INTRODUÇÃO 
Atualmente, bilhões de pessoas em todo o mundo estão confinadas em suas casas para limitar a propagação da COVID-19. Estudos anteriores já mostraram que a quarentena imposta às pessoas potencialmente expostas a uma doença contagiosa pode levar a efeitos psicológicos negativos, incluindo sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva. Essa situação também pode atrapalhar o sono, que é crucial para a manutenção do sistema imunológico e contribui profundamente para a saúde física e psicológica.1

MÉTODOS 

Uma pesquisa on-line foi realizada com indivíduos maiores de 18 anos (n = 1.004) para avaliar as reações da população francesa ao lockdown devido à COVID-19. A pesquisa ocorreu de 31 de março a 2 de abril, 2 semanas após o lockdown ter sido implementado. No questionário foram utilizados itens para avaliar problemas de sono auto-relatados nos 8 dias anteriores à avaliação (Figura 1).1 
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Figura 1. Itens do questionário de sono. (Adaptado de Beck F et al., J Sleep Res 2020; e13119.1)

Associações entre os itens relacionados ao sono e as variáveis sociodemográficas e comparações entre pesquisas realizadas antes e depois do confinamento foram verificadas com o teste qui-quadrado de Pearson.1

RESULTADOS
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Figura 2. Características sociodemográficas e relato de COVID-19. (Adaptado de Beck F et al., J Sleep Res 2020; e13119.1)

Problemas para dormir nos últimos 8 dias
Quase 3/4 dos participantes desta pesquisa relataram problemas de sono durante os 8 dias anteriores (Figura 3). As mulheres e jovens (< 35 anos) tiveram uma frequência maior de problemas para dormir do que os homens e pessoas idosas (Figura 3).1
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Figura 3. Taxas de queixas de sono nos últimos 8 dias. *p < 0,05. (Adaptado de Beck F et al., J Sleep Res 2020; e13119.1)

Os problemas do sono foram significativamente mais prevalentes e graves entre os indivíduos no quartil de renda mais baixa (total: 82%, grave: 35%) do que no quartil de renda mais alta (total: 68%, grave: 16%) (p < 0,0001). Para 62% das pessoas que relataram problemas no sono, houve prejuízo nas atividades diárias. A prevalência desse comprometimento foi mais alto entre as famílias mais desfavorecidas (80%, p < 0,0001), os jovens (70%, p < 0,001) e os desempregados (68%, p = 0,04).1

Entre os pacientes com COVID-19, 89% daqueles com doença confirmada por PCR (52% grave) e 81% daqueles com suspeita de COVID-19 (15% grave) relataram problemas de sono.1

Medicações para dormir nos últimos 12 meses
O uso de medicamentos para dormir nos últimos 12 meses foi relatado por 16% dos entrevistados, com maior frequência por mulheres do que homens (18% versus 13%, p = 0,02); (Figura 4). Entre os 10% dos participantes com COVID-19, 60% daqueles com doença confirmada por PCR e 20% daqueles com suspeita relataram tomar medicações.1
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Figura 4. Uso de medicações para dormir. *p < 0,05. (Adaptado de Beck F et al., J Sleep Res 2020; e13119.1)

Problemas para dormir e uso de medicamentos para dormir desde o lockdown
Entre aqueles que relataram problemas de sono nos últimos 8 dias, 54% indicaram que esses problemas aumentaram desde o lockdown, sendo mais frequente em jovens (< 35 anos) (p = 0,02).1

Entre aqueles que tomaram medicações para dormir nos últimos 12 meses, 41% relataram tomá-las desde o início do lockdown: 32% para mulheres versus 46% para homens (p < 0,001) (Figura 4).1
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Figura 5. Piora dos problemas para dormir desde o lockdown. *p < 0,05. (Adaptado de Beck F et al., J Sleep Res 2020; e13119.1)

Comparação com o conjunto de dados de 2017
Em 2017, a taxa de problemas para dormir (durante os 8 dias anteriores ao preenchimento do questionário) na população em geral foi de 49%, significativamente inferior à taxa de 74% desta pesquisa (p < 0,0001). Em relação aos indivíduos mais jovens (18 a 34 anos), em 2017 a taxa de reclamações foi de 43%, em comparação com 79% no presente estudo (p < 0,0001) (Figura 6).1
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Figura 6. Comparação dos dados de 2017 e durante o lockdown das taxas de queixas de sono nos 8 dias anteriores. (Adaptado de Beck F et al., J Sleep Res 2020; e13119.1)

DISCUSSÃO 
Contrariamente às observações anteriores na população em geral, os jovens relataram a maior taxa de problemas de sono. Esse achado sugere que os jovens podem ser mais vulneráveis às condições de confinamento e/ou crises de saúde, seja pelo isolamento resultante do distanciamento social ou pelas conseqüências econômicas, principalmente para pessoas com empregos precários.1

Pessoas desfavorecidas apresentaram maior propensão a sofrer de problemas de sono. É sabido que lidar com desastres pode ser mais difícil para essa categoria do que para os mais ricos, uma vez que ter capital social mais alto é um fator protetor contra as consequências traumáticas, além de estar associado a uma melhor qualidade do sono por reduzir a ansiedade e o estresse.1

Devido ao isolamento que a maioria das pessoas enfrenta desde o início do lockdown, os medicamentos hipnóticos e/ou ansiolíticos podem parecer a solução mais acessível. Além disso, profissionais da saúde e psiquiatras podem ter sido mais propensos a receitar essas medicações. Dessa forma, é preciso um acompanhamento médico cuidadoso dessas pessoas para evitar o consumo prolongado (e cada vez mais ineficaz) de medicamentos para dormir.1

Os achados potencialmente importantes (de um pequeno número de casos) são as taxas muito altas de pacientes confirmados por PCR (89% no total, 52% graves) e suspeitos de COVID-19 (81% no total, 15% graves) que relataram problemas de sono. Múltiplas hipóteses podem explicar a lógica dessa associação, como febre, estresse e ansiedade.1

Além das questões de saúde pública diretamente ligadas à COVID-19, os autores sugerem que a rápida detecção e prevenção de distúrbios do sono seja importante, uma vez que podem ser considerados um primeiro sinal de transtorno psiquiátrico, como ansiedade, depressão ou pensamentos suicidas, e também são deletérios para a prevenção e recuperação da COVID-19.1

CONCLUSÃO
Os resultados sugerem que a crise de saúde gerada pela COVID-19 está associada a problemas graves de sono na população francesa, especialmente entre os jovens e os mais desfavorecidos financeiramente. É provável que esse evento aumente profundamente as desigualdades sociais em saúde.1

REFERÊNCIAS

  1. Beck F, Léger D, Fressard L, Peretti-Watel P, Verger P, Coconel Group.

    Covid-19 health crisis and lockdown associated with high level of sleep complaints and hypnotic uptake at the population level.

    J Sleep Res 2020; e13119.