Introdução: O coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2), agente etiológico da COVID-19, é transmitido de pessoa para pessoa através do contato próximo. Já infectou mais de 5,85 milhões de indivíduos e causou mais de 359.000 mortes, com quarentenas de emergência iniciadas em países de todo o mundo para evitar sua propagação, influenciando na saúde, bem-estar, economia e outros aspectos da vida cotidiana. Sem tratamentos eficazes ou vacinas disponíveis para o futuro iminente, a prioridade é reduzir a taxa de infecção (ou seja, aplanar a curva que representa esta taxa). No momento, a prevenção da infecção é a melhor abordagem para atingir esse objetivo.

 

Objetivo: O objetivo deste estudo foi investigar os efeitos do distanciamento físico, máscaras faciais e proteção ocular na transmissão de vírus em ambientes comunitários e de assistência médica.

 

Metodologia: Revisão sistemática e metanálise para investigar a distância ideal, a eficácia do uso de máscaras faciais e proteção ocular para impedir a transmissão de vírus. Os dados para SARS-CoV-2 e os beta-coronavírus que causam a síndrome respiratória aguda grave e a síndrome respiratória do Oriente Médio foram obtidos de 21 fontes da OMS e específicas da COVID-19. Foram feitas metanálises freqüentistas e bayesianas e meta-regressão de efeitos aleatórios. Foi avaliada a certeza das evidências de acordo com os métodos Cochrane e a abordagem GRADE.

 

Resultados: A pesquisa identificou 172 estudos observacionais em 16 países e 6 continentes; 44 estudos comparativos relevantes em instituições de saúde e não-de saúde (n = 25; 697 pacientes), sem ensaios clínicos randomizados. 

 

Distanciamento físico
A transmissão de vírus foi menor com distanciamento físico de 1 metro ou mais, em comparação com uma distância menor que 1 metro (n = 10.736, odds ratio ajustada combinada [ORa]: 0,18, IC95%: 0,09 a 0,38; certeza moderada). O risco absoluto de infecção para distância menor foi de 12,8% versus 2,6% com distância adicional, ou seja, diferença de risco de –10,2% (IC95%: –11,5 a –7,5; segurança moderada) (Figura 1). A proteção aumentou à medida que a distância foi crescendo (redução no risco relativo [RR]: 2,02 por metro; p-interação = 0,441; certeza moderada). 

-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/06/distanciamento-fisico-mascaras-faciais-e-protecao-ocular-para-impedir-a-transmissao-da-covid-19/Fig1-Mat3-Sem1_distanciamento_fisico.ashx?w=1836&hash=8CF02898B29D745A73C6D72C8188D2D6

Figura 1. Redução no risco absoluto de infecção por SARS-CoV-2, SARS-CoV ou MERS-CoV com o aumento da distância. Risco inicial (na linha de base) variável (alto risco, risco intermediário, baixo risco) e distância crescente. SARS-CoV-2: coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2. SARS-CoV: coronavírus da síndrome respiratória aguda grave. MERS-CoV: coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio.

 

Uso de máscara
O uso da máscara facial pode resultar em uma grande redução no risco de infecção (n = 2.647; ORa: 0,15, IC95%: 0,07 a 0,34; certeza baixa), com associações mais fortes com máscaras N95 ou similares em comparação com máscaras cirúrgicas descartáveis ou similares (por exemplo, máscaras de algodão reutilizáveis de 12 a 16 camadas; p-interação = 0,090; certeza baixa). 
Pessoas expostas a indivíduos infectados tiveram uma grande redução de risco absoluto de infecção com o uso de máscara facial (N95 ou similar, máscara cirúrgica, máscara reutilizável de algodão de 12 a 16 camadas), apresentando risco de 3,1% versus 17,4% sem máscara facial (diferença no risco de –14,3%, IC95% –15,9 a –10,7; baixa certeza) (Figura 2). Essa associação foi mais fortes nos serviços de saúde (RR: 0,30, IC95%: 0,22 a 0,41) em comparação com os serviços não relacionados à saúde (RR: 0,56, IC95%: 0,40 a 0,79; p-interação = 0,049; certeza baixa a moderada).

 

Proteção ocular
A proteção ocular também esteve associada a menos infecção (n = 3.713; ORa: 0,22, IC95%: 0,12 a 0,39; certeza baixa). Em termos de risco absoluto, o uso de proteção ocular (proteção facial com faceshield, óculos de proteção) apresentou risco de infecção de 5,5%, enquanto no grupo com ausência de proteção ocular foi observado risco de 16,0%, ou seja, uma diferença de –10,6% (IC95%: –12,5 a –7,7; certeza baixa) (Figura 2).

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Figura 2. Risco absoluto de infecção por SARS-CoV-2, SARS-CoV ou MERS-CoV com ou sem uso de medidas de prevenção (distanciamento físico, máscara facial ou proteção ocular).

 

Estudos não ajustados, análises de subgrupos e de sensibilidade mostraram achados semelhantes.

 

Interpretação: Os resultados desta revisão sistemática e metanálise apoiam o distanciamento físico de 1 metro ou mais. Além disso, fornecem estimativas quantitativas para modelos e rastreamento de contatos para auxiliar políticas públicas. Idealmente, o uso de máscaras faciais, outras proteções respiratórias e proteção ocular em ambientes públicos e de assistência à saúde devem ter seu uso considerado, segundo estes achados. Essa avaliação sistemática é a melhor evidência disponível no momento pode fornecer orientações. Entretanto, são necessários ensaios clínicos randomizados robustos.

O distanciamento físico de 1 metro ou mais, o uso de máscaras faciais e de protetores oculares mostraram reduzir o risco de infecção em ambientes comunitários e em serviços de saúde.

 

SABR.SA.20.06.0775

REFERÊNCIAS

  1. Chu DK, Akl EA, Duda S et al.

    Physical distancing, face masks, and eye protection to prevent person-to-person transmission of SARS-CoV-2 and COVID-19: a systematic review and meta-analysis.

    Lancet. 2020 Jun 1; S0140-6736 (20) 31142-9. doi: 10.1016/S0140-6736(20)31142-9. Online ahead of print.