19 relataram consistentemente o benefício das medidas de quarentena simuladas, por exemplo, a quarentena de pessoas expostas a casos confirmados evitou altas proporções de infecções e mortes em comparação com nenhuma medida (evidência com baixa certeza). Quanto mais cedo as medidas de quarentena forem implementadas, maiores são as economias de custo, e o efeito da quarentena de viajantes de um país com um surto declarado para evitar a transmissão e as mortes é pequeno (evidência com certeza muito baixa). No entanto, essa evidência é baseada no surto de SARS e a generalização para COVID-19 é muito limitada.
Em geral, a combinação de quarentena com outras medidas de prevenção e controle, como fechamento de escolas, restrições de viagens, distanciamento social e outras, mostrou maior efeito na redução de transmissões, dos casos que exigiam leitos de cuidados intensivos e de mortes do que medidas individuais (evidência com baixa certeza). Os estudos sobre SARS e MERS são consistentes com os resultados dos estudos sobre COVID-19.
Somente a quarentena é importante para o controle de surtos, mas parece não ser suficiente para conter o COVID-19: 58% a 76% das transmissões devem ser evitadas por medidas de controle para que as infecções por COVID-19 parem de aumentar. Em uma situação com infecciosidade pré-sintomática ou até assintomática, é difícil identificar e isolar todos os casos e colocar os contatos dos casos em quarentena com antecedência suficiente para reduzir acentuadamente a transmissão.

 

Conclusões 
Apesar das evidências limitadas sobre a quarentena para controlar o COVID-19, os estudos concluíram consistentemente que a quarentena é uma importante medida de saúde pública para reduzir o número de pessoas infectadas e o número de mortes. Tanto para a eficiência quanto para o uso de recursos, a implementação antecipada e eficiente da quarentena parece ser fundamental. A combinação de quarentena com outras medidas de prevenção e controle mostrou o maior efeito na redução de transmissões, casos de incidentes e mortalidade. Para manter o melhor equilíbrio possível em relação às medidas, os tomadores de decisão devem monitorar constantemente a situação do surto e o impacto das medidas implementadas.

 

Sequenciamento de RNA revela o risco potencial de diferentes órgãos à infecção por SARS-CoV-2
Zou X, et al. Front Med. 2020 Mar 12.6

 

Contexto
Sabe-se que o novo coronavírus SARS-CoV-2, considerado semelhante ao SARS-CoV e originário de Wuhan (China), invade células humanas pelo receptor da enzima de conversão de angiotensina II (ECA2). Inclusive, as células pulmonares com expressão de ECA2 podem ser as principais células-alvo durante a infecção SARS-CoV-2. No entanto, alguns pacientes também apresentam sintomas não respiratórios, como insuficiência renal, o que implica que o SARS-CoV-2 também pode invadir outros órgãos. 

 

Objetivo
Analisar os conjuntos de dados de sequenciamento de RNA de célula única (scRNA-seq) dos principais sistemas fisiológicos humanos, incluindo os sistemas respiratório, cardiovascular, digestivo e urinário para construção do mapa de risco de diferentes órgãos humanos.

 

Métodos
Por meio da análise de dados scRNA-seq, os órgãos de risco, como pulmão, coração, esôfago, rim, bexiga e íleo, foram identificados.

 

Resultados
Os tipos celulares específicos (ou seja, células alveolares tipo II [AT2], células do miocárdio, células do túbulo proximal renal, células epiteliais do íleo e esôfago e células uroteliais da bexiga), que são vulneráveis à infecção por SARS-CoV-2, foram localizados. Com base nesses resultados, os pesquisadores construíram um mapa de risco indicando a vulnerabilidade de diferentes órgãos à infecção por SARS-CoV-2. (Figura 1)

 

Figura 1. Órgãos vulneráveis relacionados à infecção por SARS-CoV-2: órgãos de alto risco estão destacados em vermelho; órgãos de baixo risco estão indicados em cinza.

-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/05/relacao-covid-ortopedia/respiratorio.ashx?w=1920&hash=F9E1831ED0499473F8C70099BEB455BD

Adaptada de: Zou X, et al. Front Med. 2020 Mar 12. doi: 10.1007/s11684-020-0754-0.6

 

Conclusões

Este estudo pode fornecer pistas potenciais para uma investigação mais aprofundada da patogênese e via da infecção por SARS-CoV-2.

 

Os resumos deste material são apenas reprodução de conteúdo dos trabalhos científicos, sem representar qualquer opinião ou interesse da Sanofi ou de seus colaboradores. O profissional que desejar qualquer destes estudos na íntegra, favor enviar email para  infocientificas@sanofi.com. 

 

SABR.SA.20.04.0514

 

REFERÊNCIAS

  1. Mi B, Chen L, Xiong Y, Xue H, Zhou W, Liu G.

    Characteristics and Early Prognosis of COVID-19 Infection in Fracture Patients.

    J Bone Joint Surg Am. 2020 Apr 1. doi: 10.2106/JBJS.20.00390.

  2. Jin M, Tong Q.

    Rhabdomyolysis as potential late complication associated with COVID-19. Emerg Infect Dis.

    2020 Mar 20;26(7). doi: 10.3201/eid2607.200445.

  3. Shanthanna H, Strand NH, Provenzano DA, Lobo CA, Eldabe S, Bhatia A, et al.

    Caring for patients with pain during the COVID-19 pandemic: Consensus recommendations from an international expert panel.

    Anaesthesia. 2020 Apr 7. doi: 10.1111/anae.15076.

  4. FitzGerald GA.

    Misguided drug advice for COVID-19.

    Science. 2020 Mar 27;367(6485):1434. doi: 10.1126/science.abb8034.

  5. Nussbaumer-Streit B, Mayr V, Dobrescu AI, Chapman A, Persad E, Klerings I, et al.

    Quarantine alone or in combination with other public health measures to control COVID-19: a rapid review.

    Cochrane Database Syst Rev. 2020 Apr 8;4:CD013574.

  6. Zou X, Chen K, Zou J, Han P, Hao J, Han Z.

    Single-cell RNA-seq data analysis on the receptor ACE2 expression reveals the potential risk of different human organs vulnerable to 2019-nCoV infection.

    Front Med. 2020 Mar 12. doi: 10.1007/s11684-020-0754-0.