Introdução

 

A dermatite atópica (DA) é uma doença cutânea crônica, recidivante e de ampla variedade de apresentações clínicas.1 Seu diagnóstico, à primeira vista, pode ser considerado fácil, entretanto não há um exame padrão-ouro para esse fim.1 O diagnóstico é feito por sinais e sintomas clínicos,1,2 dos quais os critérios de Hanifin e Rajka, descritos em 1980, ainda são amplamente utilizados,1-3 embora um número importante de outros critérios diagnósticos tenha sido proposto, tais como os critérios do Grupo de Trabalho do Reino Unido4 e da Academia Americana de Dermatologia.5,2 (Quadro 1)

 

Uma das críticas ao sistema de critérios diagnósticos é a de que a DA se apresenta de formas diferentes e atípicas, especialmente em algumas faixas etárias e etnias.2,6,7 De fato, embora a DA seja considerada uma doença única,8 estudos recentes sugerem que, com o tempo, poderemos distinguir vários endótipos e fenótipos.2,9,10

 

Diagnósticos diferenciais

 

Devido a todos esses fatores, a DA tem ampla gama de diagnósticos diferenciais, que se correlacionam com o espectro clínico da doença, de cada faixa etária.1,11-19 (Figuras 1-3)

 

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Os diagnósticos diferenciais apresentam várias etiologias: inflamatórias/autoimunes, infecciosas/infestações, doenças genéticas, imunodeficiências, malignidades, doenças metabólicas e reações medicamentosas.1,7,11-31 (Quadro 2)

Casos clínicos

 

Na prática clínica, os pacientes podem receber diagnóstico de DA mesmo que tenham outra doença e vice-versa. (Figuras 4 a 11)

 

 

 

 

 

 

Dermatite de contato (DC): muito semelhante à DA por suas lesões elementares, bem como pela histopatologia.6 Há dificuldade de diferenciação quando ambas ocorrem em áreas localizadas, como face e pescoço, pálpebras, axilas, mamilos, mãos e pés.1,15,32

 

 

 

 

Psoríase: embora acometa de preferência a face extensora de cotovelos, joelhos e membros, pode assemelhar-se à DA pelo prurido, bem como por sua forma invertida, eritrodérmica ou palmoplantar.13,15,19,33 A histopatologia nem sempre é conclusiva, muitas vezes com quadros superponíveis.18

 

 

 

 

Dermatomiosite: pode afetar adultos, bem como crianças de 5 a 15 anos de idade.13,15 A erupção cutânea pode simular DA, principalmente pela presença de prurido.13,34 A avaliação clínica e laboratorial auxilia sobremaneira no diagnóstico.13,25
 

 

 

 

 

Imunodeficiências: apresentam quadros similares aos da DA e são muitas vezes refratárias ao tratamento.25,27 Os dermatologistas devem estar atentos, posto que se tratam de doenças graves, de alta mortalidade, se não forem prontamente reconhecidas.26,27 Suspeitar sempre dos casos de pacientes com altos títulos de IgE (o que pode confundir-se com a própria DA) e infecções recorrentes, principalmente de pele e pulmões, além de déficit ponderoestatural.26-28,30

 

 

 

 

Dermatite do molusco contagioso (MC): o vírus do MC pode simular uma área de eczema, o que muitas vezes faz a associação entre as doenças parecer mais comum.35

 

 

 

 

Pustulose amicrobiana das dobras: doença de base exsudativa,22 tal qual a DA, porém pouco reconhecida pela maioria dos médicos por ter relatos recentes. Acomete o couro cabeludo, além de apresentar placas eritematosas, muitas vezes maceradas, nas dobras.22 Está associada a doenças autoimunes.22 A histopatologia pode simular um eczema, embora haja maior presença de neutrófilos no infiltrado inflamatório.22

 

 

 

 

Tinha do corpo e impetigo: tinha do corpo pode simular a DA, especialmente na forma numular.13,15,20 Além disso, lesões de DA podem simular impetigo ao sofrer colonização bacteriana ou mesmo evoluir com impetiginização.1,6,13,15

 

 

 

 

Dermatite perioral: o acometimento da região perioral suscita vários diagnósticos diferenciais, tais como dermatite perioral induzida por corticoides, dermatite perioral granulomatosa da infância, rosácea, DCI e DA.37-39 No caso de DA, a queilite atópica pode ter um fator agravante, como o “eczema lip-licker”, ou seja, devido ao lábio ressecado, o paciente tenta “hidratá-lo” passando a saliva em redor da boca,6 o que causa DCI secundária.40

 

 

Conclusão

 

Esses casos, especialmente os recalcitrantes à terapia convencional, relatam a importância dos diagnósticos diferenciais de DA e da manutenção de investigação contínua de outras doenças que simulam DA e vice-versa.

 

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SABR.DUP.20.02.0201a

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