INTRODUÇÃO 

 

A osteoartrite (OA) é uma doença crônica da articulação caracterizada por perda de cartilagem, redução do espaço articular e neoformação óssea.1 A doença habitualmente se manifesta por dor mecânica e rigidez articular de curta duração, diminuição da amplitude de movimento e redução da qualidade de vida.2,3 Comumente observada em joelho, quadril, coluna vertebral e mão, a OA é um grave problema de saúde pública.4,5

 

Estudos epidemiológicos demonstram que a OA afeta cerca de 12% da população.6 A prevalência de OA tem aumentado devido ao progressivo envelhecimento da população e às taxas crescentes de obesidade e sobrepeso.7 A OA (quadril e joelho) foi recentemente reconhecida como a 11ª maior causa global de incapacidade, com enorme impacto socioeconômico.2,6

 

O processo patológico da OA abrange a perda focal e progressiva da cartilagem hialina da articulação, com alterações concomitantes do osso subcondral, incluindo-se a neoformação óssea, com o aparecimento de osteófitos, além da esclerose óssea e de alterações da sinóvia e da cápsula articular.8 A sinovite de baixo grau na OA, com o incremento da expressão de citocinas pró-inflamatórias e de metaloproteinases, pode associar-se à piora da dor subjacente e ao aparecimento de características inflamatórias, como o aumento da duração da rigidez articular e o surgimento de dor ao repouso ou noturna.9,10

 

O tratamento atual da OA consiste de exercícios físicos combinados com o uso de analgésicos e/ou de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), de injeções intra-articulares de corticosteroides ou de ácido hialurônico, além de tramadol e outros analgésicos opioides para aliviar a dor de maior intensidade.11,12 Esses medicamentos são apenas sintomáticos, aliviam os sintomas no curto prazo, têm efeitos adversos (gastrointestinais, renais e cardiovasculares) e, com limitado efeito na fisiopatologia da OA, não modificam o curso nem a progressão da doença.3 Nas últimas décadas, os medicamentos modificadores do curso da OA (MMCOAs) têm recebido crescente interesse.3 O uso desses agentes tem por objetivo prevenir ou diminuir a deterioração da cartilagem articular e aliviar a dor e a incapacidade associada à OA, com a eventual redução do consumo de analgésicos e de AINEs.13 Os suplementos de derivados de colágeno são candidatos à condição de MMCOAs e apresentam evidências em investigação no momento.3,6 

 

Os dois principais grupos de derivados de colágeno atualmente em uso clínico, com base nos vários graus de hidrólise do colágeno, são: colágeno não hidrolisado (CNH) e colágeno hidrolisado (CH), com peso molecular de 300 kDa e de 2 a 9 kDa respectivamente.3 O CH é absorvido no intestino e atinge o pico de concentração no plasma 6 horas após a ingestão.3,14 Por outro lado, o CNH parece exercer efeito local na mucosa intestinal, uma vez que não é absorvido.

 

O mecanismo de ação dos derivados de colágeno é bastante diferenciado entre o CH e o CNH, e essas formulações não devem ser consideradas equivalentes.3 O CNH, em particular o colágeno tipo II, foi estudado principalmente em pacientes com artrite reumatoide (AR).3,15 A hipótese é de que o CNH atue pelo mecanismo de tolerância oral, induzindo a redução das reações autoimunes contra o colágeno da cartilagem articular, embora isso ainda não esteja provado de forma conclusiva em estudos com seres humanos.3,15 Supõe-se que o efeito ocorra por meio da indução e da migração de células reguladoras T (Tregs) para a área de inflamação e dano.16,17 Como a OA não é uma doença autoimune, o efeito potencial dessa formulação precisaria ser explicado por um mecanismo de ação diferente, mas isso ainda não foi investigado.3 

 

Três mecanismos de ação são propostos em relação ao CH.3 Primeiramente, os estudos disponíveis sugerem que os peptídeos derivados do colágeno hidrolisado podem ser usados como blocos de construção da cartilagem, favorecendo um mecanismo anabólico para a matriz extracelular.3,14,18 É possível que os efeitos do CH sejam causados pelo conteúdo especial de aminoácidos da formulação (uma quantidade relativamente grande de prolina e glicina) ou pela ação direta dos peptídeos que atravessam a mucosa intestinal.3,14 Além disso, as alterações ósseas desempenham seu papel na patogênese da OA.3,19 Estudos sugerem que o CH também influencia o metabolismo ósseo.3,20 Como reduz a pressão arterial, um possível mecanismo de ação do CH se dá por meio do sistema vascular.3,21

 

Os derivados de colágeno são comercializados e recomendados no manejo da osteoartrite com base em vários ensaios clínicos randomizados.3 Como visto anteriormente, os suplementos de derivados de colágeno diferem de forma muito significativa quanto aos mecanismos de ação. Além disso, há ainda particularidades e diferenças quanto ao perfil de eficácia clínica e de segurança no tratamento dos pacientes com OA.3

EFICÁCIA CLÍNICA NO MANEJO DA DOR 

 

Na comparação com placebo, os dados combinados de diferentes estudos que avaliaram 419 pacientes com OA mostraram que o uso de CH nos pacientes com OA produz redução significativa da dor, mensurada pelo índice WOMAC.22-24 

 

Quando o CH foi comparado ao sulfato de glicosamina durante 90 dias de tratamento, demonstrou-se também seu maior efeito, com redução mais significativa da dor, mensurada pela Escala Visual Analógica (EVA).5 Nesse estudo, a probabilidade de redução da dor em valores iguais ou superiores a 20 mm foi de cerca de 1,84 (IC de 95%: 1,20-2,82) vez maior com CH em comparação ao sulfato de glicosamina.3 

 

Por outro lado, quando o CNH foi comparado à combinação de glicosamina mais condroitina num estudo de avaliação longitudinal de 90 dias, não houve diferença significativa em relação ao quesito dor, medida por EVA, entre os dois grupos.25 Os estudos sugerem maior efeito analgésico nos pacientes com OA grave em comparação aos casos iniciais ou mais leves.3

 

EFICÁCIA CLÍNICA NA INCAPACIDADE 

 

Da mesma forma que os resultados relativos à melhora da dor, os estudos que compararam CH e placebo confirmaram a eficácia dessa formulação na redução da incapacidade associada à OA.3 Três estudos independentes avaliaram um total de 419 participantes durante um período de acompanhamento de seis meses e apontam redução importante da incapacidade (26% em média) entre os pacientes com OA tratados com CH em comparação com placebo.3,22-24  


Pelo contrário, quando o CNH foi comparado à combinação de glicosamina e condroitina, os autores não relataram diferenças significativas e clinicamente relevantes entre os grupos em relação aos escores de dor e de incapacidade 90 dias após o início do tratamento, embora alguns itens do WOMAC mostrassem diferença significativa.25
 

A OA (quadril e joelho) foi recentemente reconhecida como a 11ª maior causa global de incapacidade, com enorme impacto socioeconômico.2,6

EFICÁCIA CLÍNICA: DESFECHOS SECUNDÁRIOS E CONDROPROTEÇÃO

 

Os efeitos dos derivados de colágeno quanto a rigidez articular, qualidade de vida e uso dos recursos de saúde não diferiram significativamente na comparação de CH, CNH e controles.23 Por outro lado, quanto ao efeito condroprotetor, há clara evidência em favor do CH no manejo dos pacientes com OA.23 Um estudo muito elegante em pacientes com OA de joelho demonstrou que o uso de CH produz alteração funcional significativa nos escores Delayed gadolinium enhanced MRI of cartilage (dGEMRIC) com ressonância magnética de joelhos, particularmente nos compartimentos da tíbia medial e lateral, quando medidos após 24 semanas de tratamento.23 Esses achados sugerem in vivo que o uso de CH pode incrementar a síntese de proteoglicanos na cartilagem com OA e, dessa forma, promover a condroproteção.23 

 

“Quando o CH foi comparado ao sulfato de glicosamina durante 90 dias de tratamento, demonstrou-se também seu maior efeito, com redução mais significativa da dor, mensurada pela Escala Visual Analógica (EVA).5

 

SEGURANÇA E EVENTOS ADVERSOS 

 

A frequência de eventos adversos entre os pacientes tratados com derivados de colágeno varia de 13% a 87% em comparação com 9% a 87% nos grupos de controle (placebo).3 A maioria dos eventos adversos provável e possivelmente relacionados ao CH e ao CNH se compõe de queixas gastrointestinais leves ou moderadas, como náusea, dispepsia, diarreia e flatulência.3 Os estudos não observaram diferença significativa entre os grupos, de modo que a segurança das formulações pode ser considerada muito similar.3 

 

EFICÁCIA CLÍNICA NO MANEJO DA DOR

 

Corroborando os achados aqui apresentados, os resultados de uma metanálise recente acerca do uso de suplementos na OA demonstrou efeito moderado do CH na redução da dor em curto prazo. O efeito do CH na redução da dor da OA em curto prazo foi considerado grande e clinicamente importante. Usando dados de estudos publicados, a metanálise também observou menor efeito sobre a dor em curto prazo com o CNH, com significado clínico não claro.6 

 

Os dados de segurança confirmaram que o uso de CH e de CNH foi bem tolerado e não se associou a eventos adversos significativos.6 Não foi encontrada diferença estatisticamente significativa de número e gravidade dos eventos adversos entre os suplementos de CH ou de CNH e placebo.6 Da mesma forma, os dados avaliados não revelaram diferença do número de participantes retira dos dos estudos devido a eventos adversos.6

 

CONCLUSÃO

 

O conjunto de evidências demonstra que o uso de CH em pacientes com OA produz redução significativa e clinicamente relevante da dor, além de melhora da incapacidade funcional. Associado a perfil de segura e de tolerabilidade muito favorável, o CH é uma alternativa terapêutica que reduz o consumo de analgésicos e AINEs e pode ter efeito condroprotetor por produzir alteração estrutural com incremento da síntese de proteoglicanos.18,23,26

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SABR.GOFLC.19.12.2221

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