A osteoartrite (OA) tem impacto muito grande na saúde pública devido ao aumento do número de casos e às limitações que acarreta a quem sofre da doença.1 Encontrar um tratamento que possa trazer benefícios e, se possível, modificar a doença é o que todos esperamos.1 Ainda não dispomos de biomarcadores realmente úteis na avaliação da OA, o que tem dificultado o desenvolvimento de novas drogas.1 No entanto, temos a aplicação recente de sofisticada tecnologia de imagem para avaliar as mudanças estruturais das articulações osteoartríticas, o que nos oferece uma oportunidade de medir a progressão da patologia e algumas alterações da cartilagem articular.1

TÉCNICA dGEMRIC

Um desses exames é a ressonância magnética (RM) com gadolínio, que dispõe da técnica delayed gadolinium-enhanced MRI of cartilage (dGEMRIC) com mapeamento em T2.1 Esse protocolo dGEMRIC MRI é um método bastante útil na avaliação do conteúdo de glicosaminoglicano da cartilagem articular e do eventual reparo da cartilagem, com a vantagem de ser não invasivo.2 Quando vemos a ressonância, temos que ter em mente que a quantidade de gadolínio é inversamente proporcional à quantidade de glicosaminoglicano, ou seja, quanto menos glicosaminoglicano na articulação, maior a quantidade de gadolínio.2

COLÁGENO HIDROLISADO

O colágeno hidrolisado (CH) é um produto nutricional derivado de tecidos colágenos de animais.1,3 Compreende uma variedade de polipeptídeos (peptídeos, dipeptídeos, tripeptídeos) de pesos moleculares de 3 a 10 kDa.1,3,4 Depois de ingerido, o CH é prontamente absorvido no trato gastrointestinal, cai na corrente sanguínea e é distribuído para as várias partes do corpo.1,3,4 É dessa forma que chega às articulações, nas quais induz a síntese de mais colágeno tipo 2 e de proteoglicanos na matriz extracelular.1,3 É necessária uma dose mínima de colágeno para que esse efeito ocorra. 1,3 Uma variedade de relatórios clínicos e observacionais sugere que o CH pode diminuir os sintomas de OA.3-6
DELINEAMENTO DO ESTUDO

Para analisar o efeito na articulação do colágeno hidrolisado ingerido, foi delineado um estudo que usou a técnica dGEMRIC com o objetivo de avaliar a quantidade de glicosaminoglicano.1 Esse foi um estudo  ealizado em um único centro, prospectivo, randomizado, controlado com placebo, duplo-cego e com um “n” planejado de 30 participantes que tinham OA leve de joelho.1 O endpoint primário foi avaliado após 24 semanas, com a possibilidade de extensão adicional de 24 semanas.1 Os participantes eram indivíduos (homens e mulheres) de 49 anos de idade ou mais com OA de joelho de leve a moderada.1 Foram  selecionados aqueles que responderam afirmativamente em relação à presença de dor no joelho (“Nos últimos seis meses, você teve dor no joelho em mais da metade dos dias do mês?”).1 Foram avaliados pelo índice Western Ontario and McMaster Universities (WOMAC) e deveriam ter pelo menos um osteófito definido em incidência radiográfica em posteroanterior.1 Para obter a certeza de que o grupo de indivíduos tinha OA moderada, as radiografias deveriam mostrar a preservação relativa do espaço articular tibiofemoral, com distância de pelo menos 3 mm, segundo o critério do Colégio Americano de Reumatologia.1

Durante o estudo, os pacientes não poderiam usar agentes que supostamente tivessem efeitos na cartilagem articular (como glicosamina e condroitina) e deveriam manter um regime analgésico estável.1 Foram excluídos os indivíduos que relataram ter recebido agentes com efeitos condroprotetores (como glicosamina e condroitina) nas 14 semanas que antecederam o estudo, os que faziam uso crônico de opioides ou os que estavam aguardando artroscopia ou artroplastia de joelho.1 Também não poderiam participar aqueles que não conseguissem permanecer em um aparelho de ressonância ou não pudessem receber gadolínio intravenoso.1 Os participantes foram randomizados para receber CH ou placebo.1 O colágeno usado nesse estudo foi Fortigel®, na dose de 10 gramas, em um veículo que continha 0,4 g de frutose, extrato de malte, ácido cítrico, xantano, sorbato de potássio, acessulfame-K, sucralose e sabores naturais e artificiais em 10 mL de água.1 O placebo, idêntico em aparência e sabor, continha excipientes idênticos, embora sem CH.1 Durante o estudo, foi permitido aos participantes continuar a tomar regularmente analgésicos ou anti-inflamatórios não esteroides.1 Toda a medicação usada deveria ser anotada para posterior conferência.1

As avaliações foram feitas no momento inicial e nas semanas 8, 16, 24, 32, 40 e 48.1 As imagens dGEMRIC e T2 foram feitas no início e nas semanas 24 e 48 (em três ocasiões).1 Após a injeção de gadolínio, os pacientes precisavam caminhar por 10 minutos para ajudar no transporte do contraste até os tecidos.1 A imagem dGEMRIC era realizada 90 minutos após a injeção.1 Em cada visita era avaliada a dor durante as 24 horas anteriores usando-se a escala 3.0 do WOMAC-Likert e uma escala visual analógica de dor global.1 A capacidade funcional foi medida usando-se os testes cronometrados de caminhada de 20 metros e o exercício de levantar-se de uma cadeira.1 Foi também documentado o consumo geral de analgésicos concomitantes em cada visita.1 Os pacientes foram orientados a marcar, em calendários de papel fornecidos a cada um deles, o nome e a quantidade dos analgésicos usados.1

Os participantes foram instruídos a registrar em seu calendário de estudos qualquer alteração de saúde ou dos medicamentos feita durante o estudo.1 Os grupos ativo e de controle, nos valores iniciais (primeira ressonância) do índice dGEMRIC, não apresentaram diferenças significativas entre si.1 Em relação ao uso da medicação ativa ou de placebo, a adesão foi, de modo geral, bastante alta (96,2%) entre todos os participantes.1

DISCUSSÃO

Esse estudo sobre o índice dGEMRIC foi validado por se tratar de uma técnica capaz de indicar a concentração de proteoglicano na cartilagem hialina.1 O CH é absorvido após a administração oral e distribuído às articulações.1,4 O composto estimula os condrócitos cultivados a sintetizar colágeno tipo 2 e proteoglicanos.1,7 Em outros estudos in vivo, o CH retardou o desenvolvimento e a progressão de lesões da OA.1,6 Houve mudança significativa do índice dGEMRIC entre os grupos apenas nos compartimentos medial e lateral da cartilagem da tíbia.1 Nessas regiões, a pontuação dGEMRIC aumentou entre os que usaram CH (Fortigel®), mas diminuiu no grupo placebo.1 Isso não ocorreu em outros locais da articulação.1 Essas inconsistências podem refletir, em termos regionais, benefícios diretos do CH (Fortigel®).1 Portanto, esses resultados podem ser vistos como uma afirmação de que a técnica dGEMRIC e a intervenção com CH merecem mais estudos com amostra maior.1 Também foram negativas as medidas secundárias de resultados clínicos, inclusive as medidas de dor e função física.1 Ambos os grupos exibiram melhora das pontuações.1 No entanto, devemos considerar que não havia homogeneidade em relação à gravidade clínica entre os grupos no início do estudo, o que pode interferir em nossa avaliação final.1 Além disso, permitiu-se que os participantes continuassem a usar os analgésicos anteriores, o que pode ter atenuado qualquer eficácia clínica.1 Estudos futuros devem usar uma abordagem que diminua essa possibilidade, como o uso de washout analgésico anterior a cada avaliação de dor.1 Foi pertinente a restrição dessa amostra a indivíduos com OA de joelho relativamente leve, uma vez que a técnica dGEMRIC exige a presença de cartilagem remanescente para fornecer medições confiáveis.1 Em segundo lugar, inferiu-se, com base nos dados laboratoriais sobre o CH, que seu potencial para estimular uma resposta eficaz de condrócitos pode depender da presença de matriz colágena intacta.1 Consequentemente, os resultados desse estudo podem ser aplicáveis apenas à OA leve, e não aos casos de doença de maior gravidade.1

A imagem abaixo é muito significativa. (Figura 1) Na linha superior estão as ressonâncias com a técnica dGEMRIC feitas no dia 1, na semana 24 e na semana 48 de pacientes que ingeriram placebo, enquanto na linha inferior estão as ressonâncias de pacientes que fizeram uso de colágeno hidrolisado Fortigel®.1 A captação corada com vermelho mostra a presença de gadolínio e a captação em verde a de licosaminoglicano.1

No grupo que fez uso de placebo a quantidade de gadolínio não se alterou entre o primeiro e o último exame.1 No grupo que usou colágeno hidrolisado vemos uma mudança significativa, que demonstra a substituição desse espaço por glicosaminoglicano.1 Disso podemos concluir que o colágeno hidrolisado (Fortigel®) ingerido foi absorvido, caiu na corrente sanguínea e chegou à cartilagem, na qual foi capaz de aumentar a produção do glicosaminoglicano perdido pela OA.
 
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PONTOS FORTES DESSE ESTUDO

- Duplo-cego.1
- Randomizado.1
- Controlado com placebo.1
- Não invasivo.1
- Feito com seres humanos.1
- Teve boa adesão ao uso de colágeno Fortigel® e de placebo.1
- Os grupos apresentaram imagens semelhantes na primeira avaliação.1
- Avaliação da quantidade de glicosaminoglicanos na cartilagem(sabemos que a diminuição de glicosaminoglicano é uma das principais características da OA, o que leva à perda do espaço
articular e da capacidade de absorver impactos).8