INTRODUÇÃO 

O surto da nova infecção respiratória aguda grave (SARI) causada pelo vírus SARS-CoV-2 (doença nomeada de COVID-19) foi declarado uma emergência internacional de saúde pública pela Organização Mundial de Saúde em 30 de janeiro 2020, e pelo Brasil em 3 de Fevereiro de 2020. O país relatou seu primeiro caso confirmado em 25 de fevereiro de 2020, em um viajante voltando para São Paulo do norte da Itália. Essa tem sido a epidemia com crescimento mais rápido no mundo, sendo que a América Latina e Caribe (até 14 de julho de 2020) compreendem mais de 55% do número total de casos notificados. O objetivo deste estudo foi contextualizar o cenário da epidemia no Brasil comparando a dinâmica de transmissão local com aquelas observadas em outros países selecionados.1

RESULTADOS

Contextualizando os sistemas de notificação de dados sobre COVID-19 
Em 22 de janeiro de 2020 - mais de 1 mês antes do primeiro caso - o Ministério da Saúde  implementou uma plataforma para notificação dos casos suspeitos, confirmados ou não, como parte de uma resposta inicial à pandemia. Casos leves da COVID-19 têm sido notificados no e-SUS Vigilância Epidemiológica (e-SUS-VE - https://notifica.saude.gov.br/login), novo sistema nacional de notificação, enquanto que os casos de hospitalização por COVID-19 têm sido registrados em um sistema pré-existente de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe). O sistema SIVEP-Gripe está em uso desde 2009 (tendo sido implementado em resposta ao influenza H1N1) e, desde então, centralizou as notificações de infecções respiratórias virais e SARI para o Ministério da Saúde. Ambos e-SUS-VE e SIVEP-Gripe incluem suspeitas e casos confirmados da COVID-19. Os dois sistemas de relatórios estão inter-relacionados no Portal da COVID-19 (https://covid.saude.gov.br/), que resume diariamente as contagens agregadas de ambas as plataformas.1

Relatórios do SARS-CoV-2
Foram analisados um total de 514.200 casos de SARS-CoV-2 confirmados por diagnóstico molecular e critérios clínicos no Portal da COVID-19 até dia 31 de maio de 2020. Os casos foram notificados em 75,3% dos municípios (4.196 de 5.570) em todas as cinco regiões administrativas do Brasil, incluindo 206.555 (40,2%) pacientes recuperados e 29.314 casos fatais (17,5%) (Fig. 1).1
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Figura 1. Número de casos da COVID-19 (linha contínua azul) e óbitos (linha tracejada azul) relatados ao Ministério da Saúde (Portal da COVID-19), juntamente com números de casos por COVID-19 (linha sólida de salmão) e por SARIs com etiologia desconhecida (salmão linha tracejada) relatado ao banco de dados SIVEP-gripe. (Adaptado de de Souza WM, et al. Nat Hum Behav. 2020;4(8):856-865.1)

Comparação entre os números básicos de reprodução do Brasil (R0) e de outros países
Para estimar o número básico de reprodução (R0) do SARS-CoV-2 no Brasil, o estudo compilou o número de casos confirmados diariamente pelo Ministério da Saúde em São Paulo, Rio de Estados de Janeiro, Ceará e Amazonas. A comparação foi realizada com vários países europeus por meio dos dados do Johns Hopkins Coronavirus Resource Center (https://coronavirus.jhu.edu/).1

Em escala nacional, o R0 estimado para o Brasil foi ligeiramente superior ao R0 estimados para outros países gravemente afetados pela epidemia (Fig. 2):1
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Figura 2. Valores estimados de R0 para o Brasil 4 países selecionados. (Adaptado de de Souza WM, et al. Nat Hum Behav. 2020;4(8):856-865.1)

SARIs refletem a maioria dos casos de suspeita da COVID-19. 
Na fase inicial da epidemia no Brasil, os autores analisaram os dados de outros patógenos respiratórios testados pelos Laboratórios Centrais de Saúde Pública e Centros Nacionais de Influenza (Ministério da Saúde do Brasil). O sistema SIVEP-Gripe passou a notificar internação dos casos da COVID-19 no início de março de 2020 (semana epidemiológica 10) (Fig. 3). Descobriu-se que o pico de casos confirmados de influenza (n = 447) ocorreu na semana epidemiológica 12 (15-21 de março de 2020). Durante o mesmo período, foi possível identificar um aumento de 8,5 vezes no total de casos atribuídos ao SARS-CoV-2 (n = 3.789) e, interessantemente, um aumento de 9,9 vezes no total de casos relatados como SARI com etiologia desconhecida (n = 4.424) (Fig. 3). De 2 de janeiro a 31 de maio de 2020, um total de 2.136 casos de gripe e 272 casos causados por outros patógenos respiratórios, incluindo o vírus sincicial respiratório, rinovírus humano, adenovírus e metapneumovírus humano, foram relatados no banco de dados SIVEP-Gripe.1
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Figura 3. Dados sobre COVID-19, SARI com etiologia desconhecida e gripe. As linhas vermelha e laranja indicam casos relatados em 2020 (vermelho contínua, COVID-19; laranja contínua, gripe; vermelho tracejado, SARI com etiologia desconhecido). As linhas azuis indicam casos relatados em 2016 para influenza (linha azul contínua) e SARI com etiologia desconhecida (linha azul tracejada). As linhas cinzas indicam influenza (linha contínua) e casos de SARI com etiologia desconhecida (linha tracejada) para os anos de 2017, 2018 e 2019 combinados. (Adaptado de de Souza WM, et al. Nat Hum Behav. 2020;4(8):856-865.1)

Demografia e características de pacientes hospitalizados e dos casos fatais no Brasil. 
A análise de 67.180 casos do sistema SIVEP-Gripe revelou uma alta proporção (65,5%) de infecções em indivíduos com no mínimo 50 anos e uma proporção inferior (2,2%) em grupos de idade mais jovem (≤20 anos de idade) (Fig. 4). A idade mediana foi de 59 anos (44-72) e a maioria (57,5%) do sexo masculino. Entre os óbitos, 59% eram homens e 85% tinham idade ≥50 anos. Um total de 2,95% dos casos foram notificados como transmissão nosocomial, definida como COVID-19 adquirida após a hospitalização por qualquer motivo.
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Figura 4. Número de pacientes com COVID-19 em andamento, ou que se recuperaram ou morreram da doença, por idade e sexo. Os casos em andamento foram aqueles ainda ativos no banco de dados do SIVEP-Gripe e sem evolução clínica registrada (óbito ou recuperação). (Adaptado de de Souza WM, et al. Nat Hum Behav. 2020;4(8):856-865.1)

Em 31 de maio de 2020, 91% dos pacientes com COVID-19 notificados no sistema SIVEP-Gripe haviam sido hospitalizados. Destes, 30,3% foram internados em unidade de terapia intensiva (UTI). O tempo médio de permanência na UTI foi de 5 dias (2–10). A maioria dos sintomas relatados foram tosse (85,2%), febre (79,6%) e dispneia (76,6%). Além disso, 68% tiveram hipóxia (saturação de O2 <95%), refletindo a gravidade geral dos casos relatados no SIVEP-Gripe (conforme mostrado na Fig. 1). As comorbidades mais prevalentes nesta população foram doenças cardiovasculares (66,5%) e diabetes (54,5%). Um total de 83,7% dos indivíduos com COVID-19 tinham pelo menos uma comorbidade (Fig.6).1

O número básico de reprodução (R0) do SARS-CoV-2 no Brasil foi estimado em 3,1, ligeiramente superior ao R0 de outros países gravemente afetados pela epidemia. Além do aumento no total de casos atribuídos ao SARS-CoV-2, interessantemente, houve um aumento de 9,9 vezes no total de casos relatados como SARI com etiologia desconhecida, que podem refletir casos suspeitos de COVID-19.1

 

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Figura 6. Comorbidades entre os casos confirmados de COVID-19 de acordo com a idade e desfecho (n = 15.720 casos confirmados com informações completas de comorbidade e desfecho (óbito ou recuperação); n = 19.409 casos confirmados com informações completas sobre comorbidades e admissão na UTI). Os eixos horizontais mostram a proporção de pacientes em cada idade/desfecho estratificada para cada uma das comorbidades registradas. (Adaptado de de Souza WM, et al. Nat Hum Behav. 2020;4(8):856-865.1)

DISCUSSÃO

O estudo observou uma rápida disseminação da COVID-19 pelo país, com municípios de maior população sendo afetados mais cedo e municípios menos populosos afetados em estágio posterior da epidemia. Os resultados fornecem novos insights sobre a epidemia brasileira e destaca o alto potencial de transmissão do SARS-CoV-2 no país, assim como o papel de seus grandes centros urbanos. A falta de lockdown na fase precoce, os desafios na geração de relatórios e acesso não equitativo aos testes diagnósticos são apontados como fatores que possam ter contribuído potencialmente para a disseminação rápida e sustentada da epidemia. A recente estimativa do valor de R0 no início da epidemia de COVID-19 no Brasil sugere que um indivíduo infecta em média três outras pessoas. Apesar da transmissão do vírus ter caído substancialmente na maioria dos estados afetados, o número básico de reprodução (R0) permanece acima de 1, demonstrando que apenas a mitigação (e não a supressão) da epidemia foi alcançada até agora.1

Uma vigilância local mais próxima e a avaliação do impacto das medidas de controle na transmissão da COVID-19 ajudarão a determinar a melhor estratégia de mitigação para minimizar infecções e reduzir a demanda do sistema de saúde no Brasil.

Em conclusão, este estudo fornece um contexto importante para a triagem diagnóstica, planejamento dos cuidados de saúde e futuros estudos com foco nos impactos de intervenções farmacêuticas e não farmacêuticas.1

REFERÊNCIAS

  1. De Souza WM, Buss LF, Candido DDS, et al.

    Epidemiological and clinical characteristics of the COVID-19 epidemic in Brazil.

    Nat Hum Behav. 2020;4(8):856-865.