RESUMO:
Contexto e objetivos: A simplificação das etapas para a preparação das vacinas economizaria tempo e reduziria o potencial para erros de imunização. O objetivo do estudo foi avaliar o tempo de preparo da vacina com uma vacina hexavalente totalmente liquida (DTaP-IPV-HB-PRP-T, da Sanofi Pasteur MSD) em relação a uma vacina hexavalente não totalmente liquida, que necessita de reconstituição para o seu preparo (DTPa-HBV--IPV/Hib, da GlaxoSmithKline Biologicals).
Métodos: Noventa e seis profissionais de saúde (PdS) participaram de um estudo de tempos e movimentos randomizado, cruzado, aberto na Bélgica (2014). Os PdS prepararam cada vacina de maneira cruzada, com um período de wash-out entre os preparos de 3 a 5 minutos. Um enfermeiro independente avaliou o tempo de preparo e os erros de imunização por meio da revisão sistemática dos vídeos. A satisfação e a preferência dos PdS foram avaliadas por meio de um questionário auto aplicado.
Resultados: O tempo médio de preparo foi de 36 segundos para a vacina totalmente liquida e de 70,5 segundos para a vacina não totalmente liquida. O tempo economizado com a vacina totalmente liquida foi de 34,5 segundos (p ≤ 0,001). Nas 192 preparações, ocorreram 57 erros de imunização: 47 no grupo da vacina não totalmente liquida (inclusive uma falta de reconstituição do componente Hib) e 10 no grupo da vacina totalmente liquida. 71,9% dos PdS ficaram muito ou razoavelmente satisfeitos com a facilidade de manejo das duas vacinas: 66,7% e 67,7% ficaram muito ou razoavelmente satisfeitos com a velocidade de preparo das vacinas totalmente liquidas e não totalmente liquidas, respectivamente. Quase todos os PdS (97,6%) declararam preferir o uso da vacina totalmente liquida em sua prática diária.
Conclusões:
O preparo de uma vacina hexavalente totalmente liquida pode ser concluído em metade do tempo necessário para o preparo de uma vacina não totalmente liquida. A simplicidade de preparo da vacina hexavalente totalmente liquida ajuda a minimizar os erros de imunização.
Introdução:
Vacinas combinadas proporcionam vários benefícios à vacinação, ao médico, à sociedade, ao sistema de saúde e à saúde pública. Ao inocular mais antígenos em menos injeções, as vacinas combinadas melhoram a cobertura, o calendário de vacinação e a eficiência do programa e reduzem custos para o sistema de saúde.1

O tempo dedicado pelos profissionais de saúde (PdS) ao preparo da vacina é um componente do custo programático global associado à administração da vacina. Mesmo que limitado no caso de uma única vacinação (aproximadamente 25% do tempo total da vacinação)2, esse tempo pode ser reduzido com a adaptação de dispositivos e produzir um impacto maior quando aplicado a grandes populações. Por exemplo, as vacinas podem ser administradas 37,3 segundos mais rapidamente com o uso de seringas pré-carregadas, Em comparação com os frascos com múltiplas doses,3 e 46 segundos mais rapidamente com o uso de uma vacina combinada totalmente líquida DTP-HepB-Hib,1 em comparação com uma vacina combinada não totalmente líquida composta de um frasco com DTwP–HepB em formulação líquida e do componente Hib liofilizado, com necessidade de reconstituição.2 Outro aspecto importante para o sucesso dos programas de imunização é a qualidade da administração das vacinas.4 O manejo e o preparo adequados são críticos para manter a integridade da vacina durante a transferência do frasco do fabricante para a seringa e, por fim, para o paciente. Existem diretrizes elaboradas para ajudar o PdS a seguir padrões atualizados de imunização.5,6 Na Bélgica, o Grupo Nacional de Consultoria Técnica em Imunização (NITAG, do inglês National Immunisation Technical Advisory Group) propõe recomendações para as vacinações, e, com base nas recomendações do NITAG, os Grupos Consultivos Regionais (como a Plataforma Flamenga de Vacinação, por exemplo) definem o calendário anual de imunização. Treinamentos práticos em imunização são oferecidos em alguns currículos de formação médica e paramédica. Contudo, o treinamento em serviço é oferecido somente às equipes das clínicas well-baby (serviços de saúde para monitoramento preventivo, educação em saúde e orientação a pais de bebês) e dos centros de saúde escolares. A adaptação de dispositivos pode contribuir para evitar, reduzir ou mitigar os erros de imunização e os impactos associados na segurança.7

Uma vacina hexavalente (DTPa-HBV-IPV/Hib, da GlaxoSmithKline Biologicals)3, fornecida na forma de pó e suspensão para reconstituição, indicada para vacinação primária e de reforço em bebês contra difteria (D), tétano (T), coqueluche (aP), hepatite B (HepB), poliomielite (IPV) e infecção pelo Haemophilus influenzae tipo B (HiB), está disponível na Europa há mais de uma década. O componente liofilizado Hib-PRT-T é reconstituído em uma seringa contendo os componentes D, T, aP, IPV e HepB, usados como diluente.

Em 2013, uma vacina hexavalente totalmente líquida (em seringa pré-carregada) pronta para o uso (DTaP-IPV-HB-PRP-T, da Sanofi Pasteur MSD)4 recebeu autorização para comercialização na Europa. Essa vacina está indicada para a vacinação primária e de reforço em bebês de 6 semanas a 24 meses de idade, contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B, poliomielite e infecção invasiva causada pelo Hib. Na época deste estudo, somente a vacina combinada não totalmente líquida estava disponível na Bélgica.

Estudos de tempos e movimentos (T&M) requerem uma observação independente e contínua e constituem, portanto, um método mais preciso que o autorrelato ou as técnicas de amostragem de trabalho, que coletam dados a determinados intervalos de tempo. Na área médica, os estudos de T&M são eficientemente usados para determinar o momento e a duração de tarefas ou procedimentos.8 Estudos de T&M são geralmente menores, em decorrência das elevadas demandas de recursos para a condução de observações de campo independentes e contínuas. Essa característica pode exacerbar um efeito de viés do observador e exige requisitos mais rigorosos de seleção dos participantes e alocação de sujeitos e observadores. Além disso, pode haver uma alteração no comportamento do sujeito do estudo sob observação contínua ao realizar uma tarefa. Certos métodos foram desenvolvidos para limitar o possível efeito desses vieses. O registro das atividades dos PdS em vídeo foi utilizado recentemente para prevenir um efeito do observador9,10 e permite, também, que este reproduza cada tarefa avaliada quantas vezes forem necessárias para revisão e análise, melhorando a qualidade dos dados.

Com o uso de um desenho de estudo de T&M, o principal objetivo deste estudo foi avaliar o tempo de preparo de uma vacina hexavalente totalmente líquida em comparação com uma hexavalente não totalmente líquida que requer uma reconstituição antes da administração. O estudo também avaliou o risco de erros de imunização, a satisfação e a preferência do PdS encarregado da vacinação pediátrica com o uso de cada uma das duas vacinas.

Métodos:

Desenho do estudo

O estudo foi um ensaio cruzado, randomizado e aberto, conduzido em quatro cidades diferentes da Bélgica: Bruxelas, Liège, Charleroi e Namur (Fig. 1)

Os participantes do estudo deviam preparar, consecutivamente, uma vacina totalmente líquida e uma vacina não totalmente líquida (ou na ordem inversa), com um intervalo de wash-out de pelo menos 3 a 5 minutos entre os preparos. As vacinas foram dispostas em uma bandeja juntamente com material de assepsia para ser usado a critério do PdS, de acordo com a sua prática habitual. A primeira vacina a ser preparada foi determinada randomicamente. A randomização foi estratificada por um centro participante e balanceada a cada dois participantes. 

Os preparos das duas vacinas foram registrados com o uso de equipamento de vídeo capaz de registrar o tempo na tela. Imediatamente após a preparação das duas vacinas, os PdS foram solicitados a preencher um questionário autoaplicado sobre as suas preferências e satisfação com relação às duas vacinas.

Participantes

Para refletir a prática usual na Bélgica e diferentes perfis de usuário, os profissionais recrutados para o estudo compunham uma combinação de clínicos gerais, pediatras, especialistas em saúde do jovem e enfermeiros. Eles deveriam ter mais de 2 anos de experiência em vacinação pediátrica e administrar ou preparar pelo menos 3 vacinas para crianças por semana, das quais pelo menos uma vacina hexavalente. Dados sobre o treinamento prévio específico em preparo e administração das vacinas foram coletados para fins de análise, mas não eram pré-requisito para a participação do profissional no estudo. Foram excluídos participantes com posição permanente na indústria farmacêutica ou que não autorizassem a captação em vídeo.

Listas telefônicas foram usadas para contatar os PdS das diferentes especialidades na região geográfica das cidades cobertas pelo estudo.

Predefinições e controle de viés

As etapas de prevenção de viés incluíram:
  • Desenvolvimento de roteiros padronizados para apresentação do estudo aos participantes, de forma a reduzir o viés de seleção. O nome do patrocinador foi sistematicamente omitido até o final dos procedimentos do estudo.
  • Um desenho cruzado, para neutralizar o efeito da presença do vídeo/observador entre os preparos das vacinas.
  • Equipe treinada no centro participante do estudo para evitar qualquer influência sobre os PdS durante os processos de preparo das vacinas.
  • Tempo definido para início e final do preparo da vacina.
  • Randomização da sequência de preparo das vacinas e da ordem das questões do questionário autoaplicado.
  • Execução do estudo fora das premissas de trabalho habituais do PdS, em instalação central de cada cidade, para oferecer uma uniformidade neutra de local, tempo e ação.
  • Avaliação do tempo de preparo da vacina dentro de um período breve, para prevenir um viés de efeito do tempo.
  • Apresentação das duas vacinas fora da sua embalagem, sem bula. Assim, evitou-se qualquer impacto sobre o tempo de preparo em decorrência de distração do PdS provocada pelas bulas de uma vacina desconhecida (a vacina totalmente líquida ainda não era comercializada na Bélgica na época em que o estudo foi conduzido).
Tendo em vista o desenho cruzado do estudo e visando levar em conta as condições reais de uso (inclusive diferentes níveis de experiência), não se exigiu uma representatividade ou homogeneidade da amostra de PdS.
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Medidas de resultados e coleta dos dados

Preparo das vacinas: Um PdS (enfermeiro) independente foi treinado para avaliar o tempo consumido no preparo da vacina e os erros de imunização, por meio da revisão dos vídeos gravados em cada avaliação. O treinamento incluiu os métodos do estudo e os processos de revisão do vídeo. Um médico fez o controle de qualidade dos dados por meio da revisão de uma amostra randômica de 10% dos vídeos. O controle de qualidade incluiu a identificação pelo enfermeiro, o tempo de preparo, de erros de imunização e de qualquer problema que ocorresse.

1. Tempo de preparo da vacina. O tempo de preparo da vacina foi definido pelo período entre o primeiro toque do profissional no material do campo experimental (por exemplo, seringa, frasco ou agulhas) e o momento em que ele colocou a seringa no campo pronta para administração. O cálculo exclui o tempo necessário para obtenção da vacina do local de armazenagem, a administração da vacina, o descarte do frasco, da seringa e da agulha e a documentação da administração da vacina. Para validar e harmonizar referências visuais de início e final do preparo da vacina e a identificação dos erros de imunização, os primeiros 10% dos vídeos foram revisados duas vezes, primeiramente pelo enfermeiro e depois pelo médico. Foram registrados no vídeo os minutos e os segundos (s).

2. Erros de imunização. Os erros de imunização foram definidos por: falha na assepsia, perfuração da pele com a agulha, vazamento de líquido, não eliminação de bolhas de ar da seringa ao final do processo de preparação, falha na reconstituição do componente Hib-PRP-T (apenas na vacina não totalmente líquida), falha em transferir todo o conteúdo do frasco de Hib-PRP-T para a seringa (apenas na vacina não totalmente líquida). Qualquer outro erro ou incidente de imunização não esperado durante o preparo da vacina também foi registrado.

Satisfação e preferência dos PdS

Dados sobre a satisfação com a facilidade de manejo da vacina e com a velocidade de preparo foram coletados por meio de uma escala Likert de 5 pontos (muito satisfeito/parcialmente satisfeito/ neutro/não muito satisfeito/nada satisfeito). Os PdS foram solicitados a indicar, entre as duas formas de vacina hexavalente, aquela que prefeririam usar na sua prática diária de vacinação de crianças.

Ética, privacidade dos dados e farmacovigilância

O estudo foi aprovado pelo comitê de ética do Hospital Universitário da Antuérpia, na Bélgica. 

Nesse estudo, as vacinas não foram administradas a pacientes, e nenhum dado de saúde foi coletado. Todos os dados coletados foram manuseados em concordância com as normas regulatórias locais de privacidade de dados.

Um consentimento esclarecido por escrito foi obtido de todos os participantes antes do início do estudo.

Um processo de relato de possíveis eventos ou incidentes adversos relacionados às vacinas do estudo ou ao seu manejo durante o preparo foi estabelecido antes do início do estudo.

Estatística

Dados previamente estabelecidos demonstraram uma redução de cerca de 50% no tempo necessário para o preparo de uma vacina totalmente líquida (36 s), em comparação com uma vacina liofilizada (75 s) [2]. Considerando-se um teste pareado e assumindo-se um desvio-padrão (DP) de 75, estimou-se que 77 PdS seriam suficientes para demonstrar uma diferença altamente significativa de 50% na economia de tempo, com poder estatístico de 90% e nível de significância de 0,01. Antes da implantação do estudo, decidiu-se incluir uma amostra de 100 PdS para manter a possibilidade, dependendo do valor do DP, de discussão dos resultados do estudo sobre a especialidade do profissional e o número de vacinações por semana.

As diferenças no tempo de preparo da vacina foram avaliadas por meio do teste pareado de Wilcoxon.

Os dados foram incluídos usando-se o instrumento da ClinInfo® (Lyon, França), e a análise dos dados foi feita com o programa SAS®, versão 9.2 (SAS Institute Inc., Cary, NC, Estados Unidos).

Resultados

Amostra do estudo

Dos 100 PdS que concordaram em participar, 96 compareceram ao centro do estudo. Todos os participantes concluíram o experimento e responderam ao questionário.
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A média (DP) de idade dos PdS foi de 44,5 anos (12,7) (Tabela 1). Dos 96 PdS, 50 (52,1%) eram pediatras, 34 (35,4%) eram clínicos gerais e 12 (12,5%) eram enfermeiros. Além disso, 54 (56,3%) realizavam pelo menos 10 vacinações (de crianças ou adultos) por semana, enquanto os demais 42 (43,8%) faziam menos de 10 vacinações por semana; 16 participantes trabalhavam em clínicas well-baby belgas.

Prática dos PdS

Dos 96 participantes, 32 (33,3%) haviam recebido previamente treinamento específico no preparo e na administração de vacinas. As taxas mais altas de treinamento específico no preparo e na administração de vacinas foram observadas nos enfermeiros (8 enfermeiros; 66,7%) e nos PdS que administravam pelo menos 10 vacinas por semana (22 profissionais; 40,7%).

Quase todos os participantes (95 profissionais, 99,0%) estavam tipicamente envolvidos no preparo e na administração de vacinas, e 87 (90,6%) estavam tipicamente envolvidos na documentação das vacinações. Um enfermeiro não participava da administração de vacinas, e 9 clínicos gerais não estavam envolvidos na documentação durante o processo de vacinação.

Doze PdS (12,5%) haviam usado previamente uma vacina hexavalente totalmente líquida.

Os PdS administravam vacinas pediátricas em média (DP) havia 17,2 anos (12,3), com frequência média (DP), incluindo preparo e/ou aplicação, de 16,1 vacinações (15,7) por semana. Dentre as vacinas aplicadas, em média (DP) 15,3 (15,9) eram em crianças e, entre estas, 8,8 (9,9) eram vacinas hexavalentes (Tabela 2).

Tempo de preparação da vacina

O tempo médio (DP) necessário para o preparo da vacina totalmente líquida foi de 36,0 s (22,8), e o tempo médio (DP) necessário para o preparo da vacina não totalmente líquida foi de 70,5 s (33,2) (Fig. 2). A diferença nos tempos de preparo entre as duas vacinas, ou seja, o tempo economizado com a vacina totalmente líquida, foi de 34,5 s [intervalo de confiança (IC) de 95% = 28,4 a 40,6], p< 0,001. Essa diferença foi maior entre os clínicos gerais [46,3 (IC de 95% = 30,9 a 61,7)] e entre os PdS que realizavam menos de 10 vacinações por semana [45,2 (IC de 95% = 33,1 a 57,3)]. O tempo economizado foi estatisticamente significativo na população total de PdS, bem como para cada subgrupo estudado (Tabela 3).

Erros de imunização


Observaram-se ao todo 57 erros de imunização durante os 192 preparos de vacina: 47 com a vacina não totalmente líquida e 10 com a totalmente líquida (Tabela 4a–b). A diferença média entre os erros de preparação foi de 0,39 (IC de 95% = 0,24 a 0,53), p < 0,001.

Com a vacina não totalmente líquida, o número médio (DP) de erros de imunização tendeu a ser mais alto nos PdS que realizavam menos de 10 vacinações por semana, comparados àqueles que realizavam 10 ou mais vacinações por semana, com 0,6 (0,7) vs. 0,4 (0,7) erro de imunização, respectivamente. O número médio (DP) de erros de imunização também tendeu a diferir por especialidade do PdS: 0,3 (0,5) nos enfermeiros, 0,5 (0,6) nos pediatras e 0,6 (0,8) nos clínicos gerais. Com a vacina totalmente líquida, não se observou diferença por número de vacinações realizadas por semana, mas o número médio (DP) de erros de imunização tendeu a ser mais baixo nos pediatras e clínicos gerais, comparados aos enfermeiros [respectivamente, 0,1 (0,3) e 0,1 (0,2) vs. 0,3 (0,5)] (Tabela 4a).

Os erros de imunização mais frequentemente observados durante o preparo da vacina não totalmente líquida foram: falta de eliminação de bolhas de ar da seringa no final da preparação (12 profissionais, 12,5%), eliminação das bolhas de ar da seringa antes de usar a segunda agulha (11 profissionais, 11,5%), falta de substituição da agulha do preparo pela agulha de administração no final da preparação da vacina (8 profissionais, 8,3%) e conteúdo do frasco de Hib-PRP-T não totalmente aspirado para a seringa (8 profissionais, 8,3%). Em um caso, a reconstituição do conteúdo do frasco de Hib-PRP-T não foi feita.

O erro mais comumente observado durante o preparo da vacina totalmente líquida foi a falta de eliminação de bolhas de ar da seringa no final da preparação (4 profissionais, 4,2%) (Tabela 4a–b). O vazamento da vacina não totalmente líquida, que entrou em contato com a pele, mas não teve nenhuma consequência clínica para o PdS, foi reportado como evento adverso durante o estudo.
 
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Satisfação e preferência dos PdS

Os PdS que ficaram muito ou parcialmente satisfeitos com a facilidade de manejo das duas vacinas foram 69 (71,9%); 64 (66,7%) e 65 profissionais (67,7%) ficaram muito ou parcialmente satisfeitos com a velocidade de preparo da vacina totalmente líquida e com a vacina não totalmente líquida, respectivamente. 

Dentre os 96 PdS incluídos no estudo, a preferência pela forma da vacina para a prática diária de vacinação em crianças foi avaliada em 83 considerados experientes o suficiente em vacinação de crianças (mais de 3 vacinações por semana). Quase todos (97,6%) declararam preferir o uso de uma vacina hexavalente totalmente líquida na sua prática diária.

Discussão

Tempo de preparação da vacina

Como esperado, e coerentemente com os resultados prévios obtidos em um estudo clínico conduzido no ambiente de trabalho dos PdS,2 o preparo da vacina hexavalente totalmente líquida levou cerca de 50% menos tempo que o necessário para preparar a vacina não totalmente líquida (36 s vs. 70,5 s). A economia de tempo foi mais pronunciada entre os profissionais menos experientes (aqueles que fazem menos de 10 vacinações por semana). Embora se esperasse que a economia de tempo resultasse em limitadas diferenças pragmáticas para o PdS individualmente, quando medida em grandes coortes de vacinas (por exemplo, em nível nacional), essa economia de tempo pode ser significativa.

Erros de imunização

Os programas de vacinação procuram obter elevada cobertura vacinal nas populações-alvo. O sucesso desses programas em proteger os indivíduos e a sociedade depende de diversos fatores, que incluem a qualidade de administração das vacinas.4 De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os eventos adversos pós-imunização (EAPIs) por erros programáticos no armazenamento, manuseio ou na administração da vacina são mais comuns que os EAPIs decorrentes das propriedades das vacinas.11 A preparação da vacina totalmente líquida resultou em menos erros de imunização, comparada à não totalmente líquida, que requer muito mais etapas de preparação. Embora os resultados não sejam inesperados e tenham sido obtidos em circunstâncias experimentais, é provável que significativas diferenças ocorram em condições da prática clínica. Os erros observados neste estudo durante o preparo da vacina podem ser divididos em duas categorias principais: erros que podem levar a complicações de saúde e erros que reduzem a efetividade da imunização. Os problemas de segurança com vacinas que necessitam de reconstituição já foram reportados previamente.2 Durante o preparo de uma droga injetável, várias manipulações inadequadas podem comprometer a sua esterilidade, resultando na possível contaminação do produto final.12 Uma vacina totalmente líquida que exija menos manipulação reduz esse risco. Bundy et al. Propuseram “os 5 riscos” na administração de um medicamento (paciente certo, medicação certa, dosagem certa, hora certa e via de administração certa) para analisar os erros de imunização reportados.4,13,14 Levando-se em consideração esses critérios, uma vacina totalmente líquida em dose única oferece menos oportunidades de erros ao reduzir o risco de dosagem incorreta e dispensar a mistura ou aspiração do conteúdo de um frasco, evitando-se a aspiração incompleta ou uma falha na reconstituição. Neste estudo, ocorreram 8 casos de aspiração incompleta do conteúdo do frasco de Hib, um vazamento e uma falha de reconstituição, comprometendo a imunização ideal.  Pode-se fazer uma comparação com a administração de uma droga por via intravenosa, na qual o preparo em múltiplas etapas, inclusive a reconstituição, foi identificado como um dos fatores que contribuem para os erros de administração15. Além disso, o número de erros de imunização foi mais alto nos PdS menos experientes. Embora a intensificação do treinamento seja uma das possíveis estratégias para reduzir os erros de vacinação, dependendo das condições nem todo PdS tem a oportunidade de melhorar suas habilidades com a prática: por exemplo, jovens profissionais iniciando sua prática ou em situações em que a vacinação pediátrica seja menos comum. Particularmente nesses casos, as vacinas totalmente líquidas em dose única podem proporcionar maior redução dos erros de imunização, essencial para a segurança do paciente e a efetividade da vacina.
 
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Satisfação e preferências dos PdS

A satisfação dos PdS com relação à facilidade de manuseio e à velocidade de preparo das duas vacinas foi similar. Muitas vezes, o nível de satisfação de um profissional depende das suas expectativas. As duas vacinas têm diferentes características, e é razoável considerar que os PdS tivessem expectativas diferentes para cada uma delas, especialmente para uma vacina nova no mercado. Contudo, quase todos os PdS prefeririam usar a vacina hexavalente totalmente líquida em seringa pré-carregada para a vacinação de crianças em sua prática diária. Embora as preferências sejam subjetivas, o envolvimento dos PdS participantes em todo o processo de vacinação confere credibilidade à preferência que expressaram.

Limitações do estudo e validade externa dos achados

Embora este estudo tenha sido conduzido em apenas um país europeu, pode-se presumir que as práticas de preparo de vacinas para crianças sejam familiares de uma nação para outra. Portanto, a economia de tempo obtida com a vacina totalmente líquida destacada neste estudo pode ser generalizada para outros países (ou seja, uma redução de 50% em comparação com a vacina não totalmente líquida). Existem, contudo, possíveis diferenças nas práticas locais, preferências culturais por formas farmacêuticas específicas e organizações específicas para a administração de vacinas em outros países, o que pode afetar a generalização das preferências dos PdS pela vacina totalmente líquida.

Conclusões

A vacina hexavalente totalmente líquida reduziu significativamente o tempo de preparo em comparação com a hexavalente não totalmente líquida, que exige mais etapas para reconstituição. Essa diferença pode ter um impacto significativo quando se considera um grande número de vacinações. Por fim, reduzir as etapas no processo de preparo da vacina diminui as oportunidades para erros de imunização e, portanto, pode afetar positivamente a segurança.

Declaração de conflitos de interesses 


Ilse De Coster e Pierre Van Damme atuam como pesquisadores em estudos sobre vacinas, em nome da Universidade da Antuérpia, pelas quais a Universidade obtém fundos de pesquisa dos fabricantes de vacinas; honorários por palestras sobre vacinas são pagos diretamente a um fundo educacional mantido pela Universidade da Antuérpia. Ilse De Coster e Pierre Van Damme não receberam remuneração pessoal por este trabalho. Céline Faure e Xavier Fournie são funcionários em tempo integral da Mapi, organização contratada pela SPMSD para conduzir o estudo. Eddy Ziani, Laurence Nicolas e Benoit Soubeyrand são funcionários em tempo integral da SPMSD.

Agradecimentos

Este estudo foi patrocinado pela Sanofi Pasteur, MSD e conduzido pela Mapi RWE. A Mapi RWE é uma unidade de CRO (organização de pesquisa por contrato, do original em inglês Contract Research Organization), contratada para conduzir o estudo. A análise dos dados foi realizada pela equipe da Universidade da Antuérpia, em colaboração com a equipe da Mapi RWE. Os autores gostariam de expressar sua gratidão aos PdS belgas pela sua participação


Este artigo é traduzido pela Elsevier e distribuída com o suporte da Sanofi Medley Farmacêutica Ltda.

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