INTRODUÇÃO

A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) é uma doença rara, porém grave, que foi relatada em crianças e adolescentes aproximadamente 2–4 semanas após o início da COVID-19.1

Em 14 de maio de 2020, o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) publicou um comunicado de saúde que resumiu as manifestações da SIM-P e pediu aos médicos que relatassem casos suspeitos aos departamentos de saúde locais e estaduais nos EUA. Em 29 de julho, um total de 570 pacientes que atenderam à definição de caso foram reportados (incluindo casos com início entre 2 de março a 28 de julho).1

RESULTADOS


A mediana da idade dos pacientes foi de 8 anos (variação: 2 semanas a 20 anos); 55,4% eram do sexo masculino, 40,5% eram hispânicos ou latinos (hispânicos), 33,1% eram negros não-hispânicos e 13,2% brancos não-hispânicos. Aproximadamente dois terços não tinham condições médicas subjacentes preexistentes antes do início da SIM-P, sendo obesidade a condição mais comumente relatada, em 30,5% dos hispânicos, 27,5% dos negros e 6,6% dos pacientes brancos com SIM-P.1

Dos 570 pacientes, 203 (35,6%) casos apresentaram um curso clínico consistente com o de publicações anteriores, caracterizados predominantemente por:1
  • Choque;
  • Disfunção cardíaca;
  • Dor abdominal;
  • Marcadores inflamatórios elevados.

Os 367 (64,4%) pacientes restantes apresentaram manifestações que pareceram se sobrepor à COVID-19 aguda, tinham um curso clínico menos grave ou tinham características de Doença de Kawasaki.1

Em geral, em 490 (86,0%) pacientes, a doença envolveu quatro ou mais sistemas de órgãos.1
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Figura 1. Sinais e sintomas em pacientes com SIM-P no período de março a julho de 2020 nos Estados Unidos. (Adaptado de Godfred-Cato S et al. MMWR. 2020;69:1074–1080.)1

Entre todos os 570 pacientes, 527 (92,5%) foram tratados (Figura 2).1
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Figura 2. Tratamentos realizados em pacientes com SIM-P no período de março a julho de 2020 nos Estados Unidos. (Adaptado de Godfred-Cato S et al. MMWR. 2020;69:1074–1080.)1

Dados da evolução clínica:1
  • Duração mediana da hospitalização: 6 dias;
  • Necessidade de UTI: 364 pacientes (63,9%);
  • Óbitos: 10 pacientes (1,8%).

Além desses resultados obtidos, a análise de classes latentes (LCA), uma técnica de modelagem estatística que pode dividir os casos em grupos por semelhanças subjacentes, foi utilizada para identificar e descrever diferentes manifestações em pacientes que atendiam à definição de SIM-P. As variáveis indicadoras utilizadas na LCA foram:1
  • Presença ou ausência de resultados de exames positivos para SARS-CoV-2 por reação em cadeia da polimerase de transcrição reversa (RT-PCR) ou sorologia;
  • Choque;
  • Pneumonia;
  • Envolvimento de sistemas (ou seja, cardiovascular, dermatológico, gastrointestinal, hematológico, neurológico, renal ou respiratório).
Essa análise identificou três classes de pacientes (Tabela 1), cada uma com manifestações da doença significativamente diferentes relacionadas a algumas das variáveis indicadoras.1 

Tabela 1. Principais características das 3 classes de pacientes com SIM-P.
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(Adaptado de Godfred-Cato S et al. MMWR. 2020;69:1074–1080.)1

Quase todos os pacientes da classe 1 (98,0%) tiveram resultados positivos do exame de sorologia contra o SARS-CoV-2 (Tabela 2). Estes casos se assemelhavam muito à SIM-P sem sobreposição com COVID-19 ou doença de Kawasaki aguda.1

Os sintomas dos pacientes da classe 2 indicam que as manifestações podem ter sido atribuídas principalmente à COVID-19 aguda ou à combinação de COVID-19 aguda e SIM-P. A taxa de positividade (84,0%) no exame de RT-PCR (com sorologia negativa ou sem dados desse exame) neste grupo foi significativamente maior do que para os pacientes da classe 1 (0,5%) ou classe 3 (2,0%) (p <0,01) (Tabela 2). A taxa de letalidade entre os pacientes da classe 2 foi a mais alta (5,3%) entre as três classes (p <0,01).1

Dos pacientes da classe 3, 63,1% tiveram sorologia positiva contra o SARS-CoV-2 apenas e 33,8% tiveram confirmação sorológica e resultados positivos de RT-PCR.1

Tabela 2. Resultados dos exames para detecção de infecção por SARS-CoV-2 nas 3 classes de pacientes com SIM-P.
 
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(Adaptado de Godfred-Cato S et al. MMWR. 2020;69:1074–1080.)1

DISCUSSÃO


Como as manifestações clínicas são inespecíficas e não existem exames laboratoriais confirmatórios, pode ser difícil distinguir a SIM-P de outras condições com quadro clínico sobreposto, como COVID-19 aguda grave e doença de Kawasaki. A análise da classe latente é particularmente útil para descrever as diferentes manifestações de uma nova síndrome clínica. Ela divide os pacientes em grupos que podem não ter sido reconhecidos anteriormente, com base em características compartilhadas, permitindo uma determinação imparcial das manifestações da doença.

Os pacientes identificados na classe 1 tiveram pouca sobreposição com COVID-19 aguda ou doença de Kawasaki, enquanto os pacientes na classe 2 tiveram manifestações clínicas e laboratoriais que se sobrepuseram à COVID-19 aguda. Essa sobreposição pode resultar do desenvolvimento da SIM-P logo após a doença aguda sintomática por COVID-19. No entanto, a presença de doença aguda isolada por COVID-19 não pode ser descartada em alguns desses pacientes. Os pacientes da classe 3 geralmente pareciam ter SIM-P menos grave e manifestações clínicas que se sobrepunham à doença de Kawasaki. Portanto, distinguir esses pacientes daqueles com doença de Kawasaki verdadeira pode ser difícil e, conforme a pandemia de COVID-19 se espalha, os pacientes com doença de Kawasaki podem ser erroneamente identificados com SIM-P devido a um achado incidental de anticorpos para SARS-CoV-2.1
 
A proporção de obesidade em crianças com SIM-P de todas as raças avaliadas no estudo é ligeiramente maior do que a relatada na população pediátrica geral. Indivíduos hispânicos e negros representaram a maior proporção (73,6%) dos pacientes relatados com SIM-P. De fato, já foi relatado que a COVID-19 aguda afeta desproporcionalmente hispânicos e negros. Iniquidades de longa data nos determinantes sociais da saúde, como habitação e instabilidade econômica, têm sistematicamente colocado populações de minorias sociais, raciais e étnicas em maior risco de COVID-19 e doenças mais graves, possivelmente incluindo a SIM-P.1

A maioria dos casos de SIM-P apresenta características de choque, com envolvimento cardíaco, sintomas gastrointestinais e marcadores de inflamação significativamente elevados, com resultados de testes laboratoriais positivos para SARS-CoV-2.

À medida que a pandemia de COVID-19 prossegue, os profissionais de saúde devem continuar monitorando os pacientes para identificar crianças com síndrome hiperinflamatória com choque e envolvimento cardíaco. Distinguir pacientes com SIM-P daqueles com COVID-19 aguda e outras condições hiperinflamatórias é fundamental para o diagnóstico precoce e tratamento adequado. Também é fundamental para monitorar eventos adversos potenciais de uma vacina para a COVID-19 quando esta se tornar amplamente disponível.1 

CONCLUSÕES

A maioria dos casos de SIM-P apresenta características de choque, com envolvimento cardíaco, sintomas gastrointestinais e marcadores de inflamação significativamente elevados, com resultados de exames laboratoriais positivos para SARS-CoV-2.1 

Distinguir a SIM-P de outras condições infecciosas ou inflamatórias graves representa um desafio para os médicos que cuidam de crianças e adolescentes. Como a pandemia da COVID-19 continua a se expandir, a conscientização dos profissionais de saúde sobre a SIM-P facilitará o diagnóstico precoce e tratamento imediato.1
 

REFERÊNCIAS

  1. Godfred-Cato S, Bryant B, Leung J, et al.

    COVID-19–Associated Multisystem Inflammatory Syndrome in Children — United States, March–July 2020.

    MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2020;69:1074–1080.