INTRODUÇÃO

Os profissionais de saúde na linha de frente que cuidam de pacientes com COVID-19 possuem alto risco de serem infectados pelo vírus SARS-CoV-2. Desta forma, compreender a prevalência e os fatores associados à infecção entre os profissionais de saúde são importantes para proteger tanto o profissional quanto seus pacientes.1

A maioria das pessoas infectadas por SARS-CoV-2 desenvolve anticorpos contra as proteínas do vírus entre 1 e 2 semanas após a infecção. O teste sorológico, embora tenha sensibilidade e especificidade variáveis, pode ser um marcador útil para identificar infecção anterior por SARS-CoV-2. Neste estudo, os anticorpos foram mensurados entre os profissionais de saúde que cuidavam regularmente de pacientes com COVID-19, com o objetivo de identificar infecções anteriores e descrever características associadas a resultados de testes soropositivos.1

METODOLOGIA

Entre 3 de abril e 19 de junho de 2020, foram coletadas amostras de soro de profissionais de saúde na linha de frente no combate à COVID-19 de 13 centros médicos acadêmicos geograficamente diversos nos Estados Unidos. Tais amostras foram testadas para anticorpos contra SARS-CoV- 2.1

Foram inscritos 3.248 profissionais, sendo 1.445 (44%) enfermeiros, 919 (28%) médicos, enfermeiros ou assistentes médicos, 235 (7%) terapeutas respiratórios e 648 (20%) tinham outras funções clínicas. O papel clínico de apenas um profissional era desconhecido. Dentre os participantes, 1.292 (40%) relataram trabalhar principalmente em UTI, 1.139 (35%) no departamento de emergência e 817 (25%) em outros locais.1

A idade média dos participantes era de 36 anos e a maioria (80%) não relatou nenhuma condição médica subjacente.1 

Os participantes foram questionados sobre características demográficas, histórico médico, potenciais sintomas de COVID-19 manifestados desde 1 de fevereiro de 2020, testes anteriores para infecção aguda de SARS-CoV-2 e o uso de equipamento de proteção individual (EPI).1 

RESULTADOS

Entre os 3.248 participantes, 194 (6,0%) tiveram resultados de testes positivos para anticorpos contra SARS-CoV-2.1
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/09/soroprevalencia-sars-cov-2-profissionais-de-saude-na-linha-de-frente-atendimento-da-covid-19/1-(1).ashx?w=625&hash=734FF5BFBE55784F7F567B0B47D19D8D
Figura 1. Soropositividade, presença de sintomas e dados sobre suspeita / diagnóstico de COVID-19 previamente em uma amostra de profissionais na linha de frente de combate à COVID-19 em 13 hospitais acadêmicos nos Estados Unidos, entre abril e junho de 2020. (Adaptado de Self WH, et al. Morbidity and Mortality Weekly Report. 2020;69(35):1221–1226.1)

A soroprevalência por hospital também variou de 0,8% a 31,2%.1

A presença de sintomas de doença viral aguda (a partir de 1º de fevereiro de 2020) foi mais prevalente em participantes com anticorpos detectados (71%) do que naqueles sem anticorpos detectáveis (43%) (p <0,001). Notavelmente, de 194 participantes com anticorpos detectados, 86 (44%) relataram que não acreditavam que tinham COVID-19 anteriormente, 56 (29%) relataram nenhum sintoma de doença viral aguda (desde 1º de fevereiro de 2020) e 133 (69%) não tiveram resultados de teste positivos anteriormente para infecção aguda por SARS-CoV-2.1

Um teste sorológico positivo anterior foi relatado por 61 participantes, representando:1
  • 31% dos 194 participantes com anticorpos detectados.
  • 66% dos 92 participantes que tinham teste positivo para infecção aguda, anterior ao teste de sorologia.
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/09/soroprevalencia-sars-cov-2-profissionais-de-saude-na-linha-de-frente-atendimento-da-covid-19/2.ashx?w=708&hash=D2B2915AAE8F35544C62DAFF134E4D3C
Figura 2. Soroprevalência de SARS-CoV-2 entre os profissionais da saúde na linha de frente (em 13 centros médicos acadêmicos dos Estados Unidos) e na comunidade local, entre abril e junho de 2020. (Adaptado de Self WH, et al. Morbidity and Mortality Weekly Report. 2020;69(35):1221–1226.1)

O uso de proteção facial (definida neste estudo como uma máscara cirúrgica, respirador N95 ou respirador-purificador de ar motorizado) durante todas as consultas na semana anterior à inscrição foi relatado por 2.904 (89%) participantes. A detecção de anticorpos contra  SARS-CoV-2 foi menos comum entre os participantes que relataram o uso de uma proteção facial durante todas as consultas médicas (6%) do que entre aqueles que não o fizeram (9%) (p = 0,012). A escassez de qualquer equipamento de EPI desde 1º de fevereiro de 2020 foi relatada por 398 (12%) participantes. Em oito dos 13 centros médicos, mais de 10% dos participantes mencionaram a falta de EPI, sendo os respiradores N95 os mais comumente relatados (5% dos participantes). Uma porcentagem maior de participantes que relatou falta de EPI tinha anticorpos contra SARS-CoV-2 detectáveis (9%) do que aos que não relataram (6%) (p = 0,009).1
 
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/09/soroprevalencia-sars-cov-2-profissionais-de-saude-na-linha-de-frente-atendimento-da-covid-19/3.ashx?w=595&hash=7407AF7F4B7FCC956B3780EF5BC67341
(Adaptado de Self WH, et al. Morbidity and Mortality Weekly Report. 2020;69(35):1221–1226.1)

DISCUSSÃO

Entre as amostras de profissionais da saúde que rotineiramente cuidaram de pacientes com COVID-19, 6% (194/3.248) tinham evidências de infecção anterior por SARS-CoV-2, com variação considerável por local. Essa taxa geralmente se correlacionou com a incidência  cumulativa da doença na comunidade.1 

Entre os participantes que tiveram resultados de teste positivos para anticorpos contra SARS-CoV-2:1
  • Aproximadamente 1/3 não se lembrava de nenhum sintoma consistente com uma doença viral aguda nos meses anteriores.
  • Quase metade não suspeitava que tinham COVID-19 anteriormente.
  • Aproximadamente ⅔ não tinham um resultado de teste positivo anterior que demonstrasse uma infecção aguda por SARS-CoV-2.
Essas descobertas sugerem que, assim como a população em geral com COVID-19, muitos profissionais da saúde na linha de frente podem ser assintomáticos ou minimamente sintomáticos durante a infecção e, portanto, a infecção pode não ser detectada.1

Este estudo resultou na identificação de dois fatores potencialmente associados à infecção por SARS-CoV-2 entre os profissionais da saúde: falta de EPI e interação com pacientes sem uso de proteção facial. Esses achados destacam a importância de manter os suprimentos de EPIs nos hospitais que atendem pacientes com COVID-19 e a adesão de políticas que incentivam o uso de máscaras em todas as interações entre os profissionais e pacientes.1
 

A soropositividade contra o SARS-CoV-2 foi detectada em 6% dos profissionais de saúde na linha de frente no atendimento da COVID-19, trazendo evidências de infecção prévia. Dentre esses profissionais, uma alta proporção de indivíduos com anticorpos positivos não suspeitava de ter sido previamente infectada (44%) e 69% não tinham testes positivos anteriormente. Dois fatores potencialmente associados à infecção por SARS-CoV-2 entre os profissionais da saúde: falta de EPI no serviço e interação com pacientes sem uso de proteção facial.1

CONCLUSÕES

Evidências de infecção anterior por SARS-CoV-2 foram detectadas em 6% dos profissionais de saúde na linha de frente de 13 centros médicos acadêmicos nos Estados Unidos, embora a prevalência varie consideravelmente por local. Uma alta proporção de pessoas com anticorpos não suspeitou de ter sido previamente infectada.1 

O risco de transmissão de SARS-CoV-2 dentro dos hospitais pode ser mitigado pela adesão às práticas recomendadas, como manter suprimentos de EPI, instituir políticas de proteção facial universal nos hospitais, coortes de profissionais dedicados para cuidar de pacientes com COVID-19 e triagem aprimorada, incluindo testes frequentes nos profissionais que atuam na linha de frente.1
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/09/soroprevalencia-sars-cov-2-profissionais-de-saude-na-linha-de-frente-atendimento-da-covid-19/4.ashx?w=563&hash=3BA5606B0F12B9114C4F026A59D86BEA