Após o diagnóstico da doença de Fabry, quantos familiares desse paciente podem ter a mesma doença? Essa foi a questão levantada pelos pesquisadores que desenvolveram uma análise familiar dos pacientes com doença de Fabry com o objetivo de reduzir o tempo para o diagnóstico desses familiares e obter os benefícios do diagnóstico precoce.1-3

A miríade de manifestações e o largo espectro de apresentação clínica da doença de Fabry, somados a sua raridade e ao desconhecimento de sua história natural por boa parte dos profissionais de saúde, fazem com que seu diagnóstico seja frequentemente tardio.1,2 Entre os homens, o diagnóstico é feito, em média, aos 29 anos de idade e dez anos após o início dos sintomas.2 O tempo até o diagnóstico é ainda maior entre as mulheres, em média de 16,3 anos após o início dos sintomas.4 O diagnóstico inicial de um paciente com doença de Fabry, chamado de caso-índice, traz a oportunidade de diagnóstico precoce através da triagem familiar.5 Para tal, deve-se identificar os membros da família em risco de ter herdado a mutação através da investigação das manifestações clínicas da doença de Fabry e da história familiar detalhada, levando-se em conta o padrão de herança ligado ao cromossomo X.5 

O estudo de Laney et al.6, publicado no Journal of Genetic Counseling em 2008, é um dos pioneiros a demonstrar o número médio de membros da família que podem receber diagnóstico da doença de Fabry através da triagem familiar.6 Foram identificados 75 casos-índices, dos quais 54 (72%) eram homens e 21 (28%) mulheres.6 Um total de 373 familiares dos casos-índices, dos quais 148 (40%) homens e 225 (60%) mulheres, recebeu diagnóstico de doença de Fabry.6 A análise do heredograma permitiu identificar, em média, cinco familiares com doença de Fabry por caso-índice.6 O número de familiares mulheres com doença de Fabry foi aproximadamente o dobro do de homens, o que reflete o padrão de herança ligado ao cromossomo X.6 (Figura 1) Os autores consideraram que, tendo-se como base a incidência tradicional de 1:40.000 entre os homens,2 a incidência da doença de Fabry entre as mulheres pode ser estimada em 1:20.000.6 

Figura 1. Número de casos-índices e de familiares identificados após a triagem de acordo com o gênero 
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Modificada de: Laney DA, et al. J Genet Couns. 2008;17(1):79-83.4

O estudo de Laney et al.6 demonstra, com clareza, que a triagem familiar é uma abordagem eficiente no diagnóstico da doença de Fabry em familiares de casos-índices em risco de ter herdado a mutação.6 O estudo ensina algumas lições importantes que merecem ser destacadas. Primeiramente, o profissional de saúde, mesmo que não seja geneticista, deve obter a história familiar detalhada de cada paciente com diagnóstico de doença de Fabry.6 Quando necessário, o apoio do geneticista pode assegurar que a avaliação da história familiar e a construção do heredograma serão feitas de forma adequada.6 Além disso, a investigação da doença de Fabry deve ser realizada em todos os membros da família, independentemente do gênero, em risco de ter herdado a mutação.6 Finalmente, a estratégia da triagem familiar para diagnosticar a doença de Fabry pode potencialmente: (i) diminuir o tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico; (ii) eliminar a odisseia diagnóstica de várias consultas médicas, de diagnósticos e tratamentos errôneos; e (iii) oferecer a possibilidade de, quando isso for indicado, iniciar o tratamento mais precocemente.6 

REFERÊNCIAS

  1. Germain DP. Fabry disease.

    Orphanet J Rare Dis.

    2010;5:30. 

  2. Desnick RJ, Brady R, Barragen J, Collins AJ, Germain DP, Goldman M, et al.

    Fabry disease, an underrecognized multisystemic disorder: Expert recommendations for diagnosis, management, and enzyme replacement therapy. Annals of Internal Medicine.

    2003;138(4):338-46. 

  3. MacDermot KD, Holmes A, Miners A. 

    Anderson-Fabry disease: clinical manifestations and impact of disease in a cohort of 60 obligate carrier females.

    J Med Genet. 2001;38:769-75.

  4. Deegan P, Baehner AF, Barba-Romero MA, Hughes D, C Kampmann, M Beck.

    Natural history of Fabry disease in females in the Fabry Outcome Survey.

    J Med Genet. 2006;43(4):347-52. 

  5. Bennett RL, Hart KA, O’Rourke EO, Barragen JA, Johnson J, MacDermot KD, et al.

    Fabry disease in genetic counseling practice: recommendations of the National Society of Genetic Counselors.

    J Genet Couns. 2002;11(2):121-46. 

  6. Laney DA, Fernhoff PM.

    Diagnosis of Fabry disease via analysis of family history.

    J Genet Couns. 2008;17(1):79-83.