1. PERFIL CLÍNICO

 

As mucopolissacaridoses (MPSs) são um grupo de doenças genéticas metabólicas, causadas por alterações nas enzimas lisossômicas necessárias à degradação dos glicosaminoglicanos (GAGs). Essas alterações resultam no acúmulo de GAGs nos lisossomos das células de vários órgãos, levando a lesões multissistêmicas e progressivas.1

 

Os sinais e sintomas observados na mucopolissacaridose tipo I (MPS I) são muito variados (Tabela 1) e dependem de fatores como a forma de MPS I (grave ou atenuada) e, por ser uma doença progressiva, da idade do paciente no momento da avaliação, aspectos estes que podem dificultar seu diagnóstico.2

 

Tabela 1. Sinais e sintomas chaves que incitam a suspeita clínica de MPS I, com comentários de especialistas e informações da literatura.3,4 

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(Adaptado de: Tylki-Szymańska A et al. Acta Paediatr 2018;3 e Galimberti et al. Italian Journal of Pediatrics 2018, 44(2):1334.)

 

Os sinais e sintomas mais comuns da MPS I são cifose ou deformidade gibbus (Figura 1), atrasos no desenvolvimento, hérnias, características faciais dismórficas, opacificação da córnea, anomalias nas válvulas cardíacas, hepatomegalia e sintomas relacionados ao trato respiratório.3 Em pacientes com a forma grave (síndrome de Hurler), o início destes sintomas aparece nos primeiros meses de vida e a progressão da doença é mais rápida que nas formas atenuadas (síndromes de Hurler-Scheie e Scheie ).2

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Figura 1. (A) Gibbus em um paciente de 9 meses de idade com diagnóstico de MPS tipo I Hurler (grave). (B) Radiografia da coluna vertebral em um paciente de 3 anos de idade. (C) Imagem de ressonância magnética ponderada em T2 da coluna vertebral mostrando cifose significativa e estenose do canal vertebral. (Fonte: Galimberti C et al. Italian Journal of Pediatrics 2018,44(2):133.4)

 

Por sua vez, pacientes com as síndromes atenuadas começam a apresentar sinais aos 1,5 anos (Hurler-Scheie) e 5,3 anos (Scheie), e esperam mais tempo até receber o diagnóstico da doença.5 Nesses casos, sintomas que parecem inócuos se tornam relevantes à medida que a doença progride, como hérnias, anormalidades nas válvulas cardíacas, infecções recorrentes no trato respiratório superior, otites, contraturas ou rigidez articular (Figura 2), características faciais dismórficas, opacificação da córnea e síndrome do túnel do carpo. Outros sintomas frequentes, mas que dependem de exames físicos complementares e olhar meticuloso do histórico médico para serem detectados, incluem hepatomegalia, perda auditiva e mudanças na morfologia de fios de cabelo.

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Figura 2. (A) Rigidez articular ou contraturas nos ombros em um paciente com síndrome de Scheie. (B) Rigidez articular ou contraturas nas mãos em um paciente com síndrome de Scheie. (Fonte: Tylki-Szymańska A et al. Acta Paediatr. 2018;107(8):1402-1408.3)

 

Em geral, esses sinais e sintomas multissistêmicos e progressivos logo levantam a suspeita de uma doença genética, e o primeiro médico visitado pelo paciente, normalmente um pediatra ou médico da família (dependendo do sistema de saúde), tem importante papel em levantar a suspeita de MPS. O diagnóstico e, consequentemente, o tratamento precoce podem atrasar o progresso da doença, melhorando a qualidade de vida do paciente.3   

 

2. ALGORITMO PARA SUSPEITA DE MPS I

 

Para gerar a suspeita clínica precoce de MPS I, um algoritmo (Figura 3) foi criado por 11 especialistas, entre eles, pediatras, especialistas em doenças raras e doenças metabólicas hereditárias. Como se pode observar no começo do algoritmo, a contratura articular sem inflamação e cifose (deformidade gibbus) são manifestações específicas e, por si só, suficientes para levantar a suspeita de MPS I e encaminhamento para um centro especializado para investigação. Por sua vez, a classificação por idade e a presença/ausência de atraso cognitivo ajuda a diferenciar entre as formas graves e atenuadas de MPS I.  Caso o paciente não apresente estas características, a combinação de dois ou mais sinais e sintomas menos específicos também deve despertar a suspeita de MPS I e, assim, deve ser feito o diagnóstico precoce da doença. Um ponto importante a ser salientado é que ainda que o paciente tenha realizado o exame urinário de glicosaminoglicanos e o resultado tenha sido negativo, com a presença de outros sintomas convincentes de MPS I, o encaminhamento para um especialista ainda deve ser realizado.3

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Figura 3. Algoritmo para estimular suspeita clínica precoce de mucopolissacaridose tipo I (MPS I) e encaminhamento oportuno dos pacientes. (Adaptado de Tylki-Szymańska A et al. Acta Paediatr, 2018.3)

A apresentação deste algoritmo tem como objetivo apoiar os médicos a identificar o conjunto de sinais e sintomas da MPS I, o que pode levar a uma colaboração com um especialista em metabolismo ou geneticista na investigação, evitando-se atrasos no diagnóstico. A confirmação precoce da doença é muito importante, uma vez que permite a escolha do tratamento apropriado, prevenindo danos irreversíveis a órgãos, reduzindo complicações, evitando cirurgias e tratamentos desnecessários e, possivelmente, melhorando a qualidade de vida do paciente.3

 

GZBR.ALDU.20.05.0167 - Junho 2020.


REFERÊNCIAS

  1. Colón C, Alvarez JV, Castaño C, et al.

    A selective screening program for the early detection of mucopolysaccharidosis: Results of the FIND project - a 2-year follow-up study.

    Medicine (Baltimore). 2017;96(19):e6887.

  2. D'Aco K, Underhill L, Rangachari L et al.

    Diagnosis and treatment trends in mucopolysaccharidosis I: findings from the MPS I Registry.

    Eur J Pediatr. 2012;171(6):911-9.

  3. Tylki-Szymańska A, De Meirleir L, Di Rocco M, et al.

    Easy-to-use algorithm would provide faster diagnoses for Mucopolysaccharidosis type I and enable patients to receive earlier treatment.

    Acta Paediatr. 2018;107(8):1402-1408.

  4. Galimberti C, Madeo A, Di Rocco M, Fiumara A.

    Mucopolysaccharidoses: early diagnostic signs in infants and children.

    Ital J Pediatr. 2018; 44(Suppl 2):133.

  5. Beck M, Arn P, Giugliani R, et al.

    The natural history of MPS I: global perspectives from the MPS I Registry.

    Genet Med. 2014;16(10):759-65.