A osteoartrite tem maior incidência entre os atletas e está relacionada ao esporte praticado 

A osteoartrite (OA) é a doença articular degenerativa mais comum e afeta mais de 60% dos adultos acima dos 50 anos de idade. Os principais fatores de risco de OA são idade avançada, lesões articulares e obesidade. Muitos indivíduos mais jovens, entretanto, desenvolvem OAs secundárias a lesões, muitas vezes relacionadas ao esporte. Apesar do amplo benefício da atividade física e da prática esportiva para a saúde, sabe-se que, em algumas situações, essas atividades podem estar relacionadas ao desenvolvimento de OA de joelho.1-5 

Os indivíduos que praticam esportes que submetem a articulação do joelho a altas cargas de impacto repetitivo em conjunto com movimentos rotacionais, como futebol, basquete, vôlei e rugby, entre outros, apresentam risco maior de desenvolver OA prematura. Esse risco é maior em atletas profissionais ou em atletas de elite.2 De acordo com alguns estudos, a prevalência de OA de joelho em ex-jogadores de futebol é de até 80%.

O desenvolvimento da OA em atletas de elite depende da interação de fatores biológicos e mecânicos, situação que pode ser agravada por traumas de articulação relacionados à atividade física e que aceleram o processo de degeneração articular.3

A atividade física intensa causa sobrecarga na cartilagem e pode gerar OA nos indivíduos predispostos 

Os atletas apresentam grandes níveis de sobrecarga na cartilagem articular. Com a utilização de ressonância magnética em mapa-T2, Waldenmeier et al. demonstraram, em 2018, aumento significativo do tempo de relaxamento em mapa-T2 na área de carga dos côndilos femorais em jogadores de futebol com média de idade de 16 anos.6 

Essas alterações demonstram que a sobrecarga articular ocorre precocemente no esporte de alta intensidade, e os indivíduos predispostos apresentam maior risco de desenvolver OA no médio e no longo prazo.6 

Durante suas atividades, os atletas de elite são submetidos a cargas cumulativas de exercícios intensos e de alto impacto, como corrida, saltos, dribles, passes, desaceleração, quedas e eventos traumáticos, e, com frequência, o tempo de recuperação é insuficiente. Podem ocorrer lesões eventuais que necessitarão de tratamento cirúrgico, principalmente as lesões ligamentares, meniscais e condrais no caso do joelho.4

A OA no atleta provavelmente se inicia com lesões condrais: maior incidência em atletas

Os atletas em atividade apresentam maior prevalência de lesões condrais. Em 2010, Flanigan et al. demonstraram, em uma revisão sistemática, que 36% dos atletas apresentavam lesões condrais profundas, que haviam acometido toda a espessura da cartilagem, enquanto, entre os pacientes da população geral com menos de 40 anos de idade, a prevalência dessas lesões era de 5%.

Nesse trabalho, havia outro dado importante: o de que 59% dos jogadores de basquete e dos corredores assintomáticos apresentavam lesões condrais profundas. Além disso, entre todos os indivíduos com lesões condrais incluídos na revisão, 14% eram assintomáticos.7 

O fato de que tais indivíduos estavam assintomáticos em determinado momento não significa que não haverá consequências. A cartilagem articular apresenta capacidade limitada de cicatrização e de regeneração, e essas alterações, associadas à sobrecarga e a outras lesões relacionadas ao esporte, podem progredir para OA no longo prazo.4
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/07/viscossuplementacao-em-atletas/Mulher-pula-corda.ashx?w=800&hash=B3FD55090523156483906087EC67FB8F
O desenvolvimento de OA em atletas depende de fatores mecânicos e biológicos 

Além da sobrecarga articular, relacionada ao maior desgaste da cartilagem, alterações mecânicas da articulação também estão envolvidas na OA entre os atletas. Em 2016, Salzmann et al. realizaram um estudo de revisão de OA de joelho em jogadores de futebol. Observaram que o risco relativo (RR) de OA entre esses atletas era bastante superior ao da população geral (RR: 2,9; IC de 95%: 2,0-4,1). Entretanto, quando foram excluídos os indivíduos que apresentavam antecedente de lesões graves de joelho, o RR se mostrou apenas um pouco maior que o da população geral (RR: 1,3; IC de 95%: 1,0-1,7).4 

Os autores concluíram que a prática do futebol per se não é responsável pelo aumento da incidência de OA, mas sim o acúmulo de lesões traumáticas ou por sobrecarga. Dessa forma, as sobrecargas articulares repetitivas acima de determinado limiar podem provocar lesões inicialmente silenciosas e assintomáticas, percebidas apenas em nível ultraestrutural. Quando ocorrem, porém, lesões traumáticas, as chances de desenvolvimento de OA se multiplicam.

As lesões de joelho mais comuns são as do menisco, do ligamento cruzado anterior (LCA) e da cartilagem articular. Em 2018, Cinque et al. publicaram um estudo que avaliou a incidência de artrite pós-traumática em indivíduos com lesão do LCA submetidos à cirurgia de reconstrução ligamentar. Observou-se incidência de 11% em cinco anos, de 20% em dez anos e de mais de 50% em vinte anos. O principal fator relacionado nesse estudo foi o tempo decorrido entre a lesão e o tratamento cirúrgico, uma vez que os indivíduos que demoraram mais de três anos para operar-se tiveram risco de desenvolvimento de OA quatro vezes maior que os operados nos primeiros seis meses após a lesão.8 

Outro fator relacionado ao desenvolvimento de OA nesses casos é a meniscectomia associada. Claes et al., em estudo que teve seguimento de dez anos e foi publicado em 2013, observaram incidência de OA de 16% nos pacientes com lesão do LCA não associada à meniscectomia e de 50% naqueles em que a lesão associava-se à meniscectomia (odds ratio: 3,54).
 
No caso dos atletas, portanto, é necessário agir preventivamente em relação à sobrecarga articular. Lesões graves como as de LCA, menisco e cartilagem devem ser tratadas da melhor maneira possível para evitar ou minimizar as alterações articulares degenerativas.

A osteoartrite (OA) é a doença articular degenerativa mais comum e afeta mais de 60% dos adultos acima dos 50 anos de idade.


A viscossuplementação pode ajudar a controlar os eventos biológicos que desencadeiam a OA 


Após uma lesão articular e nas fases iniciais da OA, são liberadas grandes quantidades de citocinas, como interleucina 1 (IL-1) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-, e fragmentos de matriz de colágeno da cartilagem (COMP e CTX-II). A presença dessas substâncias desencadeia um processo inflamatório com aumento da atividade de colagenase e de metaloproteinases (MMP), o que eleva o catabolismo articular.10

A viscossuplementação tem por objetivo a reposição ou a substituição do líquido sinovial saudável. Para ser eficaz, o viscossuplemento deve: a) ser biocompatível; b) ser permeável às macromoléculas; c) ter propriedades reológicas adequadas; e d) ter tempo adequado de residência articular. Com isso em mente, recomenda-se que o viscossuplemento tenha características mais próximas às do líquido sinovial saudável, sobretudo no caso dos indivíduos mais jovens e fisicamente ativos.1,2 O peso molecular do ácido hialurônico no líquido sinovial normal é de cerca de 6 KDa, com concentração de 2,5 a 4 mg/mL, similar às características do hilano G-F 20 (Synvisc®).11 Com isso há também aumento das propriedades viscoelásticas do viscossuplemento, tanto de lubrificação quanto de absorção de impacto.11 

Além das propriedades viscoelásticas, a viscossuplementação tem efeitos anti-inflamatórios, anabólicos e condroprotetores. Os efeitos anti-inflamatórios incluem redução dos níveis de prostaglandinas e leucotrienos, redução da expressão de IL-1 e de TNF- e redução da produção de óxido nítrico (NO). Demonstrou-se também que o ácido hialurônico aumenta a produção de inibidores de MMP-1, bloqueando a destruição da matriz extracelular causada por essa enzima.10 

Os efeitos anabólicos e condroprotetores incluem aumento da síntese de matriz extracelular, aumento da produção endógena de ácido hialurônico, aumento da síntese de colágeno tipo II e de proteoglicanos.10 Demonstrou-se que os pacientes com OA de joelho que receberam viscossuplementação de hilano G-F 20 apresentaram menor perda de cartilagem durante o seguimento (2,80%; IC de 95%: 0,90-4,70; p=0,005) em comparação com os indivíduos que não receberam o viscossuplemento.12 

A viscossuplementação é recomendada pela American Medical Society for Sports Medicine (AMSSM) no tratamento de OA.13 O objetivo do tratamento de OA em atletas é promover a continuidade da atividade física e a manutenção do desempenho esportivo e não seu impedimento.2 Com base no que foi exposto, novos estudos têm recomendado a viscossuplementação entre os atletas para minimizar ou interromper a progressão da degeneração da cartilagem articular.10 

CONCLUSÃO

Apesar dos amplos benefícios da atividade física e do esporte para a saúde em geral, os atletas de alto desempenho ou profissionais apresentam maior risco de desenvolvimento de OA de joelho, principalmente quando sua atividade envolve impactos repetidos e movimentos rotacionais.4 

Além da sobrecarga na cartilagem articular, a presença de lesões associadas, como as ligamentares ou as meniscais, multiplica o risco de desenvolvimento de OA.4

No caso desses pacientes, o tratamento adequado das condições mecânicas e biológicas que predispõem à OA é fundamental na preservação da cartilagem articular.1,10,11,13

A viscossuplementação é uma terapia recomendada em termos de OA e tem sido cada vez mais estudada em casos precoces na prevenção da evolução da degeneração articular.1,10,11,13

REFERÊNCIAS

  1. Vad VB, Bhat AL.

    The athlete with early knee arthritis.

    Phys Med Rehabil Clin N Am. 2000;11(4):881-94.

  2. Vad V, Hong HM, Zazzali M, Agi N, Basrai D.

    Exercise recommendations in athletes with early osteoarthritis of the knee.

    Sports Med. 2002;32(11):729-39.

  3. Gouttebarge V, Inklaar H, Backx F, Kerkhoffs G.

    Prevalence of osteoarthritis in former elite athletes: a systematic overview of the recent literature.

    Rheumatol Int. 2015;35(3):405-18.

  4. Salzmann GM, Preiss S, Zenobi-Wong M, Harder LP, Maier D, Dvorak J.

    Osteoarthritis in football.

    Cartilage. 2016;8(2):162-72.

  5. Timmins KA, Leech RD, Batt ME, Edwards KL.

    Running and knee osteoarthritis: a systematic review and meta-analysis.

    Am J Sports Med. 2017;45(6):1447-1457.

  6. Waldenmeier L, Evers C, Uder M, Janka R, Hennig FF, Pachowsky ML, et al.

    Using cartilage MRI T2-mapping to analyze early cartilage degeneration in the knee joint of young professional soccer players.

    Cartilage. 2018;19476035187569867.

  7. Flanigan D, Harris J, Trinh T, Siston R, Brophy R.

    Prevalence of chondral defects in athletes’ knees.

    Med Sci Sports Exerc. 2010;42(10):1795-801.

  8. Cinque ME, Dornan GJ, Chahla J, Moatshe G, LaPrade RF.

    High rates of osteoarthritis develop after anterior cruciate ligament surgery: an analysis of 4108 patients. Am J Sports Med.

    2018;46(8):2011-2019.

  9. Claes S, Hermie L, Verdonk R, Bellemans J, Verdonk P.

    Is osteoarthritis an inevitable consequence of anterior cruciate ligament reconstruction? A meta-analysis.

    Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc Springer. 2013;21(9):1967-76.

  10. Jazrawi LM, Rosen J.

    Intra-articular hyaluronic acid: potential treatment of younger patients with knee injury and/or post-traumatic arthritis.

    Phys Sportsmed. 2011;39(2):107-13.

  11. Axe JM, Snyder-Mackler L, Axe MJ.

    The role of viscosupplementation.

    Sports Med Arthrosc. 2013;21(1):18-22.

  12. Gallagher B, Tjoumakaris FP, Harwood MI, Good RP, Ciccotti MG, Freedman KB.

    Chondroprotection and the prevention of osteoarthritis progression of the knee: a systematic review of treatment agents.

    Am J Sports Med. 2015;43(3):734-44.

  13. Trojian TH, Concoff AL, Joy SM, Hatzenbuehler JR, Saulsberry WJ, Coleman CI.

    AMSSM scientific statement concerning viscosupplementation injections for knee osteoarthritis: importance for individual patient outcomes.

    Clin J Sport Med. 2016;26(1):1-11.