A quantidade de bactérias que colonizam nosso organismo, principalmente a pele e no sistema digestório, atinge números incontáveis. Abrigamos muito mais bactérias em nosso corpo do que a quantidade total de células somáticas existentes. Além disso, tais microrganismos apresentam capacidade metabólica semelhante à do fígado humano e um genoma (microbioma) muito maior e mais complexo também.1,2 

 

Uma microbiota intestinal diversificada e saudável participa de diversas funções orgânicas, tais como a metabolização de fibras polissacarídeas pouco digeríveis, a neutralização de toxinas, o bloqueio competitivo de bactérias patogênicas e, sobretudo, a ação adjuvante no desenvolvimento e na funcionalidade de outros sistemas, como o próprio sistema digestório, o imunológico e o sistema nervoso.1 

 

De onde vêm essas bactérias? Embora a maioria delas inicie a colonização bo nascimento, pela passagem do feto no canal vaginal e por sua proximidade com as porções finais do sistema digestório materno,3 uma pequena parcela já aparece no cenário intrauterino e é encontrada nas membranas placentárias e no líquido amniótico.1,4 Essa colonização já funciona como estímulo antigênico do adequado desenvolvimento anatômico e funcional do sistema imunológico das mucosas, assim como das respostas adaptativas sistêmicas.1,5 Muito provavelmente esse mecanismo de tolerância imunológica ocorre a partir do incremento da resposta linfocitária dependente de Th1 após o nascimento. A redução dessa resposta dependente de Th1, com a consequente manutenção e o incremento da resposta Th2, é encontrada nas crianças que apresentam risco de doenças atópicas, como a asma, assim como naquelas que têm diminuição da resposta a antígenos vacinais e maior suscetibilidade a infecções respiratórias.4

 

A diversidade da microbiota intestinal humana resulta de um processo de coevolução das comunidades bacterianas e do hospedeiro ao longo do tempo no qual ambas as partes se beneficiam uma da outra, determinando-se uma situação mutual de convivência (mutualismo).3,6 Por isso, a ausência de microbiota normalmente está diretamente relacionada à situação de desequilíbrio imunológico.1,4 Assim, a utilização de bactérias probióticas específicas na dieta poderia equilibrar a microbiota intestinal, além de estimular o sistema imunológico e as atividades imunomoduladoras, reforçando-se as defesas naturais do indivíduo.7,8 

 

Nesse sentido, fica cada vez mais claro o fato de que as situações de disbiose, em que a relação microbiota/hospedeiro é alterada, favorecem o aparecimento de condições imunomediadas, como doenças inflamatórias intestinais, síndrome do intestino irritável, obesidade e/ou síndrome metabólica, doenças autoimunes, alterações neurológicas e/ou comportamentais e alergias.1,9 (Figura 1)

icon microbiota e imunidade

Para o entendimento adequado dessa interface com o sistema imunológico, precisamos conhecer um pouco da linha do tempo relativa à hipótese da higiene, que vem tentando explicar o incremento da prevalência das doenças imunomediadas, como as alergias. Essa hipótese ganha força a partir de 1989 com os postulados de David Strachan, que sugeriam que os processos alérgicos poderiam ser prevenidos por determinadas infecções virais transmitidas de maneira horizontal em ambientes não higiênicos ou passíveis de maior contaminação exatamente pela presença de número mais elevado de contactantes intradomiciliares (irmãos). Mais tarde, outros estudos deram força à hipótese mostrando a relação inversa entre as alergias e algumas infecções endêmicas, de transmissão fecal-oral, como hepatite A, toxoplasmose e infecções por Helicobacter pylori. Já no final da década de 1990, os estudos de Von Mutius et al. mostraram que a exposição microbiana (lipopolissacarídeos [LPS]/endotoxinas) em ambientes rurais seria fator de proteção contra doenças alérgicas em comparação aos moradores de áreas urbanas. No entanto, essas mesmas endotoxinas funcionariam como fator de risco de asma não alérgica. Daí a necessidade de estudar a participação desses microrganismos isoladamente para entender o papel de cada um no contexto da diversidade microbiana a que o ser humano está exposto, seja no ambiente externo, seja internamente, como a microbiota intestinal.11,12 (Figura 2) 

As evidências científicas que justificam essa correlação são ratificadas por estudos com animais isentos de microbiota (do tipo germ-free), que apresentam hipoplasia do sistema imunológico de mucosa (placas de Peyer), diminuição da síntese de IgA, redução do número de linfócitos (CD4+) e inapropriada modulação imunológica mediada por subpopulações linfocitárias (células T reguladoras). Essa situação de imunodeficiência, nos animais germ-free, é revertida após o início da colonização intestinal por bactérias que simulam a condição fisiológica. Assim, é possível que a origem dos processos alérgicos remonte a fases mais precoces da vida por meio de complexa interação da suscetibilidade genética com o contato ambiental precoce, seja na vida intrauterina, por exposição e por experiências maternas, seja no período pós-natal imediato, produzindo-se diferenças fenotípicas entre os indivíduos que desenvolverão ou não doenças alérgicas.4,5

 

Nesse sentido, a utilização de microrganismos probióticos, como Bacillus clausii, pode ir além das indicações atualmente reconhecidas, como tratamento de diarreia aguda e prevenção de diarreia associada a antibióticos, e atingir a possibilidade de exercer efeitos imunomoduladores, como produção de citocinas anti-inflamatórias do tipo Th2, Treg e INF-g.13,14 

 

O conhecimento dos mecanismos fisiopatológicos das doenças imunomediadas, como o paradigma linfocitário Th1/Th2 e o papel das células T reguladoras, determinantes dos cenários pró-inflamatórios ou anti-inflamatórios, fundamenta a manutenção da hipótese da higiene nos dias atuais.1,12 

icon eixo intestino cerebro

Recentes e sucessivos estudos convergem, cada vez mais, na confirmação da comunicação da microbiota intestinal com o sistema nervoso central (SNC), quer por meio neural, hormonal ou por mediadores imunológicos, num processo que culmina na influência sobre a função cerebral e o comportamento humano. A exposição de animais de experimentação a microrganismos patogênicos, a bactérias probióticas ou a antibióticos influencia a diversidade da microbiota intestinal e repercute diretamente sobre o comportamento, a cognição e os mecanismos da dor. Esse conceito atual do eixo intestino-cérebro (gut-brain axis) sugere que a modulação da microbiota intestinal pode ser uma estratégia factível em relação a novos tratamentos de doenças que afetam o SNC.9,15 (Figura 1) 

 

Vários gêneros compõem a microbiota intestinal, como Lactobacillus, Bifidobacterium, Escherichia e Enterococcus, produtores de neurotransmissores e neuropeptídeos, como acetilcolina, dopamina, GABA e serotonina, sendo esta última também produzida por bactérias formadoras de esporos, que estimulam células enterocromafins por meio da síntese de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o butirato, que, por sua vez, também estimulam a maturação morfofisiológica das células da micróglia.15 

 

Estudos preliminares mostraram diferenças de composição da microbiota de pacientes com depressão em comparação a indivíduos saudáveis, sobretudo na composição dos filos Firmicutes, Actinobacteria e Bacteroidetes. Esses pacientes, quando se tornam doadores de microbiota fecal para animais do tipo germ-free, induzem um padrão de comportamento depressivo.16 Em termos clínicos, por exemplo, é fato a elevada correlação existente entre sintomas digestórios e neurológicos e/ou comportamentais. Mais de 50% dos pacientes com síndrome do intestino irritável apresentam, concomitantemente, sinais clínicos de depressão ou de ansiedade.17,18 Da mesma forma, há relação semelhante entre os pacientes com algum grau de espectro autista e as alterações digestórias, seja na motilidade (constipação/diarreia), seja na sensibilidade álgica (cólica). Nesse sentido, a modulação do eixo intestino-cérebro, sobretudo por meio do equilíbrio e da diversidade da microbiota intestinal, vem sendo proposta como estratégia terapêutica no manejo de uma variedade de doenças, de depressão/ansiedade a síndrome do intestino irritável, incluindo-se controle de fome/saciedade no tratamento e na prevenção da obesidade até doenças neurocognitivas mais complexas, como os transtornos de espectro autista.

 

Em conclusão, a microbiota intestinal vem sendo atualmente reconhecida como um órgão independente, o que ratifica sua relação com diversos sistemas do organismo humano.6 O equilíbrio de sua formação e a diversificação de sua composição são fundamentais para a manutenção harmônica dessas interfaces (eubiose). 

A diversidade da microbiota intestinal humana é resultado de um processo de coevolução das comunidades bacterianas e do hospedeiro ao longo do tempo no qual ambas as partes se beneficiam uma da outra, determinando-se uma situação mutual de convivência (mutualismo).3,6

 

Os estímulos adequados no período pré-natal, perinatal e pós-natal imediato (primeiros 1.000 dias de vida) são fundamentais para nortear o sistema imunológico, o sistema nervoso e o sistema endocrinológico/metabólico.4 Assim, as condições mais primitivas e naturais, que nas últimas décadas têm sido esquecidas, como nascimento por parto normal, alimentação exclusiva com leite materno (até o sexto mês), contato com o ambiente e a natureza, bem como a oportunidade de brincar e de ser feliz, podem fazer a diferença entre indivíduos tolerantes ou não ao que o mundo exterior impuser.