INTRODUÇÃO 

A primeira série de casos de COVID-19, em Wuhan, relatou uma associação entre embolia pulmonar e a doença. Evidências emergentes mostram que além da pneumonia, a coagulopatia também é um achado comum nesses pacientes, especialmente em casos graves, frequentemente resultando em tromboembolismo venoso (TEV). Análises retrospectivas observaram altas taxas de TEV, presente em até 60% dos pacientes infectados com quadros graves. A associação entre o grau de coagulopatia e a gravidade da doença sugere que a inflamação exacerbada e a hipoxemia causem uma disfunção endotelial com consequente aumento do risco de trombose.1  

 

O dímero-D é um marcador laboratorial de tromboembolismo venoso e, mesmo sendo altamente sensível, também pode ocorrer em outros distúrbios, como nas infecções. Vários estudos relataram aumento de dímero-D nos casos graves da COVID-19 e sua associação com piores prognósticos.1 

 

OBJETIVO
Avaliar a taxa de TEV em uma coorte de pacientes internados com suspeita de COVID-19, analisar e associar os níveis de dímero-D com o curso da doença.1 


MÉTODOS
 
Estudo prospectivo de centro único que avaliou 190 pacientes com suspeita de COVID-19 admitidos no pronto-socorro por um período de 30 dias, entre março e abril de 2020. Aqueles com teste PCR positivo para SARS-CoV-2 foram alocados ao grupo “positivo”, enquanto pacientes com teste de PCR negativo foram incluídos no grupo “negativo”. Outros exames laboratoriais foram solicitados para criar um perfil de biomarcadores de todos os participantes do estudo no momento da admissão hospitalar. A gravidade da doença foi avaliada pelo escore de avaliação sequencial de falência de órgãos (SOFA, Sequential Organ Failure Assessment).1 

 

O desfecho primário foi a ocorrência de eventos tromboembólicos venosos. E os desfechos secundários foram o tempo de permanência no hospital / UTI, período de ventilação mecânica e a correlação com os níveis de dímero-D.1


RESULTADOS

-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/07/taxa-de-tromboembolismo-venoso-em-uma-coorte-prospectiva-com-covid-19/Fig1-Mat2-Sem4-tromboembolismo-covid.ashx?w=1836&hash=1242F0E849C1D354DA59F008F0E70DE1
Figura 1. Características dos pacientes admitidos no pronto-socorro. (Figura adaptada de Rieder M et al. J Thromb Thrombolysis. 2020;1-9.1)
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/07/taxa-de-tromboembolismo-venoso-em-uma-coorte-prospectiva-com-covid-19/Fig2-Mat2-Sem4-tromboembolismo-covid.ashx?w=1836&hash=C0716C2D57A2955D2AF3ED876834282D
Figura 2. Dados do acompanhamento dos pacientes após a admissão hospitalar. (Figura adaptada de Rieder M et al. J Thromb Thrombolysis. 2020;1-9.1)

Foram analisados os seguintes fatores de risco para o desenvolvimento de TEV:1
  • Índice de massa corporal (IMC).
  • Tabagismo.
  • Doença oncológica diagnosticada previamente.
  • TEV prévio.
Não houve diferença significativa em nenhum desses parâmetros, indicando um risco trombótico comparável nos dois grupos. Além disso, não houve diferença estatisticamente significativa na anticoagulação preexistente.1

Dímero-D:
Os níveis do dímero-D na admissão e o nível máximo deste marcador durante o acompanhamento não diferiram entre os dois grupos.1 

Foram encontradas algumas correlações entre os níveis de dímero-D e parâmetros da internação, como descrito abaixo.1

Para os pacientes SARS-Cov-2 negativo, os valores de dímero-D na admissão se correlacionaram com:1
  • Tempo de permanência hospitalar (r=0,631; p <0,001).
Para os pacientes SARS-Cov-2 positivo, os valores máximos de dímero-D durante o acompanhamento de 30 dias dos casos se correlacionaram com:1
  • Tempo de permanência hospitalar (r=0,398; p <0,029).
  • Tempo de permanência na UTI (r=0,550; p=0,002).
  • Tempo em ventilação invasiva (r=0,439; p=0,015).

DISCUSSÃO

Curiosamente, mais de 10% de todos os participantes positivos foram inicialmente negativos, mas refizeram o teste de SARS-CoV-2 devido a persistência dos sintomas. Isso reforça a indicação da repetição dos testes quando o resultado do PCR for inicialmente negativo em pacientes com suspeita clínica de COVID-19.1
No grupo positivo, a taxa de TEV foi numericamente maior (6,1% versus 3,5%), porém a diferença não foi estatisticamente significativa. Além disso, neste grupo, os níveis de dímero-D na admissão não foram correlacionados com a permanência hospitalar, tempo na UTI ou dias de ventilação mecânica, contrariando estudos anteriores. Já o nível máximo de dímero-D registrado durante o estudo correlacionou-se significativamente com a permanência hospitalar, tempo na UTI e dias na ventilação invasiva no grupo positivo, concordando com estudos anteriores que mostraram aumento deste marcador em pacientes graves hospitalizados com COVID-19.1

Estudos anteriores relataram um aumento da incidência de tromboembolismo venoso (TEV) na COVID-19. Neste registro prospectivo, a taxa de TEV foi numericamente maior em pacientes com COVID-19 em comparação com o grupo controle, porém a diferença não foi estatisticamente significativa. Também foi observado que o nível máximo de dímero-D durante o acompanhamento foi associado à gravidade da COVID-19.1

A mortalidade entre os grupos não diferiu.1

CONCLUSÕES
A taxa de TEV foi numericamente mais alta em pacientes testados positivos para SARS-CoV-2 em comparação com controles bem parecidos que apresentavam sintomas semelhantes. No entanto, a diferença não foi estatisticamente significativa. Os casos de TEV ocorreram predominantemente durante a internação na UTI.1 

O nível máximo de dímero-D no acompanhamento após a admissão hospitalar foi associado à gravidade da COVID-19. Essa correlação não foi observada com os valores desse marcador na admissão.1
 

REFERÊNCIAS

  1. Rieder M, Goller I, Jeserich M, et al.

    Rate of venous thromboembolism in a prospective all-comers cohort with COVID-19.

    J Thromb Thrombolysis. 2020;1-9. doi:10.1007/s11239-020-02202-8