Introdução: Em 10 de abril de 2020, o Estado de Nova York tinha 180.458 casos de COVID-19 e 9.385 mortes relatadas, sendo que pacientes com câncer constituíam 8,4% dos falecidos. Estudos baseados na população da China e da Itália já sugeriam uma maior taxa de mortalidade por COVID-19 em pacientes com câncer. Este estudo traz dados epidemiológicos da COVID-19 num centro terciário de tratamento de câncer durante o auge da incidência de casos na cidade de Nova York e os fatores de risco para infecção grave pertinentes aos pacientes com câncer.1

 

Métodos: Foram incluídos casos consecutivos de pacientes adultos e pediátricos com câncer e com infecção por SARS-CoV-2 sintomática e confirmada por laboratório, acompanhados no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, entre 10 de março e 7 de abril de 2020. Outros 30 pacientes assintomáticos que foram testados antes da cirurgia ou antes do recebimento de regimes quimioterápicos mieloablativos também foram selecionados. A identificação dos pacientes, seu histórico médico e curso clínico da COVID-19 foram extraídas dos prontuários eletrônicos. A população do estudo foi composta por 423 pacientes, com um período de acompanhamento de pelo menos 30 dias ou até o óbito. Os fatores de risco para hospitalização e para o desenvolvimento de doença respiratória grave foram avaliados por regressão logística.1

 

Resultados: 56% dos pacientes eram adultos acima de 60 anos. Em relação aos tipos de tumor, 56% dos casos eram tumores sólidos metastáticos e, dentre as neoplasias hematológicas, a mais comum foi o linfoma (11%). Mais da metade (59%) dos indivíduos apresentava pelo menos uma das seguintes comorbidades: diabetes, hipertensão, doença renal crônica e/ou cardiopatia.1 

 

Tipos de câncer nos pacientes (com COVID-19 confirmada) incluídos neste estudo:1

 
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Figura 1. Tipos de neoplasias entre pacientes com diagnóstico de câncer e COVID-19 incluídos neste estudo (n = 423). Em pacientes com múltiplas neoplasias, a mais ativa e tratada recentemente foi usada para definir o câncer subjacente. (Adaptado de  Robilotti EV et al, Nat Med 2020.1)

 

Os sintomas mais comuns foram:1

  • Tosse (82%);
  • Febre (78%);
  • Falta de ar (44%);
  • Diarreia (26%).

Evolução clínica:1

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Figura 2. Desfechos observados em pacientes com diagnóstico de câncer e COVID-19. (Adaptado de Robilotti EV et al. Nat Med; 2020.1)

 

Em 7 pacientes pediátricos a doença foi leve e sem complicações.1

 

Foi realizada análise multivariada para avaliar fatores de risco independentemente associados a alguns desfechos, como descrito em seguida.1

 

Fatores de risco associados independentemente à hospitalização (Tabela 1):1 

  • Raça não branca,
  • Malignidade hematológica,
  • Linfopenia crônica e/ou uso de corticoide,
  • Imunoterapia com inibidores de checkpoint.

Fatores de risco para doença respiratória grave devido à COVID-19 (Tabela 1):1

  • Idade superior a 65 anos,
  • Imunoterapia com inibidores de checkpoint.

 

Tabela 1. Fatores de risco associados à hospitalização e doença respiratória grave devido à COVID-19.

 
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DPOC = Doença pulmonar obstrutiva crônica. (Adaptado de Robilotti EV et al. Nat Med; 2020.1)

 

Um achado novo no estudo é a associação da imunoterapia com inibidores de checkpoint como fator de risco para desfechos graves, independente da idade, tipo de câncer e outras comorbidades. Embora tenha sido observado evolução mais grave em pacientes com câncer de pulmão em uso de inibidores de checkpoint, pacientes com outros tipos de tumores sólidos que foram tratados com essa classe terapêutica também demonstraram maior frequência de desfechos graves (Figura 3).1 

Idade superior a 65 anos e imunoterapia com inibidores de checkpoint são preditores de evolução grave da COVID-19 em pacientes com câncer.1

Possíveis explicações para essa observação são uma exacerbação da lesão pulmonar relacionada aos inibidores de checkpoint ou uma desregulação imune desencadeada pelo tratamento com hiperativação de células T, o que por sua vez pode facilitar a síndrome do desconforto respiratório agudo, uma temida complicação da COVID-19. As descobertas neste estudo devem ser interpretadas com cautela devido às limitações dos dados na avaliação de risco específico das neoplasias.1
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Figura 3. Desfechos de pacientes com diagnóstico de tumor sólido (pulmão versus não pulmão) em tratamento com e sem imunoterapia com inibidores de checkpoint (n = 275). (Adaptado de Robilotti EV et al. Nat Med; 2020.1)

 

Conclusões: A imunoterapia com inibidores de checkpoint é um preditor de hospitalização e evolução grave da doença. Além disso, idade superior a 65 anos também está relacionada ao desenvolvimento de doença respiratória grave. Em geral, pacientes com câncer apresentam taxas de hospitalização mais altas e maior chance de evolução mais grave da COVID-19.1

REFERÊNCIAS

  1. Robilotti EV, Babady NE, Mead PA, et al.

    Determinants of COVID-19 disease severity in patients with cancer.

    Nat Med; 2020. http://dx.doi.org/10.1038/s41591-020-0979-0