O tromboembolismo venoso (TEV) compreende a trombose venosa profunda (TVP) e sua con­se­quência com maior risco, a embolia pulmonar (EP).1,2 Desde o início de sua ocorrência, associa-se com alta probabilidade de complicações graves, até mesmo fatais.1,3 

 

Trata-se de uma doença caracterizada pela formação de trombos, de forma oclusiva total ou parcial, em veias do sistema venoso profundo. Está frequentemente associada a inúmeros fatores de riscos, como aparecimento súbito em pacientes hígidos ou como complicação clínica e/ou cirúrgica.1,3 Como fatores etiopatogênicos incluem-se os clássicos da tríade de Virchow, já descritos em 1857, que abrangem estase venosa, alteração de fatores de coagulação, no sentido de hipercoagulação, e lesão do endotélio venoso.1,2,4 Em sua fase crônica, pode ser responsável por inúmeros casos de incapacitação física e por enormes custos socioeconômicos e pessoais, com o desenvolvimento de insuficiên­cia venosa crônica grave, o que configura a denominada síndrome pós-trombótica.1

 

O TEV é considerado uma condição potencialmente grave e está associado a 5%-10% das mortes de pacientes hospitalizados.5,6 Sem profilaxia adequada, a incidência de TEV durante a internação hospitalar chega a níveis tão altos quanto 10%-40%, entre pacientes clínicos e cirúrgicos, e 40%-60%, após grandes cirurgias ortopédicas.6 A prevenção primária, com a participação de toda a equipe multiprofissional, é importante quando se consideram morbidade e custos hospitalares.1,3,6,7 Estabelecer papéis e responsabilidades específicas para cada membro do grupo de cuidadores é importante para a obtenção de melhores resultados. 

 

A profilaxia do TEV é estratégia bem estabelecida e eficaz há algumas décadas, a partir de estudos de grupos e sociedades norte-americanos e europeus.8 

 

Ao longo dos anos, foram definidas recomendações específicas e detalhadas a ser empregadas em todas as classes de pacientes hospitalizados, clínicos e cirúrgicos. Apesar de os protocolos de prevenção da TVP estarem à disposição de todos os profissionais da área da saúde, muitos não os utilizam rotineiramente. Isso se deve em parte à dificuldade de composição de um grupo multidisciplinar com o formato de time, focado em tarefas simples, mas eficazes na prevenção. 

 

Cada membro deve estabelecer as metas e as ações apropriadas à sua categoria profissional. Mas é importante que as atividades sejam sinérgicas e possam ser iniciadas por todos. 

 

O interesse profissional e institucional pela profilaxia do TEV se desenvolveu e vem sendo incorporado à prática clínica desde o primeiro consenso sobre terapia antitrombótica para prevenção e tratamento de trombose.9 Hoje, figura em importantes diretrizes e protocolos que contribuí­ram para a sedimentação do conceito de prevenção e para sua incorporação na prática clínico-cirúrgica.10 

 

A associação de vários profissionais exerce um papel estratégico no plano terapêutico, devido ao cuidado dispensado ao indivíduo de forma integral e holística, o que permite direcionar a promoção, a prevenção e a recuperação da saúde e otimizar soluções para as possíveis complicações da enfermidade.7

Apesar das publicações e da adesão cada vez maior da equipe de assistência clínico-cirúrgica, ainda existem resistências à aplicação apropriada da profilaxia.1,3,7 O maior desafio à adesão é incluir a avaliação do risco na prática diária. Essa ação deve ter a participação de todos os profissionais que lidam com os pacientes à beira do leito. O processo de profilaxia do TEV se expande além das fronteiras intra-hospitalares. No preparo pré-operatório do paciente cirúrgico, as ações preventivas podem mudar o prognóstico do período pós-alta. 

 

A associação de vários profissionais exerce um papel estratégico no plano terapêutico, devido ao cuidado dispensado ao indivíduo de forma integral e holística, o que permite direcionar a promoção, a prevenção e a recuperação da saúde e otimizar soluções para as possíveis complicações da enfermidade.7

 

O processo de cuidar multiprofissional deve se concentrar em tarefas distribuídas em vários passos, como realizar a avaliação e a estratificação do risco de TEV desde o período pré-hospitalar e para pacientes hospitalizados.11 

 

O foco é obter o histórico detalhado da saúde do paciente e avaliar a presença da tríade de Virchow: estase venosa, hipercoagulabilidade e traumatismo resultante de dano intimal.11 

 

Faz parte do processo indicar e implementar o uso de meias compressivas, conforme estratificação prévia do risco de TEV para pacientes de alto risco e contraindicação ao uso de heparina, além de avaliar diariamente a coloração da pele e a perfusão periférica dos membros sob tratamento compressivo.2,11,12 

 

O estímulo contínuo para o posicionamento apropriado do paciente, em decúbito dorsal com elevação dos membros inferiores a 30 graus, durante os períodos intraoperatório e pós-operatório, não deve ser neglicenciado.13 

 

Além disso, é importante ensinar e supervisionar o paciente na realização de exercícios até a total deambulação do paciente pós-cirúrgico.14

 

A meta de atendimento também se concentra na oferta de educação para esclarecimento da importância da adesão do paciente ao uso de métodos mecânicos de prevenção, na instrução da aplicação medicamentosa e na continuidade da profilaxia farmacológica por períodos definidos pelos protocolos reconhecidos.15

 

O tema tornou-se recorrente nos últimos anos não só pelo conhecimento científico, mas também devido ao envolvimento institucional e ao apoio da indústria na elaboração de programas de prevenção. 

 

Certamente isso tem contribuído para a administração mais frequente da profilaxia, com a meta de atingirmos a avaliação de risco, o paciente específico e a dose adequada pelo tempo necessário.

A prevenção primária, com a participação de toda a equipe multiprofissional, é importante quando se consideram morbidade e custos hospitalares.1,3,6,7 Estabelecer papéis e responsabilidades específicas para cada membro do grupo de cuidadores é importante para a obtenção de melhores resultados.

 

Muitos hospitais, em todas as regiões federativas, passaram a instituir protocolos de prevenção de fenômenos tromboembólicos com envolvimento multiprofissional. Essa nova perspectiva organizacional tem elevado significativamente a adesão dos profissionais de saúde como um todo e trazido proposta de bons resultados. 

 

Mas estudos mostram ainda dificuldades e discrepâncias de resultados mesmo em pacientes internados em unidades de terapia intensiva e instituições públicas e privadas.2,16

 

Cada membro cuidador deve reconhecer que ações comuns tornarão o processo mais coeso e com maior adesão. A atua­ção mútua da equipe multiprofissional e a comu­nicação entre todos os envolvidos nesse processo são fundamentais para atingir as metas propostas pelo grupo.

 

SABR.ENO.20.04.0459 

 

REFERÊNCIAS

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  2. Ribeiro MA, Netto PG, Lage SG.

    Desafios na profilaxia do tromboembolismo venoso: abordagem do paciente crítico.

    Rev Bras Ter Intensiva. 2006:18(3):316-9.

  3. Engelhorn ALV, Garcia CFG, Cassou MF, Birckholz L, Engelhorn CA.

    Profilaxia da trombose venosa profunda - estudo epidemiológico em um hospital escola.

    J Vasc Bras. 2002;1:97-102.

  4. Rosendaal FR.

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    Rev Col Bras Cir. 2010;37(3):204-10.

  7. Pedroso CRMT, Andrade EGS.

    A relevância do enfermeiro assistencial na prevenção primária de TEV no plano terapêutico.

    Rev Inic Cient Ext. 2018;1(Esp):136-42.

  8. Samama CM, Afshari A; ESA VTE Guidelines Task Force.

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    Eur J Anaesthesiol. 2018:35(2):73-6.

  9. Dalen JE, Hirsch J.

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  10. Kearon C, Akl EA, Comerota AJ, Prandoni P, Bounameaux H, Goldhaber SZ, et al.

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    Chest. 2012;141(2 suppl):e419S-e494S.

  11. Race TK, Collier PE.

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    J Vasc Nurs. 2013;31(2):64-7.

  14. Palamone J, Brunovsky S, Groth M, Morris L, Kwasny M.

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    J Neurosci Nurs. 2011;43(6):308-14.

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