Cerca de 800 mil pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde, morrem a cada ano no mundo após cometer suicídio. É como se houvesse uma morte desse tipo a cada 40 segundos no planeta1. No Brasil, a taxa de mortalidade é de 6,5 pessoas que se suicidam a cada 100 mil habitantes1. O índice pode parecer alto, mas não está entre os maiores do mundo. Países como Lituânia (31,9 por 100 mil habitantes), Rússia (30), Guiana (29,2) e Coreia do Sul (26,9) lideram o ranking, com taxas quase cinco vezes maiores que as do Brasil1

A preocupação com a prevenção do suicídio é algo crescente há alguns anos. Tanto que foi lançada, em 2014, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) uma campanha nacional: o Setembro Amarelo, que busca conscientizar a população sobre a importância de prevenir o suicídio2. Para o psiquiatra Dr. Humberto Corrêa, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), a campanha vem colhendo bons resultados, embora os números no país continuem preocupantes. “O Setembro Amarelo é uma campanha spalhada pelo Brasil, mas o suicídio ainda é um assunto cercado de muitos estigmas. As pessoas têm dificuldade em falar sobre isso. Como não existe uma campanha do governo abordando o tema, algo que ocorre em outros países, a campanha surgiu para sensibilizar e educar as pessoas. No Brasil, cerca de 10 mil pessoas se suicidam por ano2. Como sabemos que há subnotificação no país, esse número deve ser maior2”, lamenta o psiquiatra mineiro. Dr. Corrêa ressalta que o problema no país é a falta de políticas públicas para a prevenção do suicídio. Segundo ele, a OMS propôs, no final da década de 1990, que os países criassem métodos de prevenção ao suicídio. “O Brasil assinou esse compromisso, mas não criou nenhuma estratégia de fato. Em 2008, a OMS lançou outro desafio: reduzir a mortalidade por suicídio em 15% até 20203. No Brasil, a mortalidade aumentou na
última década4”, revela.
Riscos a serem considerados 
Apesar da conscientização maior provocada pela campanha, os especialistas acreditam que a prevenção ao suicídio não é algo que deve ficar restrito ao mês de setembro. Segundo a psiquiatra Drª. Alexandrina Meleiro, diretora científica da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), o tema deve ser lembrado sempre. “Defendo que é preciso ‘amarelar’ o ano todo”, ressalta. Em seus consultórios, os profissionais da Saúde, em especial os que atuam com os transtornos psiquiátricos, precisam estar atentos todo o tempo para os fatores de risco2

Drª. Alexandrina conta que dados da OMS mostram que cerca de 97% das pessoas que cometeram suicídio tinham registro prévio de alguma doença mental5. A prevalência é de transtornos de humor (35,8%), transtornos por uso de substâncias psicoativas (22,4%), transtornos de personalidade (11,6%) e esquizofrenia (10,6%)5. Porém, a questão da saúde mental não é o único fator de risco para o suicídio. A lista é grande. 

“São diversos fatores, e temos que olhar para todos eles na hora da prevenção2. O primeiro é o sexo. Homens têm uma probabilidade duas vezes maior de se suicidar6,7. A idade também é um fator de risco: adolescentes e idosos são grupos de alto risco6,7. Porém, é importante estar alerta para todas as faixas de idade. Outro fator é a orientação sexual: os LGBTQI+ têm mais risco de suicídio8. Esse dado, contudo, não tem como ser comprovado no Brasil, pois a orientação sexual não é informada no atestado de óbito”, destaca a médica.

Outro ponto importante entre os fatores de risco é a questão do laço social. Dr. Corrêa realça que, quanto mais laços um indivíduo tem, mais protegido ele está2. “Como regra, por exemplo, quem é casado se suicida menos que solteiros, viúvos ou divorciados. Quem tem filhos se suicida menos que quem não tem. Quem está trabalhando se suicida menos do que desempregados ou aposentados. Quem tem uma religião se suicida menos de quem não tem. O curioso nesse aspecto é que não importa a religião. É mais o sentimento de pertencimento a uma comunidade2”, explica.

Os médicos explicam que nem sempre esses laços sociais são preventivos. “Pessoas casadas cometem menos suicídios, mas um casamento disfuncional, por exemplo, é um fator de risco, assim como crises econômicas, perda de poder aquisitivo, rompimentos conjugais, como um namoro ou noivado, e o desemprego2”, argumenta Drª. Alexandrina.

Sinais de alerta 
Avaliar se um paciente está em risco de tentar o suicídio é algo que muitos médicos, em especial os psiquiatras, precisam fazer o tempo todo2. Dr. Corrêa ressalta que, como não existe um exame laboratorial ou por imagem que mostre se aquele indivíduo tem risco de tentar o suicídio, a avaliação é com base no julgamento clínico2. “O que o médico faz é colocar na balança se o paciente apresenta fatores de risco, como idade e falta de laços sociais, ou estressores, como perda de alguém próximo e desemprego recente. Também é preciso analisar se a pessoa tem acesso a um meio para o suicídio6. As pessoas, em geral, se matam com um método de mais fácil acesso6”, explica.

Além de levar em consideração os fatores de risco, o psiquiatra destaca que há sinais que devem acender um alerta para o médico. “Estudos mostram que a maioria dos pacientes, dias ou semanas antes de tentar o suicídio, comunica sua intenção a terceiros, seja um parente, amigo ou até mesmo ao médico9. Existe o mito de que quem quer se matar não avisa. Isso é mentira. A maioria das pessoas avisa. Outra mentira: o médico não deve perguntar para o paciente se ele tem ideais de suicídio. O profissional precisa, sim, durante a entrevista, questionar se a pessoa já pensou ou tem planos de se matar2”, afirma Dr. Corrêa. 

Para a Drª. Alexandrina, por vezes, o próprio indivíduo consegue identificar que ele corre o risco do suicídio. “A própria pessoa pode identificar nela o risco, quando começa a perceber que não tem ânimo para acordar e ir para o trabalho ou para a escola. Ou se não vê mais prazer nas coisas. Pensar em estar morto se torna algo familiar ou desejado9. É claro que existem pessoas com traços impulsivos. Uma mulher pode chegar em casa e flagrar o marido com outra e, em vez de atentar contra eles, decide se matar. Em geral, porém, a mudança de comportamento é gradual e pode ser percebida2,9”, orienta.

Mesmo com sinais de alerta, no entanto, por vezes as pessoas mais próximas não veem ou não aceitam a ideação suicida. Por isso, é importante que o médico também atue junto à família do paciente, caso perceba algum comportamento de risco2. “Não gosto de dizer que a família tem um papel importante na prevenção porque, se a pessoa comete suicídio, a família acaba se culpando depois. ‘Como não percebi?’. Às vezes, é difícil aceitar. Os pais, por exemplo, podem achar impossível um filho se matar e negam as coisas que estão ali, tão claras. É algo inconsciente”, analisa Drª. Alexandrina. 

Acolhimento por todo lado 

Por fim, a psiquiatra gosta de enfatizar que a prevenção do suicídio não deve ser algo restrito à família. Colegas de trabalho e de escola podem ajudar a detectar mudanças de comportamento. O médico precisa orientar, sempre que possível, as pessoas próximas do paciente, sempre que perceber algum sinal de alerta, que pode ser apenas frases com ideação suicida indireta2. Como exemplo, ela cita pessoas que falam: “Não suporto mais essa situação”, “Gostaria de estar morto” ou “Dessa maneira, não vale a pena viver”. 

“O que o médico faz é colocar na balança se o paciente apresenta fatores de risco ou estressores. Também é preciso analisar se a pessoa tem acesso a um meio para o suicídio6” Dr. Humberto Corrêa 

 

“Se o médico percebe que o indivíduo usa essas frases com frequência enquanto fala, não pode se silenciar: é preciso perguntar mais, saber se a pessoa tem algum plano. Mas o primeiro passo é ouvir. Ouça com atenção o que o paciente tem a dizer. Um desabafo pode ser importante, porque traz alívio. Tenha empatia e não coloque julgamentos nem críticas nessa conversa2. Muitos familiares acreditam que a pessoa só quer chamar atenção e fazem julgamentos. O que elas precisam fazer é estar alertas”, orienta Drª. Alexandrina.

REFERÊNCIAS

  1. World Health Organization (WHO).

    World health statistics 2019: monitoring health for the SDGs – Sustainable Development Goals.

    Geneva: World Health Organization; 2019

  2. Associação Brasileira de Psiquiatria, Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio.

    Suicídio: informando para prevenir.

    Brasília: CFM/ABP; 2014.

  3. World Health Organization (WHO).

    National suicide prevention strategies: progress, examples and indicators.

    Geneva: World Health Organization; 2018.

  4. Rodrigues CD, Souza DS, Rodrigues HM, Konstantyner TCRO.

    Trends in suicide rates in Brazil from 1997 to 2015.

    Braz J Psychiatry. 2019;41(5):380-388.

  5. Bertolote JM, Fleischmann A.

    Suicide and psychiatric diagnosis: a worldwide perspective.

    World Psychiatry. 2002;1(3):181-5.

  6. Bachmann S.

    Epidemiology of suicide and the psychiatric perspective.

    Int J Environ Res Public Health. 2018;15(7):1425.

  7. Lovisi GM, Santos SA, Legay L, Abelha L, Valencia E.

    Epidemiological analysis of suicide in Brazil from 1980 to 2006.

    Braz J Psychiatry. 2009;31(Suppl 2):S86-94

  8. Horwitz A et al.

    Variation in suicide risk among subgroups of sexual and gender minority college students.

    Suicide Life Threat Behav. 2020.

  9. Rudd MD.

    Suicide warning signs in clinical practice.

    Curr Psychiatry Rep. 2008;10(1):87-90.

  10. Yellow Ribbon Suicide Prevention Program.

    Our story: legacy of the yellow mustang [Internet].

    Acessado em: 10 mai 2020. Disponível em: https://yellowribbon.org/who-we-are/our-story.html.