Introdução: Mais de 40.000 pacientes com COVID-19 foram hospitalizados na cidade de Nova York (NY, EUA) até 28 de abril de 2020. Estima-se que de 5 a 20% destes pacientes desenvolvam a síndrome do desconforto respiratório agudo. Embora os aspectos clínicos já tenham sido caracterizados através de dados da China e da Itália, mais informações são necessárias para compreensão detalhada dos casos mais críticos.

 

Objetivo: Este estudo teve como objetivo a caracterização epidemiológica da COVID-19, com relação ao curso clínico e fatores de risco para mortalidade hospitalar em uma coorte de adultos que desenvolveram quadro mais grave da doença, admitidos em dois hospitais de Nova York durante o primeiro mês do surto na cidade.

 

Metodologia: Este foi um estudo de coorte prospectivo observacional realizado em dois hospitais de Nova York afiliados ao Columbia University Irving Medical Center. Pacientes adultos (idade ≥18 anos) foram prospectivamente identificados em ambos os hospitais entre 2 de março a 1 de abril de 2020. Todos tiveram o diagnóstico de COVID-19 confirmado por RT-PCR de amostras de swab nasofaríngeo ou orofaríngeo e estavam gravemente doentes com insuficiência respiratória hipoxêmica aguda. Pacientes com insuficiência respiratória hipoxêmica aguda foram definidos como aqueles que receberam ventilação mecânica (invasiva ou não invasiva) ou oxigenioterapia suplementar (via cânula nasal de alto fluxo ou máscara facial a uma taxa de fluxo de 15 L por min ou mais). Foram coletados biomarcadores clínicos e dados sobre o tratamento. O desfecho primário deste estudo foi a taxa de mortalidade hospitalar. Os desfechos secundários incluíram a frequência e duração da ventilação mecânica invasiva (VMI), uso de vasopressores, diálise e tempo para deterioração clínica hospitalar após a internação. O tempo de acompanhamento foi de pelo menos 28 dias de observação.

 

Resultados: No período do estudo, 1.150 adultos com diagnóstico confirmado em laboratório foram admitidos em ambos os hospitais. Destes pacientes, 257 (22%) estavam gravemente doentes. O início dos  sintomas tinha ocorrido há 5 dias (2-7).

 

A figura abaixo traz o resumo da evolução clínica observada nestes pacientes.

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Figura 1. Evolução clínica observada nos 1.150 pacientes com diagnóstico de COVID-19 com admissão hospitalar.

 

Durante a internação, a frequência daqueles que receberam inicialmente suporte respiratório não invasivo foi:

  • 45% (115) via máscara facial sem oxigênio para reinalação,
  • 5% (12) via fluxo alto cânula nasal, e
  • 1% (3) por ventilação não invasiva.
A frequência de ventilação mecânica invasiva (VMI) foi de:
  • 79% (203 pacientes) por uma mediana de tempo de 18 dias, sendo que a duração média entre os que foram extubados vivos (52 pacientes, 26%) foi de 14 dias e entre os não sobreviventes de 10 dias. A mediana de tempo de VMI foi de 27 dias entre todos os sobreviventes.
Achados em exames laboratoriais:
  • Nível mediano de creatinina sérica foi de 1,5.
  • Proteinúria presente em 189 (87%) de 218 pacientes que realizaram um exame de urina.
  • Outros achados comuns: linfocitopenia e concentrações levemente elevadas de AST (aspartato aminotransferase ou transaminase oxalacética - TGO).
  • As concentrações de IL-6, proteína C reativa de alta sensibilidade, ferritina, dímero D, troponina de alta sensibilidade e procalcitonina estavam elevadas na maioria dos pacientes.

 

Durante o estudo, os desfechos observados nesta população de 257 pacientes graves foi:
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Figura 2. A maioria das mortes ocorreu em pacientes que tinham pelo menos 50 anos de idade.
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Figura 3. Distribuição dos pacientes graves por faixa etária.
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Figura 4. Curva de incidência cumulativa de Kaplan-Meier para óbitos intra-hospitalares em pacientes graves com COVID-19. Durante o estudo foram observados 101 de óbitos, equivalente a 39% dos pacientes graves.

 

Frequência de terapias administradas:
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Figura 5. Frequência de terapias administradas

Fatores de risco para mortalidade hospitalar (fatores independentemente associados à mortalidade hospitalar segundo modelo multivariável de Cox):

  • Idade avançada (aumento do risco a intervalos de 10 anos);
  • Doença cardíaca crônica;
  • Doença pulmonar crônica;
  • Maiores concentrações de IL-6;
  • Maiores concentrações de dímero D.
Conclusão: O quadro mais grave da doença  entre pacientes hospitalizados com COVID-19 na cidade de Nova York está associado com a alta frequência de ventilação mecânica invasiva, disfunção extrapulmonar de órgãos e substancial mortalidade hospitalar. As novas descobertas deste estudo incluem o estabelecimento de associações independentes entre biomarcadores para inflamação (IL-6) e trombose (dímero D) com a mortalidade hospitalar.

Este estudo mostrou associação independente entre os biomarcadores para inflamação (IL-6) e trombose (dímero D) com a mortalidade hospitalar.

REFERÊNCIAS

  1. Cummings MJ, Baldwin MR, Abrams D et al.

    Epidemiology, clinical course, and outcomes of critically ill adults with COVID-19 in New York City: a prospective cohort study.

    The Lancet. 2020 Jun 6; 395(10239):1763-1770. doi: 10.1016/S0140-6736(20)31189-2 2020.