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Conceitos e fatores que influenciam a formação dessa microbiota

Há uma vasta gama de evidências atuais de que o microbioma e seus produtos atuam em vários processos metabólicos, se não na maioria deles, responsáveis pela saúde, pela doença e pelo processo de evolução da espécie humana.1 

 

O pool de micróbios habitantes de nosso organismo é conhecido como microbiota, e seu genoma coletivo, como microbioma.1,2 Vários órgãos do corpo humano são povoados por microrganismos, e o cólon é aquele que apresenta a maior densidade de micróbios, mas outras partes, como boca, nariz, estômago e intestino delgado, bem como a pele, o trato geniturinário, o trato respiratório e todos os órgãos que têm contato com o exterior, também o são.1,3 Essa comunidade microbiana regula várias e importantes funções metabólicas e fisiológicas do hospedeiro, dirigindo a maturação do sistema imune nos primeiros anos e contribuindo com a homeostase durante toda a vida.2 Alterações da microbiota intestinal ocorrem algumas vezes por modificações da função, da diversidade e das interações com o hospedeiro e podem estar diretamente relacionadas a várias doenças. 

O reino animal e o bacteriano têm coevoluído e se coadaptam em resposta a pressões ambientais seletivas ao longo de milhões de anos.1 A revolução das meta’omics, tanto no sequenciamento quanto nos pipelines analíticos, vem promovendo uma explosão de interesse no conhecimento da forma como o microbioma intestinal impacta a fisiologia e a propensão a doenças. Embora a ciência se movimente na direção do microbioma, há também o viroma, o micoma, o metagenoma, o transcriptoma, o proteoma e o metaboloma.

 

A história do microbioma e da microbiota começou muito tempo atrás. No início do século XIX, Elie Metchnikoff ganhou o Prêmio Nobel após introduzir o conceito de que o leite fermentado aumenta a longevidade.5,6 Segundo seu estudo, os lactobacilos podem neutralizar os efeitos de putrefação do metabolismo gastrointestinal.6 

 

Anos depois, o Projeto Genoma revelou que temos 25.000 genes humanos e, apenas seis anos após, o Projeto Microbioma mostrou que somos compostos de microrganismos – temos muito mais genes de bactérias e de outros microrganismos do que genes humanos. Somos 10% humanos apenas!7,8 (Figura 1)

Nossa microbiota tem funções fundamentais, e não poderíamos sobreviver sem ela. Todo o desenvolvimento de nosso sistema imune depende dela, assim como outras funções vitais, como a síntese de algumas vitaminas e a produção de metabólitos ativos.3 A microbiota permanente é composta de Bifidobacterium, Lactobacillus, Bacteroides, Clostridium, Staphylococcus e enterobactérias. Aproximadamente 80% da microbiota fecal é identificada e classificada em quatro famílias dominantes: Bacteroidetes, Firmicutes, Actinobactérias e Proteobactérias. Bacteroidetes e Firmicutes representam mais de 90% dos tipos filogenéticos. (Figura 2) O sistema imune dos mamíferos, destinado ao controle dos micróbios, na realidade, parece controlado por eles.4,8,9 

Era comum, no passado, o pensamento de que nascíamos sem bactérias. No entanto, já temos o conhecimento da existência de bactérias no período intrauterino, no líquido amniótico, no cordão umbilical etc.12,13 

 

O grande momento da microbiota é a transferência da microbiota materna ao feto durante o nascimento. Nesse contexto, o tipo de parto é extremamente importante: a criança que nasce de parto normal adquire a microbiota da mãe (fecal, vaginal, de pele etc.), enquanto no parto por cesariana a microbiota é mais estéril. Há também grande influência da dieta e do ambiente.2,13 A amamentação é, do mesmo modo, fundamental à aquisição das bactérias da mãe.14 As crianças amamentadas com leite materno apresentam microbiota diferente das alimentadas com mamadeira (mais estéreis).14 A alimentação inicial da criança é fundamental, especialmente nos primeiros dois ou três anos de vida, quando se dá a formação da microbiota, que permanecerá durante toda a vida. Além disso, deve-se evitar o uso de antibióticos e de antiácidos no início da vida, uma vez que esses agentes interferem diretamente na formação da microbiota infantil.15 O uso de medicações supressoras do ácido gástrico e de antibióticos, nos primeiros 6 meses de vida, está associado a doenças alérgicas, provavelmente por uma alteração no microbioma.16

 

Assim, a microbiota se constitui, principalmente, nos primeiros 1.000 dias de vida. Até os 3 anos de idade, a microbiota de cada indivíduo está formada, com características próprias.2,15 (Figura 3)

Nos indivíduos saudáveis, há aumento de bactérias comensais (Lactobacillus e Bifidobacterium), enquanto nas doenças ocorre a redução dessas bactérias. Os indivíduos geneticamente predispostos a ter menos doenças têm menos Lactobacillus e Bifidobacterium, inclusive com mais bactérias patogênicas.4 (Figura 4)

Dentre os fatores de risco comuns de doenças modernas parecem estar as alterações patológicas da microbiota, e essas doenças são: alergias alimentares, autoimunidade, obesidade, doença metabólica, diabetes, doença cardiovascular, câncer etc. O aumento dessas condições é elevado e elas têm causado muitas mortes precoces.3,12,13

 

Em anos recentes, tanto a comunidade médica quanto os consumidores vêm desenvolvendo interesse crescente pelos benefícios potenciais dos prebióticos e dos probióticos, e o mesmo ocorre atualmente com os posbióticos. Esse fato é amplificado pelo surgimento cada vez maior de estudos científicos e de publicações.

 

O equilíbrio das bactérias é chamado de simbiose, enquanto o desequilíbrio delas se denomina disbiose.19,20 A disbiose pode ocorrer quando há aumento dos germes patogênicos e diminuição dos germes benéficos ou da diversidade bacteriana.11,20 Uma diversidade maior de bactérias promove mais benefícios ao hospedeiro. Os animais germ-free têm a função de T-reg e de IgE comprometida e a colonização com microbiota complexa precoce reduz os níveis de IgE e previne alergias.20 (Figuras 5 e 6)

Entre os fatores principais que influenciam nossa microbiota estão a idade (a diversidade diminui na terceira idade), a origem (costumes e alimentação diferentes formam microbiotas distintas), a dieta e o ambiente.20,21 A dieta e o ambiente são os fatores nos quais se pode interferir, aprimorando-se a microbiota e as condições de vida.21 É preciso atenção a esses fatores, mantendo-se sempre uma dieta saudável, a prática de exercícios e a melhora do meio ambiente, além de dormir melhor, evitar o estresse etc.21
As intervenções nesses aspectos podem melhorar o microbioma e talvez diminuir as doenças crônicas não transmissíveis do adulto. A nutrição correta durante essa janela de 1.000 dias, o parto normal e o leite materno podem ter enorme impacto sobre a capacidade da criança de crescer, aprender e sair da pobreza. Tais fatores também podem ter efeito profundo na saúde de longo prazo, na estabilidade e no desenvolvimento das comunidades e de nações inteiras.21 (Figura 7) 

Otimização do microbioma

Dieta: frutas e verduras, formas naturais dos probióticos
Exercícios: aumentam a diversidade
Sono: aumenta a composição
Estresse: a alteração do microbioma contribui com a ansiedade e depressão
Controle do peso
Prebióticos e probióticos

icon prebioticos

Os prebióticos são definidos como ingredientes alimentares não digeríveis que beneficiam pelo estímulo seletivo do crescimento e/ou da atividade de uma ou de poucas espécies de bactérias no intestino, melhorando a saúde.22 São as fibras e os açúcares não fermentáveis, que chegam ao cólon sem serem digeridos e, pelo metabolismo bacteriano, produzem ácidos graxos de cadeia curta, fundamentais nos processos metabólicos humanos.23

Às crianças maiores de 2 anos de idade é indicado o uso de 5 g de fibras/dia com aumento gradativo até 20 anos (25 g/dia para mulheres e 38 g/dia para homens).23 A Organização Mundial de Alergia sugere a utilização de suplementação de prebióticos no caso de todos os lactentes não amamentados exclusivamente.22 

Alimentos com prebióticos

• Os fruto-oligossacarídeos estão presentes em alimentos como cebola, alho, tomate, bana, cevada, aveia, trigo, mel e cerveja.
• A pectina está presente na entrecasca dos cítricos, do maracujá e na maçã.
• As ligninas estão presentes nas cascas das frutas oleaginosas e em leguminosas como linhaça e soja.
• O leite humano é o mais rico em prebióticos!
• HMOS (oligossacarídeos do leite humano)

icon probioticos 

Os probióticos são microrganismos vivos que, administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro.24 O probiótico ideal deve ter taxonomia definida, conter micróbios vivos, contar com estudos que comprovem seus efeitos benéficos aos seres humanos, não ser patogênico e ter dose adequada e viável durante os períodos de armazenagem e uso.25

Dentre as principais funções dos probióticos estão a produção de substâncias que inibam o crescimento de bactérias nocivas (ou mesmo matem essas bactérias), mantenham os patógenos fora de contato com a mucosa intestinal e estimulem o desenvolvimento do sistema imune.24 

São indicados nos casos de: 
• Diarreia aguda;
• Diarreia por antibióticos;
• Atopias;
• Enterocolite necrosante (NEC);
• Constipação;
• Depressão;
• Ansiedade;
• Cólicas do lactente;
• Doença inflamatória intestinal (DII);
H. pylori;
• Síndrome do intestino irritável (SII);
• Síndrome metabólica;
• Obesidade.

Há evidências científicas que indicam formalmente seu uso na diarreia aguda infecciosa, na prevenção de diarreia por antibióticos e na NEC.24,26,27 

A diarreia aguda infecciosa é a segunda causa mundial de morbimortalidade por doença infecciosa entre crianças menores de 5 anos de idade. Os probióticos parecem ter particular potencial terapêutico, especialmente em situações associadas a um agente viral.26 

 

Uma metanálise que comparou probióticos versus placebo ou não probióticos revelou redução da duração da diarreia (24,76 horas, cerca de 1 dia) em pacientes que utilizaram probióticos, bem como na frequência evacuatória após 2 dias de intervenção e na manutenção da diarreia no quarto dia.26 Como profilaxia, os probióticos podem ser utilizados na diarreia associada ao uso de antibióticos.28 

 

É importante salientar que em muitas situações, como no manejo da constipação e da síndrome do intestino irritável, a duração do tratamento ainda não está estabelecida e varia de acordo com o paciente.29 

 

O uso de prebióticos, probióticos ou simbióticos ainda é empírico em muitas situações, pois não se conhecem as doses, o tempo de tratamento, o tipo de bactéria de cada organismo etc.29 Não há comprovação científica de seu uso, a não ser nos casos de diarreia aguda e de prevenção de diarreia por antibióticos,19-29 bem como, possivelmente, na enterocolite necrosante.

icon simbioticos

Os simbióticos são a combinação sinergística de prebióticos e probióticos, o que promoveria as vantagens simultâneas de ambos. Essa interação poderia resultar em vantagens competitivas para o probiótico.

 

Entre as principais funções dos simbióticos estão proteção do lúmen intestinal, proteção estrutural e modulação da resposta inflamatória, que são, em última análise, as propriedades dos probióticos.25 A carência de estudos com simbióticos leva à reflexão de que ainda não é possível extrapolar esse conceito, ao assumir que qualquer associação de prebióticos e probióticos seria benéfica, e mais uma vez ressalta-se a importância de mais estudos com cada associação proposta para comprovar sua eficácia.30 

Dentre os fatores de risco comuns de doenças modernas parecem estar as alterações patológicas da microbiota, e essas doenças são: alergias alimentares, autoimunidade, obesidade, doença metabólica, diabetes, doença cardiovascular, câncer etc. O aumento dessas condições é elevado e elas têm causado muitas mortes precoces.3,12,13

O microbioma veio para modificar nossos conhecimentos, romper paradigmas e abrir mentes com o intuito de melhorar a qualidade de vida.21 

Nesse contexto, os prebióticos e os probióticos podem ser utilizados na manipulação da composição do microbioma, e formulações específicas podem ser uma parte importante da medicina no futuro.21

 

glossario

NEC: enterocolite necrosante; 
DII: doença inflamatória intestinal; 
SII: síndrome do intestino irritável.