Introdução 

 

A mucopolissacaridose tipo I (MPS I) é uma doença geneticamente determinada, progressiva, de herança autossômica recessiva, enquadrada no grupo das doenças de depósito lisossômico.1-3 É causada pela deficiência de atividade da enzima alfa-L-iduronidase (IDUA).1 Devido ao acúmulo progressivo de glicosaminoglicanos (GAGs) nas células, múltiplos órgãos são acometidos.1 Na forma clássica, conhecida como síndrome de Hurler, o início é precoce, com ocorrência de hérnias, hepatoesplenomegalia, aspecto facial grosseiro, opacificação de córneas, contraturas articulares, hidrocefalia e acometimento respiratório e cardíaco, e o óbito é frequente ainda na primeira década de vida.1-3

 

Embora as descrições iniciais da doença tenham ocorrido há mais de 100 anos,2 a introdução de estratégias terapêuticas específicas, como a terapia de reposição enzimática (TRE), teve lugar apenas no início do século XXI e vem modificando a história natural da doença.2,3 Nesse sentido, o diagnóstico precoce é muito importante, e o pediatra tem papel fundamental no reconhecimento de sinais e sintomas.

 

Relato de caso: mucopolissacaridose tipo I (Hurler) 

 

Paciente nascida a termo, com peso de 3.170 g, comprimento de 48 cm e perímetro cefálico referido como normal. Apresentou diarreia crônica e dermatite perineal a partir dos 4 meses de idade, não resolvidos com sucessivas trocas de leite. Na mesma época, teve início secreção nasal persistente. O perímetro cefálico passou a subir na curva, ultrapassando o percentil 97 aos 7 meses de idade; o peso e o comprimento foram evoluindo para os percentis superiores a partir dos 4 meses de idade. Aos 6 meses, detectaram-se hepatoesplenomegalia, aumento do volume abdominal aos 8 meses e hérnia umbilical aos 9 meses de idade. Aos 8 meses, a paciente teve pneumonia. Apresentou atraso inicial de desenvolvimento, com sustento cefálico aos 7 meses, mas se colocou de pé com apoio aos 11 meses e caminhou com apoio aos 14 meses. Nessa idade, já falava palavras soltas, com boa compreensão. 

 

Devido ao quadro de pneumonia e à secreção constante em vias aéreas superiores, sugeriu-se a realização do teste do suor, mas após encontro fortuito com pediatra conhecido da família, que considerou o aspecto geral da criança grosseiro, recomendou-se avaliação por médico geneticista. 

 

O exame clinicomorfológico, aos 14 meses, revelou face infiltrada característica de doença de depósito, macrocefalia, ponte nasal plana, abdome globoso com hérnia umbilical importante, hepatoesplenomegalia, membros finos e mãos em garra. (Figura 1) Na revisão dos exames complementares trazidos, observaram-se sela turca em “J” e projeção anterior das porções inferiores das vértebras em coluna toracolombar. (Figura 2) 

Exames complementares 

 

Os exames adicionais revelaram: 

  • Avaliação oftalmológica: discreta opacificação corneana bilateral.
  • Ecocardiograma: prolapso de folheto anterior mitral.
  • Audiometria normal, timpanometria tipo B (por congestão de vias aéreas superiores).
  • Estudo do sono: seis eventos de hipoventilação/hora, padrão respiratório gravemente alterado, indicou-se ventilação não invasiva de suporte.
  • Raquimanometria: aumento da pressão liquorica (64 cm H2O, normal <20).

Comentários 

 

Os sinais/sintomas iniciais foram macrocefalia, dermatite de fraldas, hepatoesplenomegalia, hérnia e infecções respiratórias. Vale apontar a macrossomia inicial (com baixa estatura posterior).4 O pediatra deve estar atento à combinação de sinais e sintomas, muitas vezes comuns em crianças, que podem configurar uma doença rara. 

 

O tratamento medicamentoso específico reduz a velocidade de progressão da doença e a frequência das complicações clínicas, com ganhos de qualidade de vida.1,3 É possível que a neurodegeneração classicamente descrita na MPS I-Hurler seja de etiologia multifatorial e relacionada às intercorrências. Nesse sentido, o diagnóstico precoce com instituição do tratamento específico e conduta antecipatória visando prevenção de complicações pode modificar a história natural da doença. Por outro lado, a doença segue progredindo lentamente, e o acompanhamento contínuo é fundamental.

REFERÊNCIAS

  1. Muenzer J, Wraith JE, Clarke LA; International Consensus Panel on Management and Treatment of Mucopolysaccharidosis I.

    Mucopolysaccharidosis I: management and treatment guidelines.

    Pediatrics. 2009;123(1):19-29.

  2. Kubaski F, Poswar FO, Michelin-Tirelli K, Matte UDS, Horovitz DD, Barth AL, et al.

    Mucopolysaccharidosis type I.

    Diagnostics (Basel). 2020;10(3). pii: E161.

  3. Giugliani R, Federhen A, Rojas MVM, Vieira TA, Artigalás O, Pinto LLC, et al.

    Terapia de reposição enzimática para as mucopolissacaridoses I, II e VI: recomendações de um grupo de especialistas brasileiros.

    Rev Assoc Med Bras. 2010;56(3):257-77.

  4. Rózdzynska-Swiatkowska A, Jurecka A, Zuber Z, Tylki-Szymanska A.

    Can macrosomia or large for gestational age be predictive of mucopolysaccharidosis type I, II and VI?

    Pediatr. Neonatol. 2016;57(3):181-7.