No dia a dia do consultório costumamos indicar a prática de exercícios físicos para todos os nossos pacientes. No entanto, muitos dos casos atendidos são justamente lesões ocorridas durante a prática esportiva. Essa aparente contradição ocorre por dois simples motivos: nem todos os exercícios são iguais e nem todos os joelhos são iguais. Pode-se imaginar, então, que é impossível uma orientação universal e única. Porém, existem conceitos básicos que podem ser aplicados a todos os pacientes, e discutiremos alguns a seguir.

O primeiro conceito básico é o de que a cartilagem, principal tecido articular, precisa de frequentes estímulos mecânicos de intensidade moderada para ter saúde.1 Diversos estudos demonstram que estímulos mecânicos de alta energia (ou ainda insultos repetitivos de baixa energia) causam excesso de produção de espécies reativas de oxigênio, levando a estresse oxidativo, à morte celular e à inflamação articular.1 Outros estudos demonstram ainda que a falta de estímulos mecânicos, com restrição de movimento ou de carga, também levam à degradação articular.2 Ou seja, o ideal é ficar no meio-termo: estímulos frequentes, porém pouco traumáticos. 
Sabe-se hoje que o condrócito liga-se à matriz extracelular através de proteínas sensíveis a forças de compressão e cisalhamento capazes de converter um estímulo mecânico em sinal eletroquímico.3 Elas são conhecidas como integrinas ou proteínas transmembrana, verdadeiros sensores celulares que trazem informações sobre o que está ocorrendo no meio extracelular.3,4 Assim, o movimento articular mantém o equilíbrio do metabolismo dos condrócitos e de suas mitocôndrias. Pouca carga ou pouco estímulo mecânico leva a uma baixa atividade mitocondrial, baixa produção de trifosfato de adenosina (ATP) e baixa produção de matriz, cujas consequências são a degeneração da cartilagem, a dor e a sensação de rigidez.1-4 Estímulo excessivo causa exacerbado estresse oxidativo e morte celular.5 O funcionamento celular adequado, portanto, é estimulado por cargas mecânicas moderadas/fisiológicas.6 É por isso que atualmente a literatura recomenda a prática frequente de exercícios de intensidade moderada para promover a saúde articular.6 Para quem já tem artrose no joelho, devemos estimular atividade física como andar de bicicleta, fazer caminhada, ioga e natação.6 Exercícios como corrida, futebol, voleibol e basquetebol não são adequados para quem já tem artrose estabelecida.6 
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Figura 1. Exercícios recomendados e não adequados para pacientes com AO (osteoartrite) Adaptada de: Mobasheri A, et al. Ann Phys Rehabil Med. 2016;59(5-6):333-9.6

Quem não tem doença articular e deseja proteger os joelhos contra futuras lesões também pode adotar algumas estratégias, já que certamente a maneira mais eficiente de combater a doença articular é evitar que ela se desenvolva. Se no joelho existe uma lesão capital para o desenvolvimento de alterações degenerativas e artrose, essa lesão é a do ligamento cruzado anterior (LCA).7 Já é bem estabelecido que o joelho com lesão do LCA evolui com muito mais chance para osteoartrite (OA), independentemente do tratamento oferecido.7 Assim, o mais eficaz é evitar a lesão desse ligamento. 

Um excelente exemplo de trabalho neuromuscular que pode e deve ser oferecido a todo e qualquer atleta que pratique esportes de alto risco para lesão do LCA é o programa FIFA 11+, criado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA)11

Estudos de alta qualidade demonstram que o treinamento neuromuscular regular pode diminuir o risco de lesão em até 88%.8,9 Esses treinamentos visam melhorar o controle motor do tronco e do quadril (além do membro inferior), diminuindo assim episódios de entorse.10 Um excelente exemplo de trabalho neuromuscular que pode e deve ser oferecido a todo e qualquer atleta que pratique esportes de alto risco para lesão do LCA é o programa FIFA 11+, criado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA).11 Trata-se de um programa de aquecimento completo, desenvolvido por um grupo internacional de especialistas e que tem por objetivo focar a redução da ocorrência de lesões entre jogadores de ambos os sexos, com idades a partir dos 14 anos.11 
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Figura 2. Jogador praticando prancha lateral

CONCLUSÃO


Alguns pacientes pensam, erroneamente, que ao não fazer exercícios estão protegendo os joelhos. Essa ideia é totalmente equivocada, já que é preciso estímulos mecânicos para manter o equilíbrio do metabolismo da cartilagem. Pode-se proteger os joelhos fazendo atividade esportiva de moderada intensidade com alta frequência. Para a prática de esportes mais competitivos, é importante fazer em paralelo um trabalho neuromuscular que inclua o fortalecimento e o ganho de controle motor da musculatura do tronco (“CORE”) e cintura do quadril, além do fortalecimento dos músculos dos membros inferiores.10 Em quem já tem artrose do joelho é recomendável preferir bicicleta e natação, em detrimento da corrida e futebol.6

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