O VÍRUS (SARS-CoV-2)
Os coronavírus são patógenos com uma extensa e promíscua gama de hospedeiros naturais. São capazes de afetar vários sistemas e, em seres humanos, podem causar doenças com manifestações que variam de um resfriado comum a doenças respiratórias mais graves, como a SARS e MERS. 

 

O recém-emergente SARS-CoV-2 causou uma pandemia na população mundial, levando a surtos da doença que ainda não foram controlados até o momento, apesar dos esforços que estão sendo realizados.1 

 

O Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV) propôs que esse vírus fosse denominado coronavírus 2 da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2), após ter sido determinado que o patógeno pertence à categoria de coronavírus relacionados à síndrome respiratória aguda grave (SARS, severe acute respiratory syndrome).1 

 

Estes vírus possuem um genoma de RNA de sentido positivo, de cadeia simples. O seu envelope protéico envolve o nucleocapsídeo viral. As micrografias eletrônicas revelaram um contorno esférico e "espigões" (spikes), dando ao vírus a aparência de uma coroa solar, característica esta que dá origem ao nome coronavírus.1

 

Os coronavírus codificam quatro proteínas estruturais principais, a saber: espiga ou spike (S), membrana (M), envelope (E) e nucleocapsídeo (N). Veja detalhes na figura abaixo.1

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Figura 1. Estrutura do vírus SARS-Cov-2. (Adaptada de Dhama K et al, Clin Microbiol Rev 2020;33(4)1)

 

Com base na caracterização molecular, o SARS-CoV-2 é considerado um novo Betacoronavírus. Alguns outros coronavírus zoonóticos (CoV relacionado à MERS e CoV relacionado à SARS) pertencem ao mesmo gênero, tendo sido observada uma identidade de nucleotídeos de:1

  • 80% entre o SARS-CoV-2 e o SARS-CoV original;
  • 89% entre o SARS-CoV-2 e os CoVs de morcegos;
  • 82% entre o SARS-CoV-2 e o SARS-CoV Tor2 humano e o SARS-CoV humano BJ01 2003;
  • 51,8% entre o SARS-CoV-2 e o CoV relacionado à MERS.

 

A análise filogenética reforçou a hipótese de que o SARS-CoV-2 pode ter se originado de morcegos, enquanto outros hospedeiros podem ter desempenhado um papel na transmissão da doença para seres humanos. É importante notar que os outros dois CoVs zoonóticos (MERS e SARS) também se originaram de morcegos.1

 

Transmissão
A origem do SARS-CoV-2 e o primeiro modo de transmissão da doença ainda não foram identificados. A análise do conjunto inicial de infecções sugere que os indivíduos infectados tinham um ponto de exposição, um mercado de frutos do mar em Wuhan, província de Hubei, China. Os restaurantes deste mercado são bem conhecidos por fornecer diferentes tipos de animais selvagens para consumo humano, incluindo a venda de animais vivos, como aves, morcegos, cobras e marmotas. Este pode ter sido o ponto em que ocorreu a transmissão zoonótica (de animal para humano). Embora o SARS-CoV-2 supostamente tenha se originado de um hospedeiro animal (origem zoonótica) com transmissão humano-humana adicional, a possibilidade de transmissão por meio de alimentos deve ser descartada apenas com mais investigações. Além disso, outras rotas potenciais estariam associadas à transmissão, como em outros vírus respiratórios, por contato direto, através do aperto de mãos contaminadas ou contato direto com superfícies contaminadas. Ainda há outras possíveis rotas para a transmissão de SARS-CoV-2, como a transfusão de sangue e o transplante de órgãos, bem como as rotas transplacentárias e perinatais (Fig. 2).1

 
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Figura 2. Rotas potenciais de transmissão para SARS-CoV-2. (Adaptada de Dhama K et al, Clin Microbiol Rev 2020;33(4)1)

 

A reanálise da curva pandêmica da COVID-19 apontou uma considerável transmissão homem-a-homem. Após a infecção inicial, a transmissão humano-humano foi observada com uma estimativa do número de reprodução preliminar (R0) de 1,4 a 2,5 e, recentemente, é estimado em 2,24 a 3,58. Em outro estudo, o número reprodutivo médio de COVID-19 foi de 3,28, significativamente superior à estimativa inicial da OMS de 1,4 a 2,5. Entretanto, ainda é cedo para obter o valor exato de R0, pois existe a possibilidade de viés devido a dados insuficientes.1  

 

Dados crescentes sobre a presença de SARS-CoV-2 no esgoto justificam a necessidade de mais investigações a respeito da transmissão fecal-oral. O vírus presente no meio ambiente, como no solo e na água, acabará finalmente no esgoto e nas estações de tratamento de águas residuais. Portanto, temos que reavaliar os procedimentos atuais de tratamento de efluentes e resíduos de esgoto, além de introduzir técnicas avançadas específicas e eficazes contra o SARS-CoV-2.1   

 

SINTOMAS
Os sintomas associados à COVID-19 são febre, tosse, expectoração, dor de cabeça e mialgia ou fadiga. Casos assintomáticos e indivíduos com manifestações clínicas atípicas também foram identificados, aumentando ainda mais a complexidade da dinâmica de transmissão da doença. Manifestações clínicas atípicas podem expressar apenas sintomas como fadiga. Assim, o clínico deve estar atento à possível ocorrência de casos assintomáticos e manifestações clínicas atípicas para não perder a chance de fazer o diagnóstico.1  

 

DIAGNÓSTICO DA COVID-19 (SARS-CoV-2)
O diagnóstico de SARS-CoV-2 (COVID-19) pode ser realizado com testes de RT-PCR. Os ácidos nucléicos do vírus podem ser detectados a partir de amostras de lavagem broncoalveolar, escarro, swab nasal e faríngeo, broncoscopia, fezes, sangue e urina, com diferentes resultados para cada um. Recentemente, foi determinada a carga viral em swab nasal e na garganta de 17 pacientes sintomáticos, e foram registradas cargas virais mais altas logo após o início dos sintomas, principalmente no nariz em comparação à garganta.1  

 

A triagem inicial de pacientes com COVID-19 infectados com RT-PCR pode apresentar resultados negativos, mesmo quando há achados na TC de tórax sugestivos de infecção. Portanto, para o diagnóstico preciso da COVID-19, é necessário uma combinação de testes repetidos de RT-PCR e tomografia computadorizada para evitar a possibilidade de resultados falso-negativos durante a triagem da doença.1  

 

O paciente será confirmado como curado quando 2 amostras subsequentes obtidas por swab e analisadas por RT-PCR forem negativas.1  

 

Ensaios sorológicos, como o ELISA (ensaio imunossorvente ligado a enzima), que são específicos para anticorpos IgM e IgG da COVID-19, podem ser usados como um complemento no diagnóstico. Foi observado que níveis elevados de IgM duraram mais de 1 mês, indicando uma fase prolongada de replicação do vírus em pacientes infectados. Já os níveis de IgG aumentam apenas nos estágios posteriores da doença.1  

 

VACINAS E TERAPIAS

 

Vacinas
Várias tentativas estão sendo feitas para o desenvolvimento de vacinas, dirigidas principalmente contra a glicoproteína S.1  
A proteção cruzada fornecida pelas vacinas já existentes é limitada, devido à grande diversidade de variantes antigênicas.1  

 

Tratamentos medicamentosos
As opções e estratégias de tratamento avaliadas para a COVID-19 estão sendo baseadas em experiências anteriores, como no tratamento da SARS, MERS e outras doenças virais emergentes. Tais opções já foram avaliadas por sua potência, eficácia e segurança e, juntamente com outras pesquisas atuais, irão colaborar na busca pelo agente terapêutico ideal contra a COVID-19. 

As várias classes de medicamentos que estão sendo atualmente avaliadas quanto ao seu potencial ação terapêutica podem ser classificadas em três categorias:1  

  • Medicamentos que bloqueiam a entrada do vírus na célula hospedeira;
  • Medicamentos que bloqueiam a replicação viral, bem como sua sobrevivência dentro da célula hospedeira;
  • Medicamentos que atenuam a resposta imune exagerada.
 
Medicamentos antivirais
Medicamentos antivirais de amplo espectro com usos comprovados contra outros vírus podem ser empregados em pacientes infectados com SARS-CoV-2. Estes possuem benefícios de fácil acessibilidade, além de atividades farmacocinéticas e farmacodinâmicas, estabilidade, doses e efeitos colaterais conhecidos.1   
 
Várias classes de medicamentos antivirais, como o oseltamivir, aciclovir, ganciclovir e ribavirina, não têm efeito sobre a COVID-19 e, portanto, não são recomendados.1   
 
Um estudo de acoplamento molecular, realizado na RNA polimerase dependente de RNA (RdRp) do SARS-CoV-2, usando diferentes medicações anti-polimerase disponíveis no mercado, identificou que medicamentos como remdesivir, galidesivir, tenofovir e sofosbuvir se ligam firmemente ao RdRp, indicando potencial no tratamento contra a COVID-19.1  
 
Um medicamento antiviral de amplo espectro foi desenvolvido nos Estados Unidos, o dicloridrato de tilorona (tilorona), possuindo potente atividade antiviral contra MERS, Vírus Marburg, Ebola e Chikungunya. Sendo assim, a tilorona é outro medicamento antiviral que pode ter atividade contra o SARS-CoV-2.1  
 
Anticorpos monoclonais
Os anticorpos monoclonais podem ser úteis na intervenção da doença em indivíduos expostos ao coronavírus. Pacientes em recuperação de SARS desenvolvem anticorpos neutralizantes contra a infecção que podem ajudar nas respostas humorais protetoras. A imunização passiva empregando anticorpos neutralizantes forneceu proteção considerável contra a MERS-CoV em camundongos. Tais anticorpos tem como alvo epítopos da proteína S e podem desempenhar um papel importante nas respostas humorais protetoras contra os coronavírus emergentes.1 
Outras estratégias terapêuticas, envolvendo o uso de anticorpos que neutralizam citocinas e seus receptores, também poderão ajudar a restringir as respostas inflamatórias do hospedeiro.1  
 
Anti-inflamatórios e glicocorticoides
Anti-inflamatórios como glicocorticoides, inibidores de citocinas, inibidores de JAK e cloroquina/hidroxicloroquina devem ser utilizados somente após a análise da relação risco / benefício em pacientes com COVID-19.1   
 
O uso de corticosteroides em pacientes ainda é motivo de controvérsia e requer mais estudos clínicos. As diretrizes propostas para o manejo de adultos graves sugerem o uso de corticosteroides sistêmicos em paciente ventilados mecanicamente. O uso generalizado de corticosteroides não é indicado, pois existem algumas preocupações associadas ao uso desse fármaco na pneumonia viral.1   
 
Outras terapias
Outras potenciais terapias para combater a infecção por SARS-CoV-2 incluem moléculas ou inibidores direcionados a enzimas específicas implicadas na replicação e processo de transcrição do vírus, inibidores da helicase, inibidores de proteases e proteínas virais vitais, inibidores de proteases das células hospedeiras, inibidores da endocitose, RNA de interferência, anticorpos neutralizantes, peptídeos antivirais e medicamentos naturais. 
 
OBSERVAÇÕES FINAIS
Vários anos após a epidemia global de SARS, a atual pandemia de SARS-CoV-2 / COVID-19 serviu como um lembrete de como novos patógenos podem emergir rapidamente e se espalhar pela população humana e, eventualmente, causar graves crises de saúde pública.1   
 
Mercados de animais vivos, como o Huanan South China Seafood Market, representam condições ideais para o contato interespécie de animais selvagens com aves domésticas, porcos e mamíferos, o que aumenta substancialmente a probabilidade de transmissão interespécie de infecções por coronavírus (CoV) e pode resultar em altos riscos para os seres humanos devido à recombinação genética adaptativa nesses vírus.1  
 
O atual surto causado por SARS-CoV-2 era, de fato, esperado. No entanto, a verdadeira questão é: como estamos planejando combater a próxima epidemia de CoV zoonótica que provavelmente ocorrerá nos próximos 5 a 10 anos ou talvez mais cedo? Nosso conhecimento da maioria dos CoVs de morcegos é escasso, pois esses vírus não foram isolados e estudados, e estudos extensivos sobre esses vírus geralmente são realizados apenas quando associados a surtos específicos de doenças. O próximo passo após o controle do surto de COVID-19 deve ser focado na triagem, identificação, isolamento e caracterização de CoVs presentes em espécies selvagens da China, principalmente em morcegos. Estudos in vitro e in vivo (usando modelos animais adequados) devem ser realizados para avaliar o risco de futuras epidemias.1   
 
Atualmente, faltam medicamentos antivirais e vacinas contra o SARS-CoV, MERS-CoV e SARS-CoV-2. No entanto, os avanços no desenvolvimento de medicamentos antivirais e vacinas contra várias outras doenças emergentes ajudarão a desenvolver agentes terapêuticos adequados contra o COVID-19 em pouco tempo. Até então, devemos confiar exclusivamente nas várias medidas de controle e prevenção para conter a transmissão desse vírus.1  
 

REFERÊNCIAS

  1. Dhama K, Khan S, Tiwari R, et al.

    Coronavirus Disease 2019-COVID-19.

    Clin Microbiol Rev 2020;33(4). http://dx.doi.org/10.1128/CMR.00028-20