Desde a primeira identificação da bactéria Helicobacter pylori, em 1982, pelos australianos R. Warren e B. Marshall, esta vem sendo considerada como causa importante e relevante de gastrite crônica, úlcera péptica, dispepsia e câncer.1-3

A ocorrência de H. pylori consiste em infecção bacteriana crônica, que é muito frequente:1 estudos epidemiológicos estimam prevalência mundial ao redor de 50%. Em países em desenvolvimento, onde a maioria das crianças é infectada antes dos 10 anos de idade, a prevalência atinge 80% dos adultos antes dos 50 anos.1,4,5 Em nosso meio, as investigações epidemiológicas têm demonstrado prevalência elevada tanto nas regiões urbanas quanto nas rurais, principalmente quando as condições sanitárias e socioeconômicas são insatisfatórias.1,3

Paciente do sexo masculino, com 35 anos de idade, casado, brasileiro, técnico de computação, com queixa de dor epigástrica de fraca intensidade que ocorre há cerca de um ano, uma ou duas vezes por semana, principalmente no período pós-prandial e em situações de maior estresse. Nos últimos seis meses, a dor tornou-se mais intensa, acompanhada de desconforto epigástrico e náuseas frequentes. 

Tabagista. Taquifágico. Horários irregulares de alimentação. Estressado. 

Altura: 1,75 m; peso: 76 kg; PA: 120x70 mmHg; FC: 76 bpm; exame físico: nada digno de nota. 
O paciente foi submetido a endoscopia digestiva alta, que indicou gastrite crônica. (Figura 1) O exame de urease revelou-se positivo, confirmando-se a presença de H. pylori ao exame histopatológico, com hematoxilina-eosina, do fragmento gástrico.
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CONDUTA 

A. Orientação comportamental (comer devagar em horários regulares, suspender/evitar fumo, praticar atividade física, ter lazer etc.). 
B. Instituiu-se tratamento farmacológico (por 14 dias), conforme recomendação do IV Consenso Brasileiro sobre H. pylori:1
  • Inibidor da bomba protônica (dose plena).
  • Amoxicilina (1,0 g de 12/12h).
  • Claritromicina (500 mg de 12/12h).

RETORNO
 

Paciente sem queixas. O teste respiratório com ureia C-14 revelou-se negativo. 


IV CONSENSO BRASILEIRO SOBRE A INFECÇÃO POR HELICOBACTER PYLORI 


INTRODUÇÃO 


O Núcleo Brasileiro para Estudo do Helicobacter pylori e Microbiota reuniu-se em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, em agosto de 2017, para estabelecer os conceitos atuais da infecção.1 O evento incluiu 26 delegados de diversas regiões do Brasil e um convidado internacional.1 As conclusões, publicadas nos Arquivos de Gastroenterologia em 2018, constituem as normas atuais de conhecimento sobre a infecção bacteriana.1 

DESTAQUES

DIAGNÓSTICO

  • Para pacientes com indicação de endoscopia digestiva alta, recomenda-se a realização do teste de urease em fragmento de biópsia: apresenta especificidade e sensibilidade elevadas e é de fácil e rápida realização.1

  • O padrão-ouro, entretanto, é o método histológico porque, além de caracterizar a infecção pela bactéria, permite a avaliação morfológica das alterações da mucosa gástrica.1

  • Dentre os métodos não invasivos de exame da infecção por H. pylori, o teste respiratório de ureia 13C é considerado o padrão-ouro.1

  • A estratégia terapêutica de “testar e tratar” é recomendada para pacientes com dispepsia e idade <40 anos quando H. pylori não foi ainda diagnosticado e não há presença de sintomas de alarme.1

  • Os pacientes com dispepsia e presença de H. pylori devem ser submetidos a tratamento de erradicação.1

  • A primeira linha de tratamento consiste na prescrição de inibidor da bomba protônica mais amoxicilina e claritromicina por 14 dias.1 As alternativas incluem terapia quádrupla com bismuto por 10-14 dias.1

  • A resistência bacteriana é considerada o principal fator de resposta insatisfatória, particularmente a resistência à claritromicina.1 Não é, pois, recomendável a repetição do esquema tríplice.1

  • Nos casos de resposta insatisfatória à terapia tríplice com claritromicina ou à terapia quádrupla concomitante, a estratégia recomendada é a terapia tripla com levofloxacino ou a terapia quádrupla com bismuto, ambas por 10-14 dias.1

  • A terceira opção após a falência dos regimes anteriores é a terapia quádrupla com metronidazol (inibidor da bomba protônica mais bismuto mais tetraciclina e metronidazol).1

  • A não resposta terapêutica aos três tratamentos prévios é considerada exceção e deve ser analisada caso a caso, utilizando ferramentas genotípicas e fenotípicas para avaliação da suscetibilidade bacteriana.1

REFERÊNCIAS

  1. Coelho LGV, Marinho JR, Genta R, Ribeiro LT, Passos MCF, Zaterka S, et al.

    IV Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection.

    Arq Gastroenterol. 2018;55(2):97-121.

  2. Malfertheiner P, Megraud F, O’Morain CA, Gisbert JP, Kuipers EJ, Axon AT, et al.

    Management of helicobacter pylori infection − the Maastricht V-Florence Consensus Report.

    Gut. 2017;66(1):6-30.

  3. Crowe SE, Feldman M, Grover S.

    Bacteriology and epidemiology of Helicobacter pylori infection [acesso 1 dez 2019].

    Disponível: https://www.uptodate.com/contents/bacteriology-and-epidemiology-of-helicobacter-pylori-infection#H8.

  4. Navarro-Rodriguez T, Silva FM, Barbuti RC, Mattar R, Moraes-Filho JPP, de Oliveira MN, et al.

    Association of a probiotic to a Helicobacter pylori regimen does not increase efficacy or decreases the adverse events of the treatment: a prospective, randomized, double-blind, placebo-controlled study.

    BMC Gastroenterol. 2013;13:56.

  5. Coelho LG, Maguilnik I, Zaterka S, Parente JM, Passos MCF, Moraes-Filho JPP.

    3rd Brazilian Consensus on Helicobacter pylori.

    Arq Gastroenterol. 2013;50(2):81-96.